Uma
lenda saborosa...
Houve um tempo em
que os vegetais viviam como os seres humanos vivem hoje. Cada espécie tinha os
seus afazeres e assim todos levavam uma vida muito parecida com a que nós,
humanos, levamos hoje em dia. Foi um tempo distante, mas muito distante do
tempo atual, sequer a mãe Terra imaginaria abrigar seres como nós, humanos.
Entre eles, a
vida social, entretanto, tinha lá os seus problemas. Como suas variedades eram
muito grandes, ficava difícil uma convivência amistosa entre algumas espécies.
Por exemplo: Como árvores de grande porte poderiam conviver com as espécies
menores sem que lhes causassem algum tipo de desconforto? Um problema crucial era
justamente os acidentes provocados pelas “pisadas” que as plantas pequenas e as
gramíneas recebiam constantemente. Além disso, ficavam privadas da luz solar, e
assim não realizavam a fotossíntese, indispensável à vida orgânica.
Após muitas
discussões a respeito de como se daria a convivência social entre as diversas
espécies, ficou definido que cada espécie se estabeleceria em áreas
específicas: as árvores frutíferas formariam os pomares, as hortaliças as
hortas, outras árvores formariam as florestas, outras tantas formariam os
mangues e assim por diante, cada qual segundo suas espécies.
Vamos falar de um
caso acontecido com a espécie que, com o passar dos milênios, e após o
surgimento da espécie humana, tornou-se uma das mais apreciadas por esta, por ter
grande serventia na culinária: As hortaliças.
Essa espécie era
uma das que melhor conviviam entre si. Sentiam-se portadoras das melhores
benesses que a terra poderia lhes dar: um solo arenoso cheio de nutrientes
capazes de lhes garantir uma existência glamorosa.
De tempos em
tempos, eles promoviam festivais ornamentais onde todos se divertiam durante um
mês. Em um desses festejos, talvez o maior já realizado, aconteceu algo de
inusitado, e que foi prejudicial e decisivo para a convivência pacífica entre
todos da classe.
No dia da festa
estavam de prontidão na entrada da horta, servindo de porteiros, o Inhame e a Abóbora.
Ambos garantiriam somente a entrada de hortaliças no interior do terreno. O Inhame
exibia sua robustez, enquanto a Abóbora sentia-se orgulhosa em mostrar as suas
curvas lisas e definidas.
Os convidados
foram chegando e logo adentrando ao terreiro.
Primeiro chegou o
Espinafre, seguido da Berinjela, depois a Ervilha, o Cheiro-Verde, que logo foi
soltando um aroma peculiar, logo depois veio a Pimenta, que sem querer
encostou-se ao Quiabo, causando-lhe uma pequena queimadura, levando-o a ter alguns
espasmos e babar-se todinho. A situação foi logo controlada com a chegada do
Agrião que, com sua ação refrescante, diminuiu a dor causada pela queimadura.
Logo depois veio a Alface que, juntando toda essa meleca, com uma de suas
folhas, foi deixar essa sujeira em um lugar reservado.
As horas foram
passando e mais convidados chegando. Lá pelo meio dia chegou a Acelga, o Tomate,
o Chuchu, o Maxixe e logo depois a Cebola, que teve sua entrada “barrada” pelo
Inhame e a Abóbora. A Cebola quis saber o motivo que a levara a ser detida à
entrada da festa.
- Por que não posso adentrar? Sou uma
hortaliça. – Afirmou a Cebola!
O Inhame
respondeu que estava acatando ordens da organização da festa, e que tinha em
mãos a relação dos convidados, e seu nome não constava na lista, portanto, não
podia fazer nada a seu favor.
Constrangida, a
Cebola afastou-se da fila, que já estava enorme e começou a chorar, exalando um
odor muito forte!
Depois desse
infeliz episódio, os convidados restantes foram entrando no recinto, a saber: O
Pimentão, a Rúcula, o Melão, A Beterraba e o Alho que também foi detido antes
de entrar para a festa. Nova confusão. O Alho, todo “roxo” de raiva, começou a
soltar um cheiro muito forte e desagradável. Não conformado com a proibição,
quis saber quem era o responsável pelo festim e que o mesmo viesse a público e revelar
o motivo dessa decisão. A Cebola enxugou as lágrimas e juntando-se ao amigo
Alho, ficou aguardando a resposta dos guardiões da entrada.
- Sinto muito,
não podemos ir de encontro às ordens dada pela Mostarda, que os retirou da
lista de convidados, alegando que o odor exalado por você e a Cebola poderiam
prejudicar o evento. - Falou com um embargo na voz a Abóbora.
Os convidados
restantes e os que haviam entrado para a festa ficaram revoltados com a decisão
tomada pela Mostarda e resolveram todos irem até ao centro da horta onde ela se
encontrava situada.
- Mostarda, não
está certo você “barrar” a entrada de nossos amigos Cebola e Alho. Nós não nos
importamos com o odor que eles soltam, antes de tudo eles são nossos amigos. Qual
de nós não tem características próprias? Você, por exemplo, não dá frutos que
têm sabor picante, ainda que suave? Ademais, você, enquanto árvore, não se encaixa
na categoria das hortaliças. Seus frutos, estes sim, é que fazem que você possa
ser considerada de nossa família, portanto quem não deveria estar aqui, seria
você. – Falou a Ervilha, encorajada!
A Mostarda,
envergonhada com a absurda decisão tomada, voltou atrás e permitiu a entrada de
toda e qualquer hortaliça. Foram tantas que não dava para contar nos dedos das
mãos e dos pés!
E a festa
continuou com os mais diversos sabores e odores.
Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 2018 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)
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