terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Um morto não tão morto

                                  



Era de madrugada quando Dona Braga acordou com o barulho provocado pela agitação das galinhas que ela criava. Acordou Biel, seu esposo, para juntos irem ver o que estava acontecendo lá nos fundos da casa.
Ainda sonolentos, caminhando a passos curtos, com muita dificuldade, devido à idade avançada os dois foram em direção à porta da cozinha, que dava acesso ao quintal onde estava localizado o pequeno galinheiro que abrigava cerca de quinze galináceos. As luzes foram acesas. Ambos perpassaram o olhar por todo o ambiente, assegurando-se de que tudo estava em ordem e seguro antes de se dirigirem até o poleiro.
Seu Biel tinha a mania de “conversar” com as galinhas, então foi logo entabulando um colóquio com elas:
- Tchiii Tchiii Tchiii, vem pra cá Flôzinha... O que tá acontecendo? O que vocês estão vendo?
Dona Braga já estava acostumada com esta mania de seu companheiro conjugal e não se importava com este pormenor, até achava engraçado o jeito de ele chamar as galinhas.
Como Flôzinha e nenhuma das galinhas respondiam aos suas perguntas, resolveram inspecionar o local minuciosamente.
Foram tangendo as aves para o canto do poleiro para poderem ver melhor o que estava assustando elas. Quando o recipiente onde colocavam comida para elas foi afastado ficaram espantados com o que viram: Em um canto, acuado, avistaram um enorme roedor.
- Biel, olha o tamanho deste rato. É um guabiru!  Ele tá querendo comer os ovos e nossas galinhas. Eu sabia que tinha algo de errado, elas não são de ficarem agitadas.
- Espere só um minutinho que eu vou pegar um pau para nós matarmos esse safado. – Falou Biel, indo procurar um pedaço de madeira.
Enquanto isso Dona Braga não arredava os olhos do bicho, que imóvel e de boca arreganhada, mostrando grandes dentes afiados dava sinais de que não ia ser fácil retirá-lo daquele local.
Quando Biel chegou, foi logo tentando acertar uma paulada na cabeça do bicho que, esquivando-se, deu um pulo e correu para o outro lado.  Biel correu junto e mandou uma pancada, não se sabe se certeira, no animal que ficou estatelado no chão.
- Viu Dona Braga, é assim que se mata essa peste! O bicho de tão ruim não sai nem sangue, só tem tamanho. Agora é só pegar ele colocar dentro de um saco e mais tarde quando o sol raiar eu vou dar um fim neste desgraçado – Disse alegre com o sucesso da empreitada.
Quando, então, de posse de uma sacola foi pegar bicho este deu um salto enorme em cima dele que, de susto, foi ao chão, enquanto o pobre animal foi se esconder no canto da parede. Dona Braga deu um grito de medo e com isso acordou o vizinho do lado que logo veio ver o que estava acontecendo. Chegando ao local ficou sabendo do que se tratava e ofereceu-se para ajudá-los a pegar o bicho. Logo notou que não se tratava de um guabiru, mas de um cassaco bem grande e gordo.
 Biel, apontando para ele disse:
- Olha, ele já tá morto. Tá de pernas para o ar.
O vizinho exclamou:
- Não Biel, ele não tá morto, está se fazendo de morto. O gambá ou cassaco finge-se de morto para escapar de seus caçadores. Fica nessa situação até eles irem embora e só depois sai desse estado de imobilidade que nós estamos presenciando.
- Bicho sabido esse, não? Mas agora ele não escapa, vou dar-lhe uma paulada bem na moleira e quero ver se ele não morre. - Proferiu Biel estas palavras, enquanto seu vizinho se adiantava para lhe falar algo.
- Biel, Deixa que eu cuide disso. Você não sabe, mas carne de cassaco é muito boa. Eu vou pegá-lo e fazer um bom ensopado dele pra servir de tira-gosto afinal, amanhã é sábado e é dia de tomar umas pingas. – Falou o homem, animadamente.
Então de posse de uma toalha, jogou-a em cima do bicho que não deu trabalho para ser capturado e o levou para sua casa.
Coitado do animal... Escapou de um tipo de morte para morrer de outro: Dentro uma panela!





                              Otaviano Maciel de Alencar Filho
              (Copyright© 2015 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

domingo, 8 de novembro de 2015

O mito que incomoda


No início da década de 1970, no município de Fortaleza, capital do estado do Ceará, foi inaugurado, aquele que seria, para a época, o maior conjunto Habitacional da América Latina. O empreendimento foi realizado na gestão do então prefeito da cidade, José Walter Cavalcante. Em sua homenagem o conjunto residencial recebeu seu nome.
Naquela época o contingente populacional não tinha expressividade numérica que situasse a cidade como uma cidade de grande porte. O número de cidadãos fortalezenses era inferior a um milhão de habitantes, bem diferente da realidade de hoje em dia: Fortaleza tem aproximadamente três milhões de habitantes e conta com um parque industrial e comercial de significativa relevância econômica, o que a coloca entre as cinco maiores regiões metropolitanas do país. A cidade até então era conhecida como uma cidadezinha de pescadores, onde a indústria e o comércio eram incipientes.
A partir de então houve um grande avanço nestes setores da economia com a implantação de indústrias, gerando, dessa forma, um incremento na área comercial, e assim o município começou a receber trabalhadores vindos do interior do estado, e até mesmo de estados vizinhos para comporem a mão de obra necessária à manutenção dos respectivos setores, alavancando, dessa forma, o progresso municipal.
A população começou a aumentar e o conjunto José Walter passou a receber seus primeiros moradores. Muitos passavam o dia trabalhando no centro da cidade ou em locais mais distantes do bairro onde o conjunto se localizava.
Devido à localização distante da sede do município, - o conjunto situa-se na zona sul da cidade - passou a ser conhecido por “Cidade dormitório”, já que alguns moradores só voltavam ali tarde da noite para dormirem e no outro dia, de madrugada, retornavam às empresas onde trabalhavam. Outros trabalhadores passavam dias sem retornarem a seus lares. Nessa época não existiam vias recortando a cidade como nos dias atuais, tampouco um sistema de transporte público eficiente.
Com a ausência dos maridos em casa, as esposas ficavam sozinhas o dia inteiro e isso serviu de motivo para que surgisse uma lenda por parte das pessoas: Diziam elas que os maridos estavam sendo “traídos no matrimônio”, de vez que as mulheres não suportando muito tempo sem a presença do parceiro passavam a receberem a visita do “negão”, do “Ricardão”, do “pé de pano” e por ai vai. Outra lenda reza que por serem todas as casas iguais às outras, o marido quando retornava do trabalho, muitas vezes errava de casa, adentrando em outra que não a sua. Existem várias outras hipóteses para o surgimento desse mito, cada um mais extravagante que o outro.
A partir de então os homens passaram a ser tachados de “cornos”, “chifrudso” e coisas do gênero. O bairro passou a ter a fama de ser um local onde quem ali morasse ficava conhecido pela difamatória alcunha de “corno”.
A fama do bairro foi tanta que ultrapassou os limites do município e hoje o “Zé Walter” é conhecido no Brasil inteiro e até no exterior.
Surgiram, então, várias piadas a respeito do conjunto, por exemplo, a que diz que se houvesse uma chuva de argolas nenhuma cairia no chão. Outra diz que com tantas “antenas” no bairro todas as estações de rádio e televisão, inclusive as estrangeiras, seriam captadas sem problema algum. Outra assevera que se contassem as casas no sentido de ida existiria um corno em uma e outra não e no sentido de volta aconteceria o mesmo. Já se cogita que a NASA estaria recrutando os homens da região para participarem de um projeto de busca de vida em outras galáxias. A participação se daria da seguinte forma: Formar-se-ia um grande círculo com os homens que, de mãos dadas, e estes por sua vez ligados a modernos computadores, apontariam suas potentes “antenas” em direção ao espaço esperando algum sinal a ser registrado pelos equipamentos.
Existe até uma associação. Isso mesmo: Associação dos Homens Mal-Amados do Ceará. O sócio tem direito a assistência jurídica e psicológica entre outros serviços. Um dos grandes desafios é encontrar um presidente para a associação, pois o atual vai deixar o cargo que ocupa há mais de quinze anos. O problema é que até o momento não apareceu candidato algum.
Outro dia, andando pelo centro da cidade, resolvi parar e observar dois homens que, pelo jeito que se comportavam, eram amigos que não se viam há bastante tempo. Conversavam animadamente:
- Faz tempo que não te vejo, Mário. Como está você e a família?
- Estou bem, Claudio, obrigado pela atenção dispensada!
- Está morando muito longe de onde morava?
- Estou morando lá no Mondubim.
Claudio, notando em Mário certo constrangimento ao responder a pergunta, aproveitou a ocasião para tirar um chiste.
- Ah! Você tá morando no “Zé Walter”, né?
- Não, é no Mondubim, um bairro vizinho ao “Zé Walter”. - Sentenciou Mário.
- Deixa de “besteira” Mário, o José Walter é um bairro bom para morar, por que não diz logo que está morando lá?
Impaciente e desconsertado com a conversa, Mário redarguiu:
- Já te disse que não moro lá, tá achando que sou “corno” para morar no “Zé Walter”?
- Não, não é isso... – Falou Claudio, morrendo de rir da atitude do amigo.
Os dois continuaram a conversa e eu saí pensando: o cearense é mesmo um sujeito bem-humorado, pois até de uma situação ruim ele sempre tira motivos para risos. 





                                                 Otaviano Maciel de Alencar Filho
                                    (Copyright© 2015 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O homem sem sombra



Foi uma surpresa desagradável e ao mesmo tempo aterrorizante, quando Leomar se deu conta der que não tinha sombra. Isso mesmo, seu corpo não produzia sombra quando ficava entre uma fonte de luz e um anteparo onde sua sombra pudesse projetar-se.
Era um dia de sol escaldante, e enquanto caminhava resolveu amarrar as tiras das sandálias que estavam frouxas. Foi quando percebeu a ausência da sombra que o seu corpo deveria projetar no solo torrificado sob a ação da luz proveniente do astro rei.
 Assustado e ao mesmo tempo sem saber o que fazer, voltou imediatamente para casa e passou alguns dias sem sair do recinto.
Notando a ausência de Leomar, moradores da vizinhança, que só o conheciam de vista, resolveram ir até sua casa e saber o que estava acontecendo.  Chegando, encontraram a casa fechada.  Foram chamando por ele:
- Alguém, está ai dentro?
Nenhuma resposta foi ouvida. Após alguns minutos resolveram “botar a porta adentro”.
A surpresa foi geral, quando encontraram, em um canto escuro da cozinha, Leomar que, acuado e acabrunhado relutava em deixar o lugar em que se encontrava e sair para conversar na varanda da casa.
- Vamos senhor, saia deste lugar sombrio. – Falou um dos vizinhos.
Com voz trêmula e reticente, o homem redargui:
- Não posso, estou doente, não posso tomar sol.
- Que conversa tola é esta, o sol é fonte da vida. – Disse um senhor de meia idade.
Enquanto a conversa se desenrolava, alguém teve a ideia de acender um candeeiro que se encontrava sobre a mesa. Léo advertiu que mesmo a luz do candeeiro, era-lhe prejudicial. Entretanto o mesmo foi aceso e puderam ver o homem, que estava tremendo de medo. Ninguém notou nada de anormal e não entendiam o motivo de tanto assombro, até que Léo, ficando entre a fonte de luz, não projetando sombra na parede chamou a atenção de um uma senhora que, espavorida, gritou:
- Meu Deus! Virgem Maria, o homem não tem sombra!
Quando todos constataram o acontecimento saíram do local, apavorados. Logo a notícia se espalhou pelo arraial.
Com o passar do tempo, Leomar acostumou-se com o fato de não ter sombra e passou a ter uma vida quase normal, evitando sair de dia sob a luz direta do sol e para isso utilizava-se se um grande sombreiro. Foi esta a forma que encontrou para esquivar-se da lembrança da ausência de sua sombra.
O “Homem sem sombra“, como ficou conhecido na cidadezinha onde morava, despertava a curiosidade de todos os moradores e até mesmo de visitantes de outros locais que vinham para vê-lo e constatar a veracidade do fenômeno. Todos queriam saber se era possível acontecer algo inusitado, como o de não se ter sombra.
Muitos acreditavam que tudo não passava de charlatanice e consideravam-no um exímio prestidigitador.
Durante muito tempo foi alvo de pesquisas que, inconcludentes, não chegaram a afirmar a veracidade do fenômeno que, no entanto, passou para o rol dos acontecimentos miraculosos.
O intenso assédio das pessoas, com seus faróis de luzes ofuscantes, na esperança de captarem nem que fosse uma penumbra de seu magérrimo corpo, tirava-lhe o minguado sossego.
Certo dia, quando caminhava pelo povoado, observou um transeunte que se encontrava diante a vidraça de pequena loja. Aproximou-se e começou uma pequena conversação, enquanto ambos admiravam os produtos expostos através da vidraça.
Subitamente, Leomar foi tomado de um imenso susto quando não viu seu reflexo na janela de vidro. O medo foi maior ainda quando notou que o homem ao seu lado também não refletia sua imagem, o que o levou cair no chão de tão apavorado que ficou. O desespero aumentou ainda mais quando, já no solo, viu que o homem também não projetava sombra no chão.
- Que foi, sou tão feio assim que assusto as pessoas? – Falou o estranho.
Leomar não ousava abrir a boca e, petrificado,ouvia os reclames do homem.
- Levanta rapaz, parece que está vendo defunto!
Trêmulo e fatigante, Leomar balbuciou:
- Se estou diante de um morto não sei... Mas desconfio que eu... Não esteja mais vivo.





                                              Otaviano Maciel de Alencar Filho
                                 (Copyright© 2015 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

terça-feira, 21 de julho de 2015

Andanças





Tenho tido
 muitas vidas
Neste mundo
de meu Deus.
Tenho tido
muitos sonhos
Junto àqueles que são meus.
Fui do ar,
a revoar.
Fui das aguas,
a nadar.
Fui da terra,
a andar.
Fui do fogo,
a flamejar.
Fui, sou e serei:
Do mundo,
 da vida...
Um Ser vivo a amar!






Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 2015 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

Um sonho diferente

                              



A noite estava fria e convidava para o repouso noturno.
Por volta das vinte horas resolvo deitar-me e ter uma longa noite de sono reparador para o corpo físico e a mente.
Deito-me, e após um quarto de hora, presumo, adentrei em estado de sono profundo.
Sim, estava tão cansado que não demorou muito para “agarrar no sono” após ter tido um dia de trabalho exaustivo.
Intrigante é o fato de que ninguém ou talvez raríssimas pessoas consigam ter noção do exato momento em que despertam no mundo dos sonhos, deixando para trás o estado de vigília.
Assim aconteceu e acontece comigo. Não tenho percepção do momento exato em que faço essa “passagem”, embora em alguns sonhos perceba que estou sonhando sem, contudo, interferir nos acontecimentos.
Um sonho estranho aconteceu comigo tempos atrás. 
Naquela noite, quando despertei no sonho, encontrava-me em minha antiga residência, quando ainda era adolescente. Era manhã e todos os familiares estavam em casa ocupados cada qual em suas tarefas cotidianas.
Passeava pela casa, conversava com eles, observava toda a movimentação ordinária. E o dia ia avançando. Chegou a hora do almoço. Almoçamos.
Minha mãe, que era costureira, depois de algumas horas foi para a máquina de costura cuidar de seus afazeres enquanto eu e meus irmãos dispersamo-nos pela casa enquanto a tarde cessava.
Não demorou muito para que a noite chegasse e com ela a necessidade de dormir. Aos poucos todos nós nos recolhemos para deitar.
Novamente dormi!
Sonhei que estava em um lugar onde a tranquilidade e a paz interior, - e por que não dizer também a paz exterior – era o principal atrativo. Ali não fazia calor, tampouco frio, mas a sensação corpórea que eu experimentava era algo intraduzível. O ambiente era de uma luminosidade que não sabia descrever. Nenhuma sombra ou penumbra! Ruído nenhum! No entanto, pude aos poucos perceber sons de acordes de guitarra que ecoavam de todos os lados, de tal forma que a melodia produzida parecia adentrar todo o meu ser. A canção entoada era “Sweet child o' mine” do grupo musical Guns N’ Roses. O arranjo musical produzido era de uma beleza extraordinária. Intraduzível, diria! Compreensível somente para quem estivesse ali, naquele momento, naquela situação. Em suma, todas as sensações e percepções pareciam estar presentes em todo o meu ser e não apenas em órgãos específicos aptos a recebê-las.
Após alguns instantes, nesse estado de imobilidade extática, não sei por qual mecanismo senti a necessidade de acordar. Acordei e encontrei-me junto aos meus familiares vivenciando o dia a dia normal de uma família.
Estranhei o fato de perceber que ainda sonhava e que precisava acordar para o “mundo real”. Imediatamente a inevitável vontade de voltar ao estado de vigília me veio à mente.
 Acordei!!!
 Durante muito tempo fiquei sem achar explicações para o fenômeno que se verificou.
Somente há pouco tempo, após algumas pesquisas realizadas em torno do sono e dos sonhos, fiquei sabendo que pode ocorrer de algumas vezes termos um “sonho dentro de outro sonho”.



                                              Otaviano Maciel de Alencar Filho
                                (Copyright© 2015 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Haja paciência e dinheiro




Naquela segunda-feira, João acordou mais cedo que costumeiramente. Sua CNH havia extrapolado o prazo de validade, portanto se fazia necessário a revalidação junto ao órgão responsável pela emissão e fiscalização do trânsito no Estado.
Já com os documentos necessários em mãos, retirou o veículo da garagem e dirigiu-se ao departamento de trânsito, localizado poucos minutos de sua residência.
Chegando ao local procurou algum lugar para estacionar o veículo. Observou que havia algumas vagas de estacionamento que não haviam sido ocupadas. Imediatamente pôs o carro em uma delas. Logo que abriu a porta foi surpreendido por um “flanelinha” que de imediato indicou-lhe uma placa de advertência que indicava ali ser um local de estacionamento com uso de cartão e, portanto, deveria adquirir um de, no mínimo, duas horas. Prontamente foi destacando uma folha e anotando a placa do veículo e revelando o valor a ser pago por duas horas.
- Senhor, vou colocar o horário aqui como se o senhor tivesse chegado uma hora depois, assim  terá mais tempo para resolver seus assuntos.
João ficou temeroso e indagou:
- E se passar um fiscal neste intervalo de hora e observar que a hora foi colocada errada, ele vai me multar, não?
- Pode ficar tranquilo, aqui nunca aconteceu nada disso. - Disse o homem que, olhando disfarçadamente para o outro lado da rua cujo estacionamento era regulamentado sem haver a necessidade de uso de cartão, temia perder a venda do ticket.
- Não vou demorar mais que duas horas, afinal, ainda é cedo e deve haver poucas pessoas para serem atendidas. - Sentenciou João, retirando, da carteira, a quantia a ser paga.
Foi à entrada da instituição onde estava a recepção e foi informado que o setor de CNH estava localizado no último conjunto de salas a sua direita, logo após o pátio onde se realizava a vistoria dos veículos, cerca de cem metros adiante.
Caminhou até o local e lá chegando teve uma grande surpresa: a imensa sala estava abarrotada de pessoas. Filas e mais filas compunham o cenário. Pegou uma senha para pedir mais informação, e somente saiu desta fila cerca de quinze minutos depois, com a informação de que deveria tirar uma cópia da CNH vencida e uma cópia do comprovante de residência e logo depois retornar para ser encaminhado a outro setor.
Lá se vai João providenciar as cópias na fotocopiadora, que se localizava no lado oposto de onde se encontrava. Mais uma fila. Mais quinze minutos. Mais um pagamento efetuado!
Retornando ao setor onde estivera antes, a moça que o atendera minutos atrás informa que ele deverá retirar uma senha e aguardar ser chamado em um dos guichês que se encontravam adiante, a sua esquerda. Mais uma fila! Sua senha era a de número 87 e por enquanto a senha chamada era a de número 23.
Os minutos vão escoando e quarenta e cinco minutos depois João ouve o número de sua senha ser chamada. Vai até o guichê e outro atendente solicita as cópias dos documentos, pois irá emitir um boleto para que seja efetuado o pagamento que possibilitará a confecção da nova CNH. Neste momento é informado que existem postos bancários ali mesmo nos prédios que compõem o órgão departamental, e tão somente depois deverá retornar para dar entrada no serviço de solicitação de avaliação médica.
Novamente, lá vai João de encontro a mais uma fila, e que fila! Mais um pagamento!
Aproximadamente cinquenta pessoas se encontravam na fila em uma sala pequena, cujo condicionador de ar não estava funcionando e somente uma atendente de caixa para dar conta desse contingente de pessoas que, com o calor que fazia no local, estavam agitadas e aborrecidas com a demora em serem atendidas. Algumas pessoas saíram da fila em busca de outro posto bancário. João estava indeciso: se saísse e fosse para outro local enfrentaria, talvez uma fila maior. Contudo decidiu, depois de aproximadamente meia hora na fila ir procurar outro local para efetuar o pagamento, deixando o sururu por lá mesmo!
De novo, lá vai João em sua peregrinação. Em uma agência bancária localizada dentro do pátio da instituição, vai para mais uma fila e só não fica nela porque é informado que a agencia só abrirá meia hora depois e é aconselhado por um homem que se encontrava na fila pra ir até outro posto localizado nas proximidades e que funcionava desde cedo.
Suado, cansado e aborrecido João pensava em desistir e voltar outro dia ou talvez deixar para renovar sua CNH em outra unidade do órgão, em dia oportuno. Mas ao mesmo tempo tinha a certeza que seria outro dia de chateação, então decidiu continuar sua via-crúcis.
Coitado de João, nesse vai e vem, nem lembrava mais do carro estacionado lá fora do pátio. Chegando ao local indicado, que alívio, apenas cinco pessoas na fila e o ambiente estava climatizado. Não demoraria mais que dez minutos para ser atendido, calculou. O dia não estava bom para João, logo foram chegando alguns idosos para serem atendidos e como a lei garante ao idoso prioridade eles iam sendo atendidos preferencialmente, elevando o cálculo de João para cerca de trinta minutos. Logo após este tempo, finalmente ele foi atendido. Deixou para trás mais uma fila e mais dinheiro. Retornou ao local inicial para dar entrada nos exames médicos.
- Pronto, até que enfim, serei atendido. - Desabafou João, consigo mesmo!
- O senhor espere nesta fila que o médico o atenderá. – Afirmou uma tendente.
- Impossível, chega de tanta fila! - Disse João quando viu o tamanho dela. Demorou uma hora para ser atendido pela profissional de medicina oftalmológica, que sem delongas fez o exame em apenas cinco minutos, deixando João livre para ir embora.
Quando João se deu conta do tempo que se passou ficou apavorado, pois teria de pagar, desta vez, uma multa por exceder o tempo permitido para estacionamento. Apressadamente voltou até o veículo e lá chegando encontrou o “flanelinha” ao lado do carro.
- E o senhor disse que não demoraria mais que duas horas, hein? Mas trato é trato. Até logo!




                                             Otaviano Maciel de Alencar Filho
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terça-feira, 28 de abril de 2015

Um lugar para morar

                                       


Com a crescente industrialização e consequentemente o vertiginoso crescimento urbano, causado pela vinda das pessoas do sertão para as grandes cidades, em busca de trabalho, gerou-se um grande problema: o da habitação. Onde a maioria desses emigrantes irá estabelecer moradia, uma vez que o valor cobrado pelo aluguel de uma casa popular é altíssimo? Essa realidade tem levado muita gente a morar nas ruas a céu aberto ou em baixo de viadutos. A perda da dignidade humana, o preconceito, o viver à margem da sociedade e tantos outros fatores que degradam o ser humano têm contribuído para tornar esses indivíduos excluídos da sociedade. O desemprego, que, em grande parte, é ocasionado pela falta de qualificação de mão de obra, devido a ausência de políticas estratégicas de preparação do indivíduo para o mercado de trabalho, faz deles  reféns de um sistema que exclui todos que não tenham tido acesso a uma educação que, além de gratuita, deveria ser de qualidade. E, assim, vemos no cotidiano pessoas necessitadas de um lugar para estabelecer moradia invadindo espaços públicos e privados, na esperança de verem seus sonhos de terem a casa própria, mesmo que seja um casebre feito de taipa.
Certa feita, pequeno grupo de pessoas invadiu um terreno desocupado situado às margens de um lago, em busca de um pedaço de terra para construírem suas moradias. Os integrantes do grupo foram chegando de mansinho, logo ao alvorecer do dia, e em pouco tempo já formavam um contingente expressivo de pessoas de ambos os sexos e idades diversas, que de imediato foram demarcando o local, fincando estacas nas quais eram amarrados cordões, dividindo dessa maneira, de modo uniforme, a terra para cada família que ali se encontrava.
A vizinhança acompanhava tudo com extrema apreensão. Na verdade não queriam aquelas pessoas assentadas ali, defronte suas residências, afinal o local estava situado em área nobre da cidade e não admitiam a formação de uma favela nas proximidades.
As crianças que participavam do ajuntamento corriam alegremente em um vai e vem constante ao encontro das águas da lagoa em busca de refrescarem os corpos, que expostos ao sol escaldante de uma manhã de verão estavam suados e grudentos de areia.
O trabalho de capinação continuava em ritmo acelerado. Já passava do meio dia quando três viaturas da polícia chegaram ao local. Haviam sido solicitadas pelos moradores das proximidades que, temendo serem importunados pelos invasores, não hesitaram em tomarem tal iniciativa.
A presença da polícia no local deixou as pessoas apreensivas e alguns mais exaltados já empunhavam enxadas e pás aguardando possível confronto, no entanto não foi isso que aconteceu. Os policiais conversaram com as pessoas que representavam o grupo, orientando-as a não fazerem baderna, deixando claro que a permanência definitiva deles no local seria decidida pela prefeitura municipal, através dos órgãos responsáveis. Permaneceram no local por cerca de duas horas e depois foram embora, deixando as pessoas  aliviadas.
Ao cair da tarde a maioria das pessoas deixaram o recinto, indo para suas residências, deixando cerca de cinco integrantes para passarem a noite em  vigiando o terreno.
Ao amanhecer, com os primeiros raios do sol despontando, Luiz Carlos, um dos integrantes do grupo  voltava da casa da irmã onde fora dormir e trazia com ele Leozinho, seu filho de oito anos de idade. Ao chegarem, foram interceptados por dois rapazes da prefeitura e um oficial de justiça que já que se encontravam no local acompanhados de três viaturas da polícia. Um dos homens perguntou:
- O senhor faz parte deste movimento?
- Estou aqui querendo adquirir um local para construir nem que seja um barraco para mim e minha família podermos morar debaixo dele. Respondeu prontamente.
- Este terreno pertence a prefeitura, e a mesma tem planos de urbanização desta área com a criação de área de lazer e construção de um ginásio poliesportivo. Nós estamos aqui exatamente para informar-lhes que a prefeitura entrou na justiça para evitar que o local seja ocupado, inclusive este senhor que se encontra aqui conosco é oficial de justiça e traz consigo uma ordem judicial para que seja providenciada a retirada dos senhores deste local. Contudo, uma proposta também foi enviada para apreciação dos senhores.
- Puxa vida tão rápida esta tomada de decisão por parte da prefeitura! Temos que levar a notícia ao conhecimento das lideranças do movimento. - Acrescentou Luiz Carlos.
Foram adentrando o local que estava todo demarcado, cheio de cordões, fios, barbantes até que chegaram junto aos representantes do grupo, que de imediato ficaram a par das notícias desfavoráveis às aspirações do grupo.
O oficial de justiça alertou a todos que o descumprimento da sentença judicial implicaria a retirada de todos à força, inclusive com a presença de força policial, o que não seria agradável para ambas as partes envolvidas.
Logo de início os integrantes não aceitaram a proposta e decidiram que ficariam acampados no local, no entanto o representante do executivo municipal, antecipando-se as contendas e continuando as explanações abriu uma pasta e retirou alguns papéis lá de dentro e mostrando a todos falou-lhes:
- Este é um projeto de habitação que está sendo executado na zona oeste da cidade e que já se encontra quase todo terminado, inclusive com algumas famílias já usufruindo das moradias construídas. A secretaria da habitação solicita que os senhores se organizem e façam o cadastro de suas famílias junto a esse órgão e tão logo resolvam a questão da “papelada” é só aguardarem serem chamados, pois suas casas estarão garantidas.
Os acampantes, reunindo-se, deliberaram por deixarem o local, tendo em vista a proposta oferecida pelo poder público municipal atender seus anseios.
Tudo terminou em paz com os invasores retirando-se cada qual para suas casas e deixando o terreno para ser feito as benfeitorias que a prefeitura assumiu executar... ou quem sabe ser invadido novamente por outro grupo de pessoas, caso a prefeitura municipal não cumpra com o acordado em tempo hábil.




                             Otaviano Maciel de Alencar Filho
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Águas passadas



Há anos não se registrava um período de estiagem tão longo, tal qual o que estamos vivenciando atualmente no Brasil. No ano que se inicia, ocorre o centenário de uma das maiores secas que o nordeste brasileiro já enfrentou: A seca verificada no início do século XX, mais precisamente no ano de mil novecentos e quinze, e que ficou conhecida como a “Seca do XV”. De lá para cá políticas públicas de combate aos longos períodos sem precipitação pluviométrica foram implantadas, sem, contudo, surtirem efeitos duradouros e desejados. As mudanças e as melhorias alcançadas visaram, apenas, amenizar o sofrimento do povo que habita os locais tórridos, sofridos pela ação causticante do sol. Nunca houve a preocupação de sanar definitivamente esta situação. Os governos, visando tão somente o viés político interesseiro, aliado a expansão capitalista, executada de forma equivocada, tendo como finalidade última a obtenção de lucros, baseada na ”lei” da demanda e da oferta, situaram cada vez mais a população numa posição subalterna às exigências econômicas do mercado.
A indústria da seca, por muitas décadas, teve o seu ”livre mercado” estabelecido à custa do sofrimento de milhares de nordestinos.
As regiões nordeste e sudeste, esta última, que historicamente não tem registrado problemas com a seca, desta feita, são as mais afetadas pela escassez de chuvas que insiste em castigar o solo, fazendo com que a terra se torne cada vez mais árida, provocando a diminuição nos níveis de água nos reservatórios que compõem o sistema de abastecimento de água de estados como: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais que compõem o maior parque industrial brasileiro. Vemos hoje os setores políticos preocupados com uma possível recessão na economia, provocada pela falta deste precioso líquido que tem papel preponderante na economia da nação, caso não venha a chover satisfatoriamente nas cabeceiras dos rios que abastecem o conjunto de lagos e lagoas responsáveis pelo provimento de água nas regiões afetadas.
A população aumentou, e com ela um crescimento das necessidades humanas. Em contra partida os recursos naturais são escassos e limitados e estes fatores não têm sido levado em consideração por grande parte da população. Porém as técnicas de captação, produção, uso, armazenamento, transporte e manipulação deste bem de consumo, aliada ao desenvolvimento sustentável alcançaram um patamar que não justifica um provável racionamento de água a se enfrentar nos próximos anos, segundo previsões de alguns especialistas no assunto. As políticas públicas, relativas ao abastecimento de água, desdenharam as prospecções indicadas pelos órgãos responsáveis pela meteorologia e monitoração dos recursos hídricos.
Foi-se o tempo em que as pessoas, habitantes dos grandes centros urbanos, não tinham preocupação mais severa em relação ao uso e consumo inadequado da água.  Muitos acreditavam que “seca” era problema de nordestino, e talvez por isso, ainda, não se deram conta de que se faz urgente uma mudança de postura cultural em relação ao crescente desperdício de água tratada, pois a cada dia que se passa rios, lagoas, lençóis freáticos estão sendo contaminados, deixando a água doce imprópria para o consumo, ficando, nós, cidadãos, dependentes de indústrias que comercializam água engarrafada, vendendo-a a preço de ouro e que proliferam, tais quais bactérias, por todo o território nacional.
Não devemos compactuar, ainda que inconscientemente, com um sistema comercial escravagista nefasto que despreza elementares conceitos de moral e ética.
Nossa cidadania deve ser exercida cumprindo nossos deveres e reivindicando nossos direitos, junto àqueles que elegemos para estarem na direção- mor de nosso país.
Simples ações cotidianas como deixar o registro aberto enquanto se lava o carro ou a calçada, tomar banho demorado, escovar os dentes deixando a torneira vazar água, etc. são suficientes para agravarem cada vez mais a situação que ora estamos vivenciando. Contudo, essas medidas em nada surtirão efeitos se os grandes grupos agroindustriais não fizerem sua parte, afinal, este é um dos setores da economia que mais desperdiça água nos processos produtivos. Um antigo adágio popular apregoa que “de grão em grão a galinha enche o papo”, no caso em questão caberia este: “com a torneira aberta pingando, um dia por água estaremos mendigando”.
Nossos netos, bisnetos, enfim, toda a geração que nos sucederá não poderá ser penalizada por um erro que venhamos a cometer no presente.
Seria um pesadelo, se no futuro, durante um trabalho árduo, na rua, sob um sol escaldante, na busca do sustento da família, o catador de matéria prima para reciclagem, exausto e sequioso, tivesse de pagar por um copo de água, de vez que o líquido se tornara raro e precioso, de valor extremamente alto. Então não veríamos mais gestos de solidariedade destacados em uma conversa fraternal entre duas pessoas:
- Senhor, aceita um copo de água?
- Sim, muito obrigado!
O discurso amistoso e cordial, não seria mais possível e talvez ensejasse um detestável colóquio, do tipo:
- O senhor poderia arranjar-me um copo de água, por favor?
- O senhor... Tem como pagar?



                                           Otaviano Maciel de Alencar Filho
                         (Copyright© 2015 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

De sonho a pesadelo


O sonho de todo apostador de jogos de azar é um dia “tirar o pé da jaca”, e esse desejo, em alguns casos, torna-se obsessivo, levando o indivíduo a não ter outra meta que não seja viver apostando, na esperança desse dia chegar. Mesmo sabendo que as chances são mínimas algumas pessoas não se importam com esse fato.
Josimar era um sujeito que se enquadrava nesse perfil: Homem sonhador e esperançoso de um dia ficar rico com o dinheiro que ganhasse nos jogos que realizava. Além de exímio jogador de baralho, também era “bicheiro” e mantinha uma pequena banca de jogos em uma das praças do centro da cidade. Não raro os frequentadores pediam palpites acerca do possível resultado da aposta que estavam fazendo, e é claro que ele não deixava o freguês “na mão”. Revelava os sonhos que tivera na noite anterior com bichos e números e num estranho malabarismo onírico, dava seu parecer. Coincidência ou não alguns dos apostadores, aqui e acolá, acertavam a aposta. Mas como não investiam muito dinheiro na aposta, talvez receosos de perderem o pouco que tinham, não chegavam sequer a ganhar o suficiente para pagar as dívidas que tinham e comumente apostavam novamente o dinheiro ganho. Existiam os clientes “fiéis”, aqueles que raramente não faziam sua “fezinha” diariamente. O termo “fezinha” é muito utilizado entre os apostadores e quer dizer, provavelmente: Apostar acreditando, ter fé que tudo vai dar certo, que a sorte grande vai chegar desta vez.
Josimar, por sua vez, também fazia suas apostas. Já havia ganhado alguns trocados, mas nada que garantisse a ele e sua família um futuro tranquilo sem ter de se preocupar com o futuro.
Certa vez um apostador ganhou considerável quantia de dinheiro apostando em um milhar, em sua banca. Aproximadamente três meses depois o homem retornou para fazer novo jogo.
Intrigado, Josimar perguntou ao indivíduo se ele havia aplicado o dinheiro ganho em algum negócio que lhe rendesse mais dinheiro. O homem retirou os óculos e, abaixando-se próximo de seu ouvido esquerdo disse:
- Amigo, dinheiro que se ganha em jogos de azar é dinheiro amaldiçoado, gastei tudo com mulheres e farras noites afora, só me sobrando alguns trocados que irei novamente apostar.
O bicheiro tornou a perguntar:
- Mas se o senhor perder o pouco que lhe resta, não acertando a aposta, que vai fazer?
- Dificilmente perco uma aposta. – Respondeu.
- O senhor deve contar muito com a sorte, não?
- Coragem, é isso que se deve ter.
- Coragem... Pra quê?
- Vou ter falar uma coisa, se você quiser ganhar algum dinheiro em jogo de azar tem que fazer uma “pulutrica”.
- Sei, mas dizem que isto é fazer pacto com o diabo.
- Talvez seja verdade... ou apenas crendice popular. Particularmente, nunca vi o dito cujo e como essas simpatias dão certo... eu não me preocupo com as possíveis consequências, o que quero é botar a mão na grana e me divertir.
- Mas, só por curiosidade, que tipo de simpatia tem que ser feita?
- Vejo que você tem coragem, porque se não tivesse não perguntaria. Vou então lhe dizer o que fazer. Numa sexta feira, lá pelas duas horas da madrugada, quando todos em sua casa estiverem dormindo, vá até o quintal fique totalmente despido e abrace uma árvore, pode ser um pé de cajueiro, mangueira, coqueiro. O importante é que durante todo esse tempo você não desgrude da árvore e fique em constante oração, pedindo ao “cavaleiro negro” que vem montado em um cavalo branco, que lhe traga o milhar. Dentro de aproximadamente meia hora você irá escutar uns galopes, não se preocupe é ele chegando. Logo depois se aproximará de você e irá perguntar por que o chamou, então fale que quer ver o número que ele traz estampado em seu peito. De imediato ele não o fornecerá, pois você terá de desgrudar da árvore e ir de encontro ao animal e acariciar-lhe a crina. Feito isto, se o cavalo gostar das carícias feitas tocará o solo três vezes com a pata esquerda, então o cavaleiro abrirá a jaqueta e lhe mostrará os números, caso ocorra o contrário ele imediatamente desaparecerá da mesma forma como surgiu.
- Tudo bem, como o senhor se chama? – perguntou virando o olhar para um freguês que se aproximava.
Quando Josimar retomou o olhar para o homem que lhe ensinara a simpatia, não mais o viu, sumira entre os transeuntes.
Passados alguns dias, numa sexta-feira, Josimar resolve por em prática o plano de realizar a tal “pulutrica”. Quando todos já se encontravam dormindo, levantou-se devagarinho da cama, deixando ao lado sua esposa, Severina, e caminhou até o quintal, fazendo tudo o que foi dito pelo homem que lhe ensinara a estranha simpatia.
D. Severina acordou com barulhos vindos da cozinha, procurou seu marido na cama e não o encontrando foi até lá. Chegando viu a porta dos fundos aberta e quase caiu de susto quando viu aquela cena inusitada: O marido nu agarrado no pé de coqueiro dizendo coisas sem nexo. Imediatamente, sob a luz do luar, tomou nas mãos uma vassoura que se encontrava próxima à porta e partiu para cima do esposo, acertando-lhe a moleira. O pobre coitado caiu desfalecido, acordando alguns minutos depois.
- Cabra sem-vergonha, quando tu acordar vai ouvir poucas e boas. – Disse, furiosa!
Após tudo explicado, Severino queixou-se da esposa que não lhe permitira a visualização do último número do milhar. Só conseguira enxergar os três primeiros numerais que formavam o número 666.
Quando o dia amanheceu, estando à mesa tomando o café da manhã, D. Severina contou que ao voltar a dormir sonhou com alguém que lhe indicara o numeral nove. Severino decidiu então colocar o nove no final dos números que conseguira visualizar e fazer a aposta.
No final da tarde, quando da apuração do sorteio, o milhar sorteado foi o de número 9999.
Chegando a casa, contou para a mulher e esta se mostrou pesarosa. Josimar consolou-a dizendo:
- Fique triste, não, afinal essa história de simpatia não dá certo mesmo, o único numeral que saiu foi o que tu sonhaste, os meus não saíram nenhum, viu?
- Será, homem, que com a pancada que dei na tua moleira tu não trocaste os números e passasse a vê-los de cabeça para baixo?!



                                                Otaviano Maciel de Aencar Filho

Mentiras e mais mentiras

                                         Atualmente vemos ordinariamente na imprensa escrita assim como nas mídias digitais, infor...