quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O Ataque da perna cabeluda

             




As lendas urbanas não dão trégua e vez por outra elas ressurgem em locais e épocas diferentes. A lenda da Perna Cabeluda é originariamente pernambucana, dos anos 70. Porém ela ressurgiu em Fortaleza no final dos anos 80 e começo dos anos 90. A tal “perna cabeluda” causava grande alvoroço por onde passava. No município foi registrado casos nos bairros de Mondubim e José Walter.
Segundo os relatos ela perseguia as pessoas, assustando-as e provocando agressões contra suas vítimas.
Aproveitando a “onda”, uma dupla de vigaristas resolveu aprontar com os cidadãos. Confeccionaram uma vestimenta, que mais parecia um grande saco feito de um tecido escuro e felpudo com um furo no alto, para que pudessem olhar. Um dos pilantras ficava na cacunda do outro e se cobrindo com o “manto da assombração”, que em ambientes onde a luz fosse escassa ninguém duvidava que fosse algo do “outro mundo”, ou mesmo a tal “Perna cabeluda” e saiam pelos arredores pregando peça nas pessoas incautas, subtraindo-lhes os pertences.
Eis um desses surpreendentes relatos:
                 Já passava das três horas da madrugada do domingo, quando Lúcia e Edineia, retornavam às suas residências, depois de terem passado a noite se divertindo no forró.
Enquanto caminhavam até o ponto de ônibus, onde aguardariam o coletivo que as levariam de volta a suas casas, iam conversando alegremente:
- Mulher, estou “morta” de cansada, aquele homem com o qual fiquei na noite de hoje só queria estar dançando. – Disse Lúcia, bocejando.
- Querias o quê mulher? O cara pagando tudo pra nós, Tu tinha mesmo era que dançar... e muito! O macho que eu arrumei era mais fraco que “caldo de pedra”, fumava tanto que parecia uma chaminé ambulante. O miserável mal pagou duas cervejas e já queria dar uma “saidinha”. Pode um negócio desses? Foi por esse motivo, não o de não querer sair com ele, mas por ele ser tão “pão duro”, que eu lhe dei um fora e fiquei com vocês na mesa. – Falou Edineia, dando uma risada extravagante.
- Edineia, passou ontem na televisão que um homem foi atacado pela Perna Cabeluda e o coitado foi parar no hospital depois de ter levado uma surra dela. – Comentou Lúcia.
- E tu acreditaste nessa conversa mulher? Isso é coisa de gente querendo amedrontar as pessoas. Isso é conversa de Trancoso! Perna cabeluda que eu conheço só a perna do Sandoval, o meu vizinho. O miserável tem as pernas tão finas e tão cabeludas que parece patas de caranguejo. - Tascou Edineia, dando nova gargalhada, jogando os cabelos para trás.
   Quando transitavam em um estreito beco que dava acesso a avenida principal, local onde as amigas esperariam o coletivo que as levaria de volta as suas casas, de longe avistaram algo que lhes chamou a atenção. A pouca luminosidade do ambiente impedia que elas identificassem o que realmente era aquilo que se encontrava a aproximadamente cinquenta metros de distância do local em que elas se encontravam. A estranha figura foi se aproximando, enquanto as amigas, assustadas e com as pernas tremendo mais que “cipós de vara verde”, tentavam divisar o rosto do indivíduo que aparentava ter aproximadamente dois metros e meio de altura.
Quanto mais perto o indivíduo chegava, mais aterrorizadas as mulheres iam ficando. A distância foi diminuindo e a forma do ser foi se delineando, mostrando um corpo sem cabeça e sem membros superiores e todo peludo. Em uníssono som gritaram:
- É a Perna Cabeluda!
- E agora, meu Deus, o que vamos fazer? - Falou Lúcia, desesperada.
- Corre mulher, senão ela vai pegar a gente. - Gritou Edineia, apavorada!
- Tu disseste que não acreditava que ela existia, mulher? – Acrescentou Lúcia.
- Mudei de ideia, cunhã. Se isso que está ai na nossa frente não for coisa do capeta, de Deus é que não é! – Falou Edineia aterrorizada.
As duas saíram em desesperada correria e a entidade seguiu atrás. Em determinado ponto do trajeto elas foram alcançadas pela estranha figura que lhes-deu um pontapé nos traseiros, levando-as a caírem no chão, ficando desacordadas por pequeno lapso de tempo.
O sol já estava raiando quando as amigas retornaram à consciência e constataram que haviam tido suas bolsas roubadas. Logo surgiram alguns transeuntes que as ajudaram a levantarem-se do chão. Um senhor que passava por perto, vendo a situação das duas mulheres deu-lhes uns trocados para que elas pudessem pegar o coletivo até suas residências.




                     Otaviano Maciel de Alencar Filho
    (Copyright© 2016 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

terça-feira, 13 de setembro de 2016

A roda da vida










Tens Tu a capacidade de avaliar o meu amor por ti?
Desdenhas, por acaso, o meu sacrifício e as torturas íntimas que me assolam em favor de ti?
Sofro calado, por conta própria, o desatino de ousar discordar!
Somos herdeiros, embora em esferas de atuações diferentes, da confiança e do comprometimento para causa comum.
Não me vejas como “apartheid” e tampouco sem expressivo afeto.
Sou assim. O tempo me moldou. As circunstâncias permitiram-me este “status quo”.
Envaideço-me, na certeza de teu amor por mim!
Regozijo-me neste amor. Onisciente sou que pouco é o meu amor, diante teu amor por mim.
O tempo voraz, não tarda em chegar.
Quando a hora soar, a despedida será por um pouco.
Tornarei a te procurar.
Espero contigo novamente estar e continuarmos, mesmo que veladamente, sem ostentação, nossa completude existencial!




Otaviano Maciel de Alencar Filho

                                      (Copyright© 2016 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A insistência do amor



O retorno às aulas, depois de um reconfortante período de férias, é sempre motivo de ansiedade para a maioria dos estudantes. O início do ano letivo traz consigo o prazer de poder encontrar os velhos amigos e conhecer novos colegas que vieram de outras salas ou mesmo de escolas diferentes. 
O clima de descontração que reinava no pátio da entidade estudantil favorecia o bate papo alegre que, de costume, acontece antes de todos entrarem para as salas de aula. 
Júlio, um garoto de quinze anos de idade, porém muito tímido, e que estava na oitava série, não costumava fazer parte das rodas de discussões que normalmente acontece entre os garotos de sua idade, preferia ficar isolado em um canto qualquer estudando ou lendo algum livro enquanto não soava a sineta indicativa do momento de ir para a sala. 
Sua timidez não permitia que ele tivesse um grande círculo de amizade. Era um rapaz muito inteligente e prestativo. Na sala de aula ficava sempre na “sua” e só falava quando era perguntado sobre alguma coisa pela professora. 
Certa vez, durante o recreio, Júlio percebeu uma garota olhando para ele de um jeito estranho: sorria e não se cansava de ficar ali, de prontidão, feito um monumento. Como não tinha coragem de ir até a garota e conversar, fazia de conta que nada estava acontecendo e desviava o olhar. Essa situação passou a ser recorrente todos os dias. 
Júlio, então procurou se informar com seus colegas de classe sobre quem era aquela menina e descobriu que ela fazia a quarta série. Depois ficou sabendo, através de uma colega de sala, que ela se chamava Sônia e que tinha doze anos e havia sido transferida do turno da manhã para o turno da tarde, pois estava repetindo o ano e não se adequava ao período matutino. 
Sônia era uma bela garota, talvez a mais bonita da escola. Morena de cor clara, sorriso farto, lindas pernas e um andar que “desconcertava” qualquer garoto de sua idade.  Já havia ganhado um concurso de miss promovido pela escola no ano anterior. 
Acontece que a situação foi ficando cada vez mais vexatória para Júlio, pois a garota estava apaixonada por ele a tal ponto de ausentar-se de sua sala de aula para ir até a dele. Ficava encostada na porta feito uma estátua, em estado de êxtase, olhando para ele. Os alunos e a professora passaram a desconfiar e, a professora, por sua vez, passou a expulsar a menina para sua sala de aula, e os alunos começaram a “tirar onda” com ele. 
Seus colegas de sala diziam: 
- Cara se fosse comigo eu não dava mole, não. Uma mina dessas, bonita e “gostosa”, eu não deixava escapar! 
Júlio, por sua vez, dizia: 
- Vocês estão doidos, ela é uma piveta. Sai dessa! 
No mês de Junho, pela passagem das festividades juninas, a escola promoveu um arraiá com quadrilha improvisada. Muitos alunos participaram.  Sônia, então, aproximou-se de Júlio e o convidou para formarem um par para poderem participar da brincadeira. Júlio, a princípio, ficou relutante, mas terminou aceitando o convite. A alegria de Sônia era vista estampada em seu semblante. Ela estava linda: trajava um vestido colorido de saia rodada, fitas coloridas nos cabelos e uma maquiagem impecável. 
Durante a apresentação, que ocorreu por volta das seis horas da noite, no momento do passe “passeio dos namorados”, Sônia segurou Júlio pela cintura e deu-lhe um beijo no rosto, deixando uma marca de batom vermelho. Neste momento Júlio não pensou duas vezes e retribuiu-lhe o afeto com outro beijo. 
Terminada a apresentação os dois foram para um local afastado da multidão, sentaram em uma calçada e ficaram conversando, tomando aluá com bolo de milho. Sônia quis saber por que ele não “dava a mínima para ela” durante todo esse tempo em que ela ficava “dando em cima dele”. Júlio, esforçando-se para vencer a timidez, respondeu que era o seu jeito de ser: Assim mesmo, calado! Sônia abraçou-o novamente e, deitando-se sobre suas pernas, passou a contemplar as estrelas que cintilavam no céu azulado. Desde então, os dois passaram a viverem bons momentos juntos.





                                                 Otaviano Maciel de Alencar Filho
                                  (Copyright© 2016 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Teu jeito de ser






Vi em teus olhos uma luz brilhar
Em teu meigo rosto um brilho solar
Vi em teu sorriso um laço de amor
E em teus lábios a cor do pecado.

Pequena morena dos lábios carnudos
Tua tez desnuda o meu pensar proibido
Teu andar me tortura a alma
Teus carinhos me enlaçam.

Teus abraços me afagam
Teu silêncio me cala
Teus verbos me consolam.

Teu doce jeito de ser
Fez meu coração abrasar:
Quero contigo casar!






Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 2016 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

A sina de cada um



 Reza a tradição popular que existem indivíduos que desde o nascimento estão irremediavelmente submetidos ao sucesso ou ao fracasso, a sorte ou ao azar, a saúde ou a doença, e a tantas outras situações de oposição que fazem parte da vivência do ser humano. 
Sem fazer juízo desta assertiva relatarei o caso de um indivíduo que parece justificar esta proposição. 


O designarei pelo nome de C.. Porém, antes de contar algumas situações embaraçosas, ocorridas no dia a dia, conhecidas por todos aqueles de seu círculo de amizade, procurarei traçar um pouco o seu perfil. 

C.. é um sujeito de estatura mediana, barriga saliente e portador de um trejeito que lhe dera o divertido apelido de “bicudo”, pois vivia “fazendo bico” com os lábios. Um tanto intempestivo, é daqueles que não leva desaforo para casa. É pavio curto! Mesmo assim é muito vaidoso: Gosta de andar na “pinta”, curtir músicas internacionais “dance”, dos anos oitenta e aos finais de semana, especialmente na sexta feira, tomar “uma gelada” com alguns colegas de trabalho. Tempos atrás fez “luzes” no cabelo, procedimento este que o deixou mais jovial, afinal já era um “quarentão” chegando aos cinquenta. Essa mudança fez com que os companheiros de trabalho tirassem sarro de sua atitude em pintar os cabelos naquela tonalidade. Passou uma semana injuriado, sem falar com ninguém, “fazendo bico”. 
Certo dia, quando o expediente terminara, ele e alguns colegas encontravam-se no ponto de ônibus, aguardando a chegada do coletivo. Por sobre suas cabeças passou um bando de pombos e um deles soltou uma rajada de fezes bem em cima de sua cabeça. Foi o suficiente para que ficasse aborrecido até o dia seguinte. 
Dias atrás, meio dia e com o sol a pino, na casa dos 40°C, estava ele em pleno desenvolvimento das tarefas relativas ao seu trabalho, que é a distribuição de correspondências à domicílio, quando um senhor que fazia uma mudança, achou por bem pedir que ele o ajudasse a subir um guarda-roupa para o andar superior da residência, mesmo em meio a várias pessoas que transitavam pelo local, o homem não quis nem saber se ele estava ocupado, o que o deixou irritado, mas mesmo assim cedeu ao pedido. 
Os acontecimentos na vida de C.. parecem corroborar o ditado popular, pois que outras situações constrangedoras continuaram e continuam a acontecer. 
Outro dia, em sua tarefa diária, ao colocar uma correspondência em uma caixa receptora, seus dedos ficaram presos na mesma. O problema foi que para colocar a carta ele teve de dar um salto, pois a caixa era muito alta, com os dedos presos, ficou na ponta dos pés durante quase meia hora em um sol escaldante, até que apareceu alguém para ajudá-lo a sair dessa situação. 
Os companheiros de trabalho dizem que isto acontece porque ele reclama de tudo. Mas, a bem da verdade, o que C.. quer é ver as coisas funcionando como deveriam funcionar: Tudo certo, no seu devido lugar. Mas como nem tudo ocorre da forma como deseja, ele se irrita e fica indignado com certos acontecimentos. 
Só mais um caso para não passar em branco: De outra feita, C.. estava em uma bicicleta e como a entrega dos objetos era dentro de uma vila, e não dava para entrar com a “bike”, ele a deixou encostada em um poste na entrada do beco e foi até a residência fazer a entrega do pacote. Quando retornou a bicicleta tinha caído e a bolsa com as demais correspondências tinha caído também, embaraçando todas elas. Tomado de insana cólera, ele segurou a bicicleta e a levantou jogando-a no chão varias vezes, dirigindo-lhe impropérios diversos, como se estivesse a falar com alguém. 
C.. ainda está firme e forte, e se é verdade que a voz do povo é a voz de deus, muitas outras situações cômicas ainda estão por vir!   





                                              Otaviano Maciel de Alencar Filho
                                  (Copyright© 2016 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

terça-feira, 17 de maio de 2016

Eternamente mãe




Das luzes cintilantes do céu
Animo meus pensamentos.
Lembro os momentos alegres:
Da ternura, do aconchego.
[Do sossego]

Mãe, como me faz falta!
Só a lembrança permanece...
E meu coração se enaltece
Nas horas tristes.
[Difíceis]

Nas noites solitárias do meu ser
Tua doce figura serena
Eterniza-se em meu coração!
Fujo da solidão.
[Mansidão]

Agora, onde te encontras?
Partiste tão cedo!
Triste, ainda vivo,
Neste mundo sem ti.
[Ausência]

Digo e repito:
Ah! Quanta falta tua ausência me faz!
Eternamente grato sou por ter sido minha mãe.
Meu desejo é te ver sempre feliz.
[Alegre e contente]



Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 2016 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

A farsa dos feijões verdes

                  

 
Domingo de sol radiante. A feira livre que acontecia todos os finais de semana, em bairro suburbano, estava efervescente. Os feirantes disputavam os fregueses que ali iam adquirir desde gêneros alimentícios aos mais variados tipos de mercadorias, tais como: Roupas, sandálias, panelas, brinquedos, artigos “Made in China” e muito mais.
Em um lugar privilegiado no centro da feira, encontrava-se uma pequena banca onde o vendedor oferecia feijões verdes.
Não era época de colheita de feijão, no entanto o vendedor assegurava que os mesmo provinham de uma região em que a plantação deste tipo de grão não sofria com a falta de água, pois se tratava de agricultura irrigada, portanto feijão verde era o que não faltava.
Aos “berros”, anunciava o produto elogiando sua qualidade e procedência:
- Olha o feijão verde, fresquinho e de boa qualidade!
Aos poucos as pessoas iam adquirindo o produto, e em menos de duas horas o estoque que havia levado para venda havia esgotado.
Um dos compradores do feijão, seu Manoel, assim que chegou a sua casa solicitou que sua esposa fizesse um bom “baião de dois”. Sem cerimônia, dona Maria, sua patroa, tratou de imediatamente colocar a água no fogo para o preparo da comida.
Enquanto o feijão cozinhava, dona Maria colocou o arroz no fogo e foi cortar os legumes e as verduras que seriam adicionadas ao cozimento dos cereais para dar um sabor especial ao prato. Neste interim, Manoel vai deitar-se no sofá da sala e assistir televisão enquanto o almoço não fica pronto.
Alguns minutos depois a mulher vai até o fogão e desliga o fogo do arroz, que já se encontra no ponto, e destampa a panela do feijão para colocar os temperos e ficou surpresa quando notou que o caldo estava verde e os feijões brancos. 
- Manoel, vem cá homem, onde compraste este feijão? – Perguntou curiosa.
- Na feira Maria, por quê? – respondeu de prontidão.
- Porque tu foste enganado homem. – revelou.
- Como enganado mulher, são feijões verdes não são? – Disse.
- Não, não são feijões verdes, são feijões brancos pintados de verde. Olhe só a cor do caldo. - Falou a mulher revelando a trapaça feita pelo feirante.
- Canalha esse vendedor, bem que eu estava desconfiado de sua lábia. – Desabafou.
- E agora, o que fazer. – perguntou sua companheira.
- Vou pegar esse sujeito e dar-lhe uma lição. No próximo domingo vou novamente à feira e ele vai “ver o que é bom pra tosse”. Aproveito e compro feijão verde em um lugar que tenha procedência. Jogue tudo isso no lixo, pois pode fazer mal a nossa saúde. Para o almoço prepare qualquer coisa para nós comermos. – Sentenciou, enraivecido!
No final de semana seguinte seu Manoel foi à feira e encaminhou-se até o local onde o feirante costumava ficar. Lá estava ele, e ao seu redor um monte de pessoas que ameaçavam linchá-lo. Eram os fregueses do domingo passado, que também foram ludibriados pelo falsário.
O homem estava cercado. Todos pediam de volta o dinheiro que tinham dado na compra dos feijões. Alguns mais exaltados chutavam os caixotes em que suas mercadorias estavam expostas, levando-as ao chão.
A polícia foi chamada e o farsante foi detido e levado à delegacia juntamente com as pessoas envolvidas no caso, para que se esclarecesse o acontecido.
Diante o delegado o meliante confessou que tingia os feijões brancos de verde, explicando que os colocava dentro de uma bacia grande com água e acrescentava corante verde deixando-os de molho de um dia para o outro, assim no dia seguinte eles estavam bem “verdinhos”.
Feita a confissão a autoridade policial o enquadrou em crime fraude, prevista no artigo 175 do Código Penal Brasileiro.
Seu Manoel e todos os envolvidos na trama voltaram as suas casas de mãos abanando. No entanto, todas elas levavam consigo o sentimento de dever cumprido diante tantas arbitrariedades provocadas por alguns indivíduos nocivos à sociedade.
Quando aportou a casa Manoel foi arguido por sua esposa:
- Então, Manoel, conseguiu o dinheiro de volta. – Perguntou ansiosa.
- Não, não consegui. – respondeu o homem.
- Mas compraste feijão verde em outro local? – Perguntou, novamente.
- O seguro morreu de velho, minha querida. De hoje em diante, “baião de dois” com feijão verde só em época de colheita. – Sentenciou.




                           Otaviano Maciel de Alencar Filho
             (Copyright© 2016 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Na companhia do pajé




          Uma grande empresa que atua em âmbito nacional resolveu alguns anos atrás promover entre seus colaboradores um programa de incentivo à realização profissional, bem como trabalhar a qualidade de vida dos mesmos no ambiente organizacional.
          Estrategicamente buscou-se a formação de um grupo de funcionários, escolhidos entre eles mesmos, para fazerem parte de um treinamento específico, que os tornariam aptos a serem multiplicadores do respectivo aprendizado dentro de suas unidades de trabalho, logo após o término da capacitação.
          Foi contratada uma profissional atuante na área de treinamento motivacional, que então reuniu o grupo e delineou os trabalhos a serem desenvolvidos durante o período de desenvolvimento do projeto. Os encontros eram quinzenais, sempre no final de semana, de preferência nos sábados, de vez que grande parte dos participantes não dava expediente neste dia.
          Nestes encontros era trabalhado o lado emocional do indivíduo, a conscientização ecológica, o respeito à diversidade, a responsabilidade social, o valor do trabalho para o crescimento tanto profissional como individual do ser humano. O clima de descontração e de espontaneidade que reinava nos locais de encontro induzia os participantes a se envolverem cada vez mais nas dinâmicas que eram realizadas. Enfim, era uma formação holística que visava, sobretudo, a harmonia do ser consigo mesmo, e com o ambiente que o cercava. O objetivo final era desenvolver no indivíduo a capacidade de formar raciocínio crítico e reflexivo diante as adversidades surgidas no ambiente de trabalho para que ele pudesse tomar decisões acertadas diante as adversidades do dia a dia em seu ambiente de trabalho.
          Durante o período em que o treinamento foi realizado previu-se algumas visitas a locais onde se poderia por em prática os assuntos estudados e debatidos nos encontros quinzenais. A visita de campo incluía ida às favelas, parques ecológicos, serras e até uma comunidade indígena, localizada em um município da região metropolitana, próximo à cidade de Fortaleza.
           A visita à reserva indígena dos Pitaguary foi marcada para um sábado e no dia aprazado todos os integrantes do grupo, aproximadamente vinte e cinco pessoas, se fizeram presentes ao local, aguardando a chegada do coletivo que os levaria a aldeia dos nativos.
                 Por volta das sete horas da manhã o ônibus aportou ao local e imediatamente todos o adentraram e sem demora seguiram o destino traçado. A expectativa era grande, somente duas pessoas do grupamento, além da instrutora, haviam tido contato com uma comunidade autóctone e isso era motivo de cautela por parte de algumas pessoas do grupo.
              Cerca de uma hora depois o coletivo chegou ao seu destino e, para surpresa geral, eles foram recebidos na aldeia pelo cacique da tribo, que se fazia acompanhar de dois outros índios.  Portavam-se a caráter: arco e flecha e os rostos estavam pintados nas cores pretas e vermelhas. O cacique era um homem de meia idade, porte atlético, pele bronzeada, cabelos lisos, rosto marcado de rugas, que o tempo não tardou em perdoar.
          - Sejam bem vindos a nossa comunidade – falou o chefe da aldeia.
         Nossa facilitadora já o conhecia e num amistoso gesto agradeceu a recepção dispensada a turma.
       Todos foram convidados a fazerem uma exploração no local e dirigiram-se imediatamente até uma escola que se situava na zona central da zona indígena.
             Naquele dia a escola não estava funcionando, pois era sábado. Foram informados que na escola os alunos tinham aulas de português, matemática, saúde, artes, cultura dos povos indígenas além de estudarem também princípios rudimentares da língua tupi, como uma forma de manterem vivas as tradições ancestrais.
               Já eram quase dez horas e a comitiva foi convidada a irem até a casa do pajé, a figura mais respeitada na comunidade. Chegando lá foram recebidos por sua esposa, pois o pajé estava em um ritual de cura e logo viria recebê-los. Sentaram todos ao redor de uma grande mesa e após alguns minutos o pajé apareceu trazendo consigo uma enorme bacia cheia de bananas e depositou-as sobre a mesa, dizendo que se servissem a vontade. O pajé comeu tanta banana que ficou sem ar. Parecia um peixe fora da água debatendo-se a procura de ar para respirar.
           O pajé aparentava ser mais jovem que o cacique, porém não tinha o mesmo porte atlético: Tinha uma enorme barriga e a pele era escura acinzentada. Ornamentava-se de um cocar, alguns colares dependurados no pescoço e vestia uma bermuda bem ao estilo dos cidadãos que viviam na metrópole.
               - Que índio mais sem graça – disse alguém!
         - Não existe mais índio verdadeiro, todos sofreram a aculturação da civilização moderna – sentenciou outro indivíduo.
           Após o repasto o pajé os convidou para irem até uma localidade onde era desenvolvido um projeto de agricultura comunitária de grande sucesso.
           Todos, novamente, pegaram o ônibus que os levaria até o referido local. O pajé sentou-se com sua companheira nas poltronas que se localizavam no centro do coletivo, bem abaixo de uma das saídas do ar condicionado. Não demorou muito e o pajé começou a se contorcer, tremendo de frio. Puxou as miçangas do pescoço de um lado para o outro na tentativa de cobrir a “pança” que estava desnuda, mas de nada adiantou. Abraçou a esposa procurando se aquecer. Coitada da mulher quase foi sufocada pelos abraços do esposo! A situação cômica fez com que grande parte dos passageiros não segurasse as risadas, o que deixou o pajé acanhado.
          O ônibus parou no local indicado e todos desceram e assim puderam comprovar o sucesso do projeto implantado na localidade.
          Passava das doze horas quando o grupo deixou o local e dirigiu-se a uma casa de campo localizada no sopé da serra, onde ali almoçaram e descansaram, sem antes, contudo, deixarem de passar por um ritual bastante comum na cultura indígena: tomaram um banho de ervas para afastar o negativismo e trazer bons fluidos.
             A mesa era farta e o cardápio era peixe cozido. Mais uma vez o pajé protagonizou uma cena engraçada que levou todos a se entreolharem: Tomando uma bacia de alumínio de tamanho médio a encheu de arroz e pirão de farinha de mandioca até as bordas, e para completar a montagem do prato depositou dois grandes pedaços de peixe sobre a “Montanha de comida”.
          O dia já findava e a agradável excursão chegou ao fim. O pajé e sua esposa foram deixados na aldeia e, depois de feitas as despedidas, o préstito seguiu rumo de volta à cidade onde os membros da equipe moravam, indo cada qual às suas respectivas residências. 




                                                         Otaviano Maciel de Alencar Filho
                           (Copyright© 2016 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

Mentiras e mais mentiras

                                         Atualmente vemos ordinariamente na imprensa escrita assim como nas mídias digitais, infor...