terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Humor a todo custo







O som emitido pela sirene anunciava o fim do expediente. A turma que trabalhava no setor de controle de estoque aguardava ansiosamente o momento em que o gerente caminhava até o local onde estava instalado o dispositivo que acionava o estridente artefato sonoro.
 O motivo de tamanha expectativa se dava por ser final de semana: sexta-feira, dia de “curtição”.  Formávamos um grupo de pessoas e íamos até o centro da cidade, onde ficavam localizados alguns bares e casas de espetáculos de humor. Para ser mais preciso, o nosso ponto de encontro era o antigo calçadão C. Rolim, referência feita ao conjunto de lojas de calçados e confecções, de propriedade do grupo C. Rolim onde eram realizadas as apresentações artísticas.
                         As calçadas ficavam lotadas de mesas e cadeiras, que eram colocadas pelos comerciantes, na busca de ganharem a preferência dos frequentadores do local nos finais de semana.  
Em meados da década 1980, era comum a apresentação de humoristas cearenses, que estavam iniciando suas caminhadas rumo ao estrelato, em praças públicas, calçadas ou qualquer outro lugar onde houvesse aglomeração de pessoas.  Cantores, humoristas, palhaços, prestidigitadores e outros artistas faziam suas apresentações e, naturalmente, eram ovacionados pelo publico presente.
Naquela sexta-feira deixamos o local de trabalho, e contentes por haver chegado mais um final de semana, caminhamos até o ponto de ônibus mais próximo comentando sobre as atrações que logo mais iríamos assistir. A programação desta sexta-feira contava com a apresentação humorística de vários artistas da terra. O coletivo aporta, enquanto ainda falávamos sobre a diversão que iríamos ter. Adentramos o veículo que logo seguiu rumo a Praça José de Alencar, ponto final da linha de ônibus. Descemos e caminhamos pela Rua Guilherme rocha e no cruzamento com a Rua Senador Pompeu decidimos dar uma passada pelas Lojas Americanas e comprarmos algumas guloseimas
 No magazine, fomos até a seção de cereais e pegamos alguns biscoitos. Enquanto isso, Marcio foi até a seção de perfumaria. Resolvi segui-lo. Ao chegar ao local observei que ele estava experimentando um desodorante. Percebi que ele estava se perfumando e aproveitando a oportunidade dos fiscais não estarem por perto. Evidentemente sua atitude não era lícita. Mas... Quem nunca foi ao supermercado e na seção de perfumaria não “passou” um pouquinho de loção no punho para sentir o aroma do perfume? Pois bem, aproveitei também o “embalo” e fui experimentando os desodorantes, sempre atento aos fiscais, pois eles não deixavam abrir os frascos.
Num misto de ansiedade e temor em não ser flagrado, tomei em minhas mãos um spray e levei-o até a altura do pescoço, sempre olhando para os lados. Premi o frasco e senti uma coisa gelada em meu pescoço. Ignorei. Afinal todo desodorante em aerossol é “geladinho”.
Sai do estado em que me encontrava, com meus colegas dando gargalhadas e apontando para mim.
Quando olhei para baixo fiquei mais apavorado do que estava: o frasco que estava em minhas mãos não era de desodorante, mas de creme para barbear. Imediatamente larguei-o e passei a retirar grande quantidade de espuma que se alojara sob meu queixo descendo pescoço abaixo indo de encontro à camisa de cor vermelha que estava usando. E agora, como sair daquele local sem ser visto. Se fosse pego iria parar em uma saleta com uns grandalhões, levar uns bofetões e ainda pagar pela mercadoria!
Abruptamente, sem pestanejar, sai de “fininho”, buscando a saída, enquanto os três “amigos da onça” continuavam a me ridicularizar. Saindo da loja fui até a Praça do Ferreira com Jorge me acompanhando. Ficamos aguardando a chegada de Márcio e Orlaneudo, que foram pagar os biscoitos. Enquanto isso esperava secar a mancha branca que ficou em minha camisa.
Quando chegaram não pararam de gozar com o acontecimento. Um tanto bravo, bradei:
– Então não vão parar de dar risadas, afinal de contas o espetáculo é mais adiante.
 Alguns minutos depois descemos rumo ao calçadão para ali sim, darmos boas gargalhadas.
Quando chegamos o show já havia começado. Os comediantes animavam a platéia. O interessante é que, sem tirar o mérito dos artistas, notei que meus colegas nunca riram tanto quanto naquela noite. Acredito que por algum tempo eles conservaram em suas mentes as cenas do episodio ocorrido minutos atrás.
O importante foi que me diverti bastante... e eles mais ainda!   




                Otaviano Maciel de Alencar Filho




História de pescador





A garotada eufórica brincava animadamente em frente as suas residências. O período matutino, agraciado pela brisa advinda do litoral, era propício a realização de brincadeiras que exigiam maiores esforços físicos, como: esconde-esconde e pega-pega.
Antonino, o caçula da turma, encontrava dificuldades em correr, pois não contava com a habilidade da qual seus coleguinhas eram portadores, uma vez que sofria de uma deficiência na perna direita, devido a uma fratura femoral adquirida, por ironia do destino, em um desses momentos de diversão entre os amigos.
Enquanto suas mães, rendeiras, sentadas na calçada, teciam os fios de algodão, na confecção de roupas e toalhas das mais variadas espécies, seus esposos, pescadores, despediam-se, indo de encontro ao mar, na busca do sustento para a família.
Antonino ao ver o pai passando por ele, com a rede de pesca sobre os ombros, falou:
- Pai, vê se dessa vez traz pra mim um peixe bem “grandão”.
- Tudo bem, filho. O mar desta vez está prá peixe! – Respondeu, sorrindo.
- Não precisa ficar preocupado guri, afinal não é a toa que teu pai é apelidado de “Zé do Peixe” - Falou Antonio, tio do menino, tranquilizando-o.
As embarcações já os esperavam na praia. O encontro com os outros pescadores foi animado.
Antes de adentrarem nas embarcações, deram-se as mãos, e fizeram sentida oração, pedindo a proteção de São Pedro, padroeiro dos pescadores.
As balsas singraram o mar, deixando para trás familiares e amigos dos aventureiros marítimos, que foram até a praia despedirem-se.
Após algumas horas, já em alto mar, as jangadas afastam-se, cada qual indo a direções diferentes, para logo lançarem as redes ao mar, na esperança de que ao serem recolhidas, estas estejam repletas de peixes.
A Jangada em que Zé do Peixe estava era compartilhada por Antonio e seu filho. Eles haviam lançado as redes mar adentro algumas vezes, no entanto, nada de peixes em quantidade, apenas algumas lulas, e uma espécie de peixe sem grande valor comercial. A noite sucede o dia e a tarefa dos pescadores continua em plena execução. A escuridão da noite somente é diminuída devido à luz da lua e das estrelas, além de pequeno candeeiro utilizado para iluminar o ambiente em que se encontravam.
Zé do Peixe acorda com seu irmão que irá tirar um cochilo, enquanto ele e seu filho ficam atentos as ocorrências na jangada, e que logo depois será a vez de outro descansar um pouco.
Recostando a cabeça próximo a um samburá, Zé logo adormece... E sonha...
- “Vamos pessoal, deixem de moleza, não é todo dia que aparece um grandão desses, não! Mais para o lado. Joguem a rede para cá, rápido. Pegamos, pegamos, é isso pessoal. Vamos, puxem a rede. Força. Este é dos grandes! Vixe Maria, é muito grande, não vai dar para colocar na jangada. Segurem com força que ele ta querendo escapar. Ah, mas não vai escapar mesmo! Não adianta se debater, você não vai fugir. Ai, danado, solta a minha mão. Corre Tonho, vem me ajudar a soltar minha mão da boca deste “peixão”. Estamos afundando, valha-nos São Pedro.”
- Acorda Zé. Tu estás tendo um pesadelo, homem. – Disse Antonio, tentando acalmar o irmão que se debatia em agonia.
Ainda sem recobrar a lucidez, Zé inquire:
- O que aconteceu. Cadê o “peixão”, para onde ele foi?
- Calma Zé. Você teve um pesadelo, só isso!
Sentindo desconforto em uma das mãos que estava dentro do bolso do agasalho que estava vestindo, Zé puxou a mão de dentro da blusa e a retirou junto com um peixe que estava agarrado nela. Talvez tenha pulado para fora do samburá, indo encontrar alojamento dentro de suas roupas!
- Zé, um peixinho como este fez tudo isso com você, imagine um “grandão? – Falou o irmão, caçoando do pobre infeliz.
- Não brinca Tonho. Vai ver foi um aviso. Já estou bem. Vamos continuar o trabalho. Alguém quer descansar um pouco? - Perguntou.
Pai e filho responderam - Não, não estamos com sono!
- Então, mãos a obra. Redes para o lado direito. - Finalizou.
Assim foi feito, e ao puxarem a rede, que surpresa!   A rede veio abarrotada de peixes e entre eles um “grandão” veio junto. A alegria tomou conta geral. Novamente as redes foram lançadas e mais peixes foram apanhados.
Já amanhecia e enquanto preparavam o retorno a praia, Zé, meio sem jeito, pediu para que não comentassem sobre o episódio do pesadelo, afinal não ficava bem um pescador tão respeitado ter dado um vexame destes.
- Por que a preocupação, Zé? Mesmo que esta história escape, sem querer, nos botecos da vida, enquanto jogamos conversa fora, quem vai acreditar? Vão dizer que é história de pescador! – Falou Antonio, sorrindo e abraçando o irmão.



Otaviano Maciel de Alencar Filho

Mentiras e mais mentiras

                                         Atualmente vemos ordinariamente na imprensa escrita assim como nas mídias digitais, infor...