quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Mensagem do Além






Aconteceu muito rápido. Não sei precisar o tempo decorrido do fato que vou contar. Somente agora, passadas algumas semanas, creio eu, começo a me dar conta do ocorrido, embora me encontre um tanto confuso diante a nova situação em que me encontro, chegando até certo ponto não aceita-la.
Um estampido. Apenas e tão somente um estrondo acompanhado de um projétil que veio em minha direção, e logo uma pressão muito grande em meu peito esquerdo. Cai esvaindo-se em sangue. Ao meu lado se encontrava minha companheira, abraçando-me aos prantos. Jamais ela poderia imaginar que o desfecho de uma situação litigiosa no matrimônio tivesse um final trágico, afinal já havíamos entrado em consenso quanto à nossa separação a cerca de três meses.
O disparo certeiro que me acertou, partiu das mãos de seu amante que, adentrando nossa residência, sem que fosse visto, dirigiu-se até o quarto onde nos encontrávamos, tratando das ações a serem tomadas com relação à ruptura de nossa união.
Como disse anteriormente, desde há muito já tínhamos resolvido esta questão e em nenhum momento demonstrei hostilidade para com sua decisão. Um homem de idade avançada compartilhando amores com uma jovem, no meu caso bem mais jovem que eu, não poderia esperar outra coisa a não ser surpreendido pela decepção de ser trocado por outro ser mais jovem, cheio de vigor. Por favor, não tomem minhas palavras como regra geral para os relacionamentos onde a diferença de idade dos cônjuges é muito grande. Cada caso é um caso e o desfecho final de um matrimônio, se me permitem assim dizer, está nos desígnios de Deus.
Não pretendo entrar em maiores detalhes acerca das situações que vivi no matrimônio e que culminaram com o nefasto episódio que ora narro.
Voltarei, então, a compartilhar as impressões que tive após o tombamento de meu corpo ao chão:
Senti uma dormência estranha. Uma leveza. As coisas começaram a girar (ou seria eu quem estava girando?). Apavorei-me, quando, após alguns instantes, olhei para o chão e vi meu corpo caído e sobre ele, chorando, minha ex-esposa e meus dois filhinhos. Gritei, chamando por eles, mas não me ouviam. Aproximei-me para abraçá-los. Não consegui. Estou vivo, clamei desesperadamente. Chamem um médico. Tudo em vão! Aflitivamente, cheguei a uma dura conclusão:
- Estou morto... Meu Deus!
Foram chegando algumas pessoas e em pouco tempo o recinto estava cheio. Procurei, com turvos olhares, identificar o meu algoz no meio da multidão, mas ele já havia se evadido do local. Tentei sair do quarto, mas algo me impedia de fazê-lo.
Com os prantos de meus familiares ressoando aos meus ouvidos, que agora pareciam ter os sentidos auditivos dilatados, entrei em profundo desespero. O tempo e o espaço pareciam estar dilatados. O ambiente mudava constantemente os seus contornos. O quarto que media pouco mais de 16m² afigurava-se agora a um grande salão. Muitas pessoas conversavam baixinho para não tumultuar ainda mais o recinto, que, pelo que pude perceber, contava com aproximadamente cinquenta pessoas. Reconheci de imediato alguns familiares que se aproximavam de mim (ou do meu corpo) e não conformados com a triste cena, derramavam copiosas lágrimas.
Observei que chegara ao recinto o pessoal responsável pelo translado de meu corpo. Juntamente com eles vieram as autoridades policiais que, de imediato, começaram os trabalhos de investigação. Enquanto isso as pessoas era retiradas do local para não atrapalharem o trabalho efetuado por eles.
Por um lapso de tempo que ignoro a duração entrei em estado de torpor profundo, e vi, como num filme, toda a história de minha vida desenrolar-se ante meus olhos.
Quando retornei do estado em que me encontrava, senti um vazio dentro de mim. Acabrunhado, recolhido em um canto qualquer, imerso em total solidão, não me dava conta de tempo e espaço, até que uma luz, vinda não sei de onde, começou a iluminar o ambiente, se assim posso me expressar, pois como mencionei anteriormente é um estado novo, este em que me encontro. Poderia dizer, sem receio de estar faltando com a verdade, que o simples fato de pensar torna tudo muito “real”.
À luz que se fizera perceptiva para mim, aproximaram-se dois seres que, complacentemente, passaram a me observar. Tomando-me as mãos, ergueram-me do local em que me encontrava, e pela primeira vez pude constatar que alguém podia relacionar-se comigo.
- Companheiro, não temas, você está entre amigos, precisamos conversar bastante e pô-lo a par de sua nova existência! – Falou um jovem senhor, com um leve sorriso no olhar.  Após algum tempo fui apresentado a algumas pessoas que há muitos anos não via, pois haviam transpassado o portal existente entre o que chamamos vida e morte, antes de mim.
Pude reconhecer alguns parentes e alguns amigos que conviveram comigo em vida. Fiquei feliz quando encontrei Humberto, antigo amigo de negócios, e qual não foi minha surpresa quando o vi “inteirinho”, com sua perna direita, que havia sido amputada após ser vítima de um acidente automobilístico que sofrera anteriormente.
- Como pôde acontecer isso, Humberto. - Perguntei curioso.
- Vá com calma, amigo, terá todo o tempo do mundo para ficar a par de seus novos modo de ser e estar!
Formamos um círculo e começamos a conversar alegremente.





                        Otaviano Maciel de Alencar Filho


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Acredite... Se quiser!

                        


Lá pelas bandas do sertão setentrião cearense, por volta dos anos cinquenta, existia um fazendeiro de nome Valadares, ou simplesmente, “coroné Valadares”. O tal “coroné Valadares” era um homem rico, proprietário de vários imóveis na região.
 De boa índole, porém muito intempestivo e rude no falar, muitos que se achegavam a ele tremiam de medo, e quem não segurasse a vontade de urinar fazia o serviço ali mesmo na sua frente, tamanho era o temor que ele provocava nas pessoas.
Em sua fazenda, os trabalhadores morriam de medo, quando ele chamava algum deles para conversar sobre os resultados dos trabalhos realizados em sua propriedade.
D. Marilena, sua esposa, era uma donzela de vinte e três anos de idade, enquanto Valadares já beirava os cinquenta. Muito discreta e amável para com todos os colaboradores da fazenda, por diversas vezes interferira em favor dos trabalhadores, garantindo-lhe enorme prestígio junto a eles.
O fato é que Valadares era homem viril e bastante namorador.  Desde sua mocidade muitas moças deixaram-se levar por seus galanteios; talvez muito mais interessadas em sua herança, - já que ele era filho único e, portanto, herdeiro direto de seu pai que, aliás, quando morreu deixou toda fortuna para ele -, do que propriamente pensando em um relacionamento baseado em laços afetivos.
 Esse modo de viver o acompanhou por toda sua existência. Por isso mesmo, era um homem que desconfiava veementemente da fidelidade conjugal de sua atual esposa, que, diga-se de passagem, era a terceira mulher com a qual o coronel contraíra matrimônio. Porém, nem mesmo com todo cuidado e vigilância intensiva deixou de ser traído pelas duas ex-esposas. Em nenhum dos relacionamentos teve filhos.
Coronel Valadares contava com o auxílio de seu fiel confidente, o capataz Julião, que trabalhava para ele desde o seu primeiro casamento. Julião tinha como principal incumbência vigiar todos os passos de suas esposas, e assim averiguar se as mesmas se comportavam direito, quando saiam da fazenda para outros lugares.
- Às vezes fico com inveja do seu relacionamento conjugal com sua esposa Julião. D. Clotilde é tão leal no matrimônio, não Julião? –Interpelou.
- É coronel, não dou mole não, mantenho sempre as rédeas curtas. – Falou se gabando da fidelidade da esposa.
Mas sina é sina, e todos os cuidados tomados foram em vão. Contudo, parecia que a maldição do “chifre” havia acabado. D. Marilena em nenhum momento dos quatro anos que estavam casados demonstrara qualquer atitude suspeita relacionada à traição matrimonial. Mesmo assim, Valadares não abria mão da espionagem.
Certo dia D. Marilena disse que iria à feira comprar algumas mercadorias e não querendo pedir ao marido para ir com ela, pois o mesmo encontrava-se muito ocupado, solicitou que Julião a levasse. Valadares disse-lhe que Julião estava de folga neste dia e não poderia leva-la até o local onde era realizado o comércio hortifrutigranjeiro.
- Oh, amor, algum trabalhador pode me conduzir. Falou com voz melosa, acariciando os cabelos grisalhos do esposo.
- Não...  Façamos o seguinte: eu a levarei e enquanto você realiza as compras aproveito para ir até barbearia.
-Tudo bem, vou pôr um vestido bem bonito. – Caminhou para o quarto cantarolando alegremente.
Na feira, o coronel deixou sua esposa fazendo as compras e antes de ir à barbearia, dirigiu-se a um prostíbulo que existia ali perto. Quando chegou ao meretrício deu de cara com Julião. Imediatamente os dois começaram a confabular:
- Está divertindo-se muito, hein?
- Estou sim doutor.
-Julião, hoje é sua folga, mas preciso urgente de seus serviços.
- Pois não!
Sua patroa está fazendo compras na feira, quero que você a siga e não saia de “Sua cola”.
Imediatamente o homem caminhou até o local de vendas e procurou por Marilena. Não a encontrando resolveu, então, procurar pelos arredores. Novamente a busca foi em vão. Quase duas horas depois, retornou ao salão de festas e contou para seu patrão que procurou a patroa em toda a cidade e não a encontrou.
- Tem certeza que a procurou direto, homem? Perguntou.
- Claro coronel... Só falta dá uma olhadinha lá em cima, nos quartos. – Insinuou o homem, em tom sarcástico.
Os olhos do coronel arregalaram-se e enfurecido desabafou:
- Não, não pode ser. Não a vi entrar neste lugar, contudo, suba lá e dê uma olhada, e se a encontrar, traga até a mim. Vou mostrar a ela quem é o coronel Valadares.
Numa só pisada o homem subiu os degraus, e após alguns instantes ouviu-se barulho de objetos sendo quebrados, indicando que estava havendo briga na parte de cima do estabelecimento. Minutos depois o homem desceu com uma mulher arrastada pelos cabelos e sendo esbofeteada. Valadares levantou-se, e aproximando-se dos dois exclamou:
- Pare com isso Julião, a mulher é minha, eu é que tenho de lhe dar uma lição, não você.
- Quem disse para o senhor que esta é D. Marilena? – Falou o capataz esbravejando.
Aproximando-se da mulher que estava jogada ao chão, Valadares a reconhece como sendo a esposa se seu fiel funcionário.
- E Marilena, onde ela está? Perguntou.
- Sei, lá, coroné. E eu estou com cabeça para procurar alguém. O corno aqui sou eu e o senhor desconfiando de sua mulher?
Valadares imediatamente subiu as escadas e procurou pela esposa, mas não a encontrou. Colocou a cabeça para fora da janela e olhou para baixo na rua e viu sua esposa na calçada da barbearia, gritou:
- Onde você estava mulher?
- Terminei as compras e vim até a barbearia procurar por você. Disseram-me que ainda não aparecera por aqui, então resolvi ir até o salão de beleza de D. Rocilda e fazer as unhas e, então, retornei para cá... O que fazes ai? – Perguntou curiosa.
                  - Estou descendo para lhe contar o que aconteceu e o porquê de eu estar aqui. Você não vai acreditar! – Exclamou, pensando na desculpa que daria para a esposa, aproveitando-se do episódio ocorrido no local.
Instantes depois, Valadares voltava para a fazenda, conversando com sua esposa, enquanto a confusão continuava no cabaré.




                                             Otaviano Maciel de Alencar Filho

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Quando fala o coração




      Quem sou eu, quem é você?
  Qual de nós tem a razão?
Penso que esta questão
     Quem resolve é o coração.

Somos dois desiludidos
 Num amor tão proibido.
 Deveríamos ter pensado
       Antes de nos apaixonarmos!

Mas querer não é poder
Quando fala o coração.
   E não há ninguém capaz
   De desfazer nossa união.

Só há uma solução.
Diante esta questão:
      É vivermos nosso amor
                                                                  E brindar nossa união!




Otaviano Maciel de Alencar Filho

Desmatamento

A mata verde sofre sem ser amparada!
Animais em frenética disparada.
Pássaros em debanda.
E o fogo avançando sem dó
Na garganta sinto um nó.
O estalar das verdes-campinas
Ante o insano fogaréu
Somente é abafado
Pelas brumas que vão ao céu.
Num lampejo de agonia
A natureza em chamas ardentes
Sofre sob a tirania
Do fogo abrasador!
Triste e desolador cenário!
Não dá para acreditar.
A ganância humana
Em sua insanidade vulgar
 Devasta toda a natureza
Em busca de o dinheiro ganhar.
E assim vai pensando o homem
Num desatino profundo
Destruindo a natureza
E toda a beleza do mundo.



Otaviano Maciel de Alencar Filho



Lembranças de uma tragédia canina





Certo dia, pela manhã, quando foi à padaria pra comprar pão e leite, que seriam degustados no café da manhã, minha esposa, ao chegar ao estabelecimento comercial foi surpreendida por pequeno cãozinho, que de imediato ficou junto a seus pés.
Tendo efetuado o pagamento das mercadorias, dirigiu-se ao balcão para receber os produtos, para, então, retornar ao lar. O animalzinho acompanhou-a, seguindo seus passos. A princípio ela não observara que o mesmo a seguia. Após alguns instantes nota a sua presença. Resolve, então, voltar à padaria para saber a quem ele pertencia. Após algumas perguntas e procura nos arredores, em uma tentativa infrutífera de localizar o proprietário do cachorrinho, resolve levá-lo para casa e aguardar se alguém iria reivindicar a posse do canino.
Os dias se passaram e como nenhuma pessoa apareceu dizendo-se dono do pequenino animal, resolvemos ficar com ele. Era pequeno mesmo. De tão pequeno foi “batizado” de Pingo, e a partir daquele momento Pingo arranjara definitivamente um novo lar.
Pingo era meigo, de cor branca com rajado-marrom, olhos grandes e arregalados. Era um verdadeiro cão fiel, no sentido lato da palavra. Parecia pressentir nossos sentimentos: angústias, alegrias, dores.
Quando Pingo passou a fazer parte de nossa família já tínhamos uma cadelinha chamada Anita. Anita era alva como o algodão, inteligente, astuta, corajosa e brava, na defesa do território, quando algum estranho intentava entrar na casa sem permissão. Tal qual Pingo, uma fiel companheira. O interessante é que os dois bichanos nunca brigavam entre si, a não ser é claro quando a ração de um acabava e ia comer a ração do outro.
Meu filho Victor, que nessa época contava menos de dez anos, o elegeu como sua mascote de estimação, e quando ele voltava da escola os dois brincavam correndo dentro da casa ou no quintal. Pingo ficou muito apegado a ele, parecia que tinha nos esquecido. Só tinha olhos para ele. E que olhos!
Em determinada época, mudamos de casa. Pingo e Anita demoraram a se acostumarem com o novo ambiente, que não tinha quintal, apenas um pequeno espaço no final do imóvel que servia como área de serviço. Em contrapartida a área construída da casa era superior em muito ao imóvel no qual morávamos antes.
As brincadeiras aconteciam, agora, dentro de casa em um corredor que, saindo da sala, passava pelos quartos e ia até a cozinha e, finalmente, a área de serviço.
Lembro-me que quando chegava do trabalho, Anita percebia a minha chegada, estando eu ainda no portão e ela nos fundos da casa. Ligeiramente corria até o portão com seus latidos estridentes e o rabinho balançando, demonstrando alegria com a minha chegada.
Às vezes resolvia brincar de esconde-esconde com ela. Chegava bem de mansinho e me escondia detrás da porta de um dos quartos e gritava:
- Anita!
Imediatamente ela saia pela casa me procurando, focinhando em todos os lugares até me encontrar, quando, então, recebia alguns tapinhas na cabeça e afagos na região do pescoço, saia feliz da vida!

Porém, certo dia, Anita amanheceu triste, acabrunhada e mofina. Estava doente. Esperamos durante o dia para ver se ela tinha melhoras. Minha esposa fez um chá de boldo e deu a ela. Talvez a coitadinha tivesse ingerido algo estragado e no dia seguinte amanhecesse melhor. Era o que esperávamos, mas não foi o que aconteceu.  Anita piorara. Rapidamente levei-a ao hospital veterinário onde fez exame de sangue e constatou-se que ela estava infectada com uma bactéria que era transmitida pelo carrapato. Passei o dia com ela no hospital enquanto ela tomava soro e medicação. Já no final do dia, por volta das 16hs, recebeu alta. Com o receituário em mãos passei em uma farmácia veterinária e comprei a medicação a ser administrada a ela. Chegamos a casa e a coloquei no chão e fui preparar a medicação. Quando me aproximo noto que Anita já se encontrava sem vida. Foi muito dolorosa para todos nós tamanha perda, contudo, Pingo ajudou-nos a superar esta perda. Fizemos a desinfecção do local como mandara o veterinário. Logo depois adquirimos outro cãozinho que recebeu o nome de Loopi, que passou fazer companhia a pingo. Alguns meses se passaram e Pingo foi infectado pela mesma bactéria, cujo poder letal é muito grande, vindo a falecer exatamente como Anita. Foi mais um “baque” na família, principalmente para Victor, que demorou a aceitar a realidade dos fatos. Nova desinfecção foi promovida em todo o ambiente onde os animais ficavam a maior parte do tempo. Realmente a desgraça assolara nosso lar, pois Loopi também não escapou ao mesmo destino de Anita e Pingo. E pensar que todo esse acontecido se deu devido à existência de uma “vacaria” que ficava localizada no final da rua. Os animais transitavam normalmente pela local, deixando em seus rastros os parasitas que infectaram nossos bichinhos. Eternizamos os momentos de alegrias que nos proporcionaram, em forma de lembranças, em nossos corações. 


Otaviano Maciel de Alencar Filho

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Atroz sofrimento





O que canto me faz dormir.
O que vejo me faz sentir.
O que sinto me faz viver
Um sonho que me faz sofrer.

Quando durmo, no sonho fico a recordar.
Quando sinto fico a pensar.
Enquanto vivo fico a fingir,
E do sofrimento fico a fugir.

Da vida não quero nada
Além do viver tão bem.
Também desejo alegrias
A todos que vivem além.

Sofrer não é o mal pior a enfrentar.
Pior é não sofrer e no mal caminhar.
A dor visita sempre o doente
Que o caminho do bem rejeita trilhar!



Otaviano Maciel de Alencar Filho

sábado, 18 de maio de 2013

O bêbado e o motorista


               
Quando o coletivo deixou o ponto final, no centro da cidade, para iniciar nova viagem, logo no início da manhã, rumo ao subúrbio, levando em seu interior aproximadamente quinze passageiros, ninguém poderia imaginar o que sucederia a partir daquele instante.
Alheios aos acontecimentos do porvir, os passageiros, cada qual em seu mundo interior, exceto um senhor de meia idade que se encontrava sentado em uma poltrona, no canto esquerdo da traseira do veículo, que, aliás, apresentava visíveis sinais de embriaguez, ignoravam a beleza da exuberante vegetação, composta de árvores centenárias, dentre as quais se podiam identificar magníficos Ipês Amarelos e Roxos.
O cobrador do coletivo, de sua poltrona, observando atento o homem sentado no final do ônibus, e percebendo que o mesmo se encontrava ébrio tratou de ficar quieto em seu lugar e esperar até ele resolver passar pela roleta e seguir seu destino, afinal ele não estava incomodando.
Subitamente, o homem arregala os olhos e depara-se com o cobrador olhando para ele e pergunta com voz estridente:
- Tá olhando o quê, nunca viu um homem embriagado?
                        - Nada, apenas estou vendo se está tudo bem com o senhor! - Respondeu.
- Claro que está tudo bem, o que poderia estar errado comigo? Só porque tomei uns goles a mais preciso de cuidados especiais? Falou com uma voz arrastada.
                        - O senhor não entende o que digo. Quero dizer que na situação em que se encontra, pode sofrer um acidente, caso o motorista precise brecar repentinamente o veículo. - Falou em tom amistoso para não irritá-lo.
                        - Você tá de brincadeira comigo. Esse carro parece uma tartaruga andando, já faz um tempão que eu deveria ter chegado a minha casa e nada. - Falou debochando.
Os passageiros saíram da inércia sensorial em que se encontravam e assistiam ao diálogo sem se envolverem no caso. O motorista, pelo retrovisor interno, passou a acompanhar a movimentação nos fundos do veículo e pôde escutar toda a conversação. Sentindo-se ferido no orgulho, tratou de mostrar perícia no volante e “sentou” o pé no acelerador.
O ônibus desceu ladeira abaixo velozmente. Os passageiros, apavorados, gritavam e pediam ao motorista para ir mais devagar. O condutor, porém, estava ensandecido e sequer ouvia os clamores dos passageiros.
- Até que enfim o chofer resolveu tirar o pé do freio. - disse o homem, bradando, e dirigindo a palavra aos passageiros.
- Não sei qual o mais louco dos dois, o senhor ou o motorista. - Falou uma senhora, que trajando um jaleco branco, se agarrava ao ferro da poltrona a sua frente, para não ser arremessada no soalho do ônibus.
- Então, não quer chegar cedo a sua residência?  A senhora passou a noite trabalhando no pronto socorro, não foi? Está com sono, pensa que não a observei tirando um cochilo na cadeira? – Concluiu, adiantando-se até a roleta.
- Desse jeito, meu senhor, vou chegar cedo é no céu!- Respondeu a mulher, apavorada.
O motorista, observando que o homem havia levantado do banco, sem se importar com a segurança dos passageiros brecou bruscamente o veículo. O homem, atravessando a roleta, foi arremessado no piso do carro e saiu rolando até a dianteira do coletivo detendo-se próximo ao motorista, que esbraveja:
- Então, engraçadinho, tá querendo briga?
- Não, senhor, o que quero agora é ir para um hospital. Estava só me divertindo um pouco, coisa de bêbado. Não pensei que fosse levar a sério esta brincadeira - Falou o homem, agonizante, que apresentava um corte no supercílio esquerdo, que sangrava bastante, um hematoma à altura da nuca, além de várias escoriações pelo corpo. Alguns passageiros também sofreram escoriações, porem, leves.
A passageira, auxiliar de enfermagem, aproximando-se, tratou de acalmá-lo, comprimindo a área afetada pelo corte. Levantando o olhar para o condutor do ônibus, falou:
- Veja só o que uma pessoa com raiva é capaz de fazer. Se não tivesse dado ouvidos aos seus reclames, isto não teria acontecido. O senhor também esquece que pôs em risco a vida de todos dentro do coletivo, inclusive a sua?
- Ora, bolas, não tenho “sangue de barata”. Ele precisava de uma lição.
- Por acaso o senhor acredita que um erro conserta o outro? Eu respondo que não. Observe agora a situação: Um homem ferido, precisando de cuidados médicos com urgência; e ademais, você poderá responder processo por lesão corporal dolosa.
Nesse momento, o motorista refletiu sobre sua atitude, e um tanto embaraçado não conseguia esconder o sentimento de vergonha que se apossava de seu ser, enquanto os passageiros dirigiam-lhe palavras de desaprovação a sua conduta.
- Vamos leva-lo imediatamente ao hospital- Disse o mesmo. É o mínimo que posso fazer, por enquanto!
Os passageiros desceram do coletivo, aguardando outro para prosseguirem a viagem.
O condutor, tomando a direção do ônibus, acelerou abruptamente o coletivo que saiu, “cantando pneu”, rumo à emergência hospitalar mais próxima, levando consigo a profissional de enfermagem e o homem ferido!


Otaviano Maciel de Alencar Filho

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Soneto da esperança







O sonho do agora se findou, destarte.
Jaz a esperança no seio escarlate.
Da prole, o levante estandarte
Almeja o esplendor: “Quilate”.

Quimeras já não vingarão.
Lúcido fulgor espargirá.
De o insano poder surgirá
As ruínas de atroz coração.

Bravas cortes surgirão reluzentes,
Ante o fim do renitente,
Envolvidas pelo onisciente.

Murmúrio argênteo vivaz
Traz-nos valor eficaz:
A felicidade que satisfaz!




                                    Otaviano Maciel de Alencar Filho

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Humor a todo custo







O som emitido pela sirene anunciava o fim do expediente. A turma que trabalhava no setor de controle de estoque aguardava ansiosamente o momento em que o gerente caminhava até o local onde estava instalado o dispositivo que acionava o estridente artefato sonoro.
 O motivo de tamanha expectativa se dava por ser final de semana: sexta-feira, dia de “curtição”.  Formávamos um grupo de pessoas e íamos até o centro da cidade, onde ficavam localizados alguns bares e casas de espetáculos de humor. Para ser mais preciso, o nosso ponto de encontro era o antigo calçadão C. Rolim, referência feita ao conjunto de lojas de calçados e confecções, de propriedade do grupo C. Rolim onde eram realizadas as apresentações artísticas.
                         As calçadas ficavam lotadas de mesas e cadeiras, que eram colocadas pelos comerciantes, na busca de ganharem a preferência dos frequentadores do local nos finais de semana.  
Em meados da década 1980, era comum a apresentação de humoristas cearenses, que estavam iniciando suas caminhadas rumo ao estrelato, em praças públicas, calçadas ou qualquer outro lugar onde houvesse aglomeração de pessoas.  Cantores, humoristas, palhaços, prestidigitadores e outros artistas faziam suas apresentações e, naturalmente, eram ovacionados pelo publico presente.
Naquela sexta-feira deixamos o local de trabalho, e contentes por haver chegado mais um final de semana, caminhamos até o ponto de ônibus mais próximo comentando sobre as atrações que logo mais iríamos assistir. A programação desta sexta-feira contava com a apresentação humorística de vários artistas da terra. O coletivo aporta, enquanto ainda falávamos sobre a diversão que iríamos ter. Adentramos o veículo que logo seguiu rumo a Praça José de Alencar, ponto final da linha de ônibus. Descemos e caminhamos pela Rua Guilherme rocha e no cruzamento com a Rua Senador Pompeu decidimos dar uma passada pelas Lojas Americanas e comprarmos algumas guloseimas
 No magazine, fomos até a seção de cereais e pegamos alguns biscoitos. Enquanto isso, Marcio foi até a seção de perfumaria. Resolvi segui-lo. Ao chegar ao local observei que ele estava experimentando um desodorante. Percebi que ele estava se perfumando e aproveitando a oportunidade dos fiscais não estarem por perto. Evidentemente sua atitude não era lícita. Mas... Quem nunca foi ao supermercado e na seção de perfumaria não “passou” um pouquinho de loção no punho para sentir o aroma do perfume? Pois bem, aproveitei também o “embalo” e fui experimentando os desodorantes, sempre atento aos fiscais, pois eles não deixavam abrir os frascos.
Num misto de ansiedade e temor em não ser flagrado, tomei em minhas mãos um spray e levei-o até a altura do pescoço, sempre olhando para os lados. Premi o frasco e senti uma coisa gelada em meu pescoço. Ignorei. Afinal todo desodorante em aerossol é “geladinho”.
Sai do estado em que me encontrava, com meus colegas dando gargalhadas e apontando para mim.
Quando olhei para baixo fiquei mais apavorado do que estava: o frasco que estava em minhas mãos não era de desodorante, mas de creme para barbear. Imediatamente larguei-o e passei a retirar grande quantidade de espuma que se alojara sob meu queixo descendo pescoço abaixo indo de encontro à camisa de cor vermelha que estava usando. E agora, como sair daquele local sem ser visto. Se fosse pego iria parar em uma saleta com uns grandalhões, levar uns bofetões e ainda pagar pela mercadoria!
Abruptamente, sem pestanejar, sai de “fininho”, buscando a saída, enquanto os três “amigos da onça” continuavam a me ridicularizar. Saindo da loja fui até a Praça do Ferreira com Jorge me acompanhando. Ficamos aguardando a chegada de Márcio e Orlaneudo, que foram pagar os biscoitos. Enquanto isso esperava secar a mancha branca que ficou em minha camisa.
Quando chegaram não pararam de gozar com o acontecimento. Um tanto bravo, bradei:
– Então não vão parar de dar risadas, afinal de contas o espetáculo é mais adiante.
 Alguns minutos depois descemos rumo ao calçadão para ali sim, darmos boas gargalhadas.
Quando chegamos o show já havia começado. Os comediantes animavam a platéia. O interessante é que, sem tirar o mérito dos artistas, notei que meus colegas nunca riram tanto quanto naquela noite. Acredito que por algum tempo eles conservaram em suas mentes as cenas do episodio ocorrido minutos atrás.
O importante foi que me diverti bastante... e eles mais ainda!   




                Otaviano Maciel de Alencar Filho




História de pescador





A garotada eufórica brincava animadamente em frente as suas residências. O período matutino, agraciado pela brisa advinda do litoral, era propício a realização de brincadeiras que exigiam maiores esforços físicos, como: esconde-esconde e pega-pega.
Antonino, o caçula da turma, encontrava dificuldades em correr, pois não contava com a habilidade da qual seus coleguinhas eram portadores, uma vez que sofria de uma deficiência na perna direita, devido a uma fratura femoral adquirida, por ironia do destino, em um desses momentos de diversão entre os amigos.
Enquanto suas mães, rendeiras, sentadas na calçada, teciam os fios de algodão, na confecção de roupas e toalhas das mais variadas espécies, seus esposos, pescadores, despediam-se, indo de encontro ao mar, na busca do sustento para a família.
Antonino ao ver o pai passando por ele, com a rede de pesca sobre os ombros, falou:
- Pai, vê se dessa vez traz pra mim um peixe bem “grandão”.
- Tudo bem, filho. O mar desta vez está prá peixe! – Respondeu, sorrindo.
- Não precisa ficar preocupado guri, afinal não é a toa que teu pai é apelidado de “Zé do Peixe” - Falou Antonio, tio do menino, tranquilizando-o.
As embarcações já os esperavam na praia. O encontro com os outros pescadores foi animado.
Antes de adentrarem nas embarcações, deram-se as mãos, e fizeram sentida oração, pedindo a proteção de São Pedro, padroeiro dos pescadores.
As balsas singraram o mar, deixando para trás familiares e amigos dos aventureiros marítimos, que foram até a praia despedirem-se.
Após algumas horas, já em alto mar, as jangadas afastam-se, cada qual indo a direções diferentes, para logo lançarem as redes ao mar, na esperança de que ao serem recolhidas, estas estejam repletas de peixes.
A Jangada em que Zé do Peixe estava era compartilhada por Antonio e seu filho. Eles haviam lançado as redes mar adentro algumas vezes, no entanto, nada de peixes em quantidade, apenas algumas lulas, e uma espécie de peixe sem grande valor comercial. A noite sucede o dia e a tarefa dos pescadores continua em plena execução. A escuridão da noite somente é diminuída devido à luz da lua e das estrelas, além de pequeno candeeiro utilizado para iluminar o ambiente em que se encontravam.
Zé do Peixe acorda com seu irmão que irá tirar um cochilo, enquanto ele e seu filho ficam atentos as ocorrências na jangada, e que logo depois será a vez de outro descansar um pouco.
Recostando a cabeça próximo a um samburá, Zé logo adormece... E sonha...
- “Vamos pessoal, deixem de moleza, não é todo dia que aparece um grandão desses, não! Mais para o lado. Joguem a rede para cá, rápido. Pegamos, pegamos, é isso pessoal. Vamos, puxem a rede. Força. Este é dos grandes! Vixe Maria, é muito grande, não vai dar para colocar na jangada. Segurem com força que ele ta querendo escapar. Ah, mas não vai escapar mesmo! Não adianta se debater, você não vai fugir. Ai, danado, solta a minha mão. Corre Tonho, vem me ajudar a soltar minha mão da boca deste “peixão”. Estamos afundando, valha-nos São Pedro.”
- Acorda Zé. Tu estás tendo um pesadelo, homem. – Disse Antonio, tentando acalmar o irmão que se debatia em agonia.
Ainda sem recobrar a lucidez, Zé inquire:
- O que aconteceu. Cadê o “peixão”, para onde ele foi?
- Calma Zé. Você teve um pesadelo, só isso!
Sentindo desconforto em uma das mãos que estava dentro do bolso do agasalho que estava vestindo, Zé puxou a mão de dentro da blusa e a retirou junto com um peixe que estava agarrado nela. Talvez tenha pulado para fora do samburá, indo encontrar alojamento dentro de suas roupas!
- Zé, um peixinho como este fez tudo isso com você, imagine um “grandão? – Falou o irmão, caçoando do pobre infeliz.
- Não brinca Tonho. Vai ver foi um aviso. Já estou bem. Vamos continuar o trabalho. Alguém quer descansar um pouco? - Perguntou.
Pai e filho responderam - Não, não estamos com sono!
- Então, mãos a obra. Redes para o lado direito. - Finalizou.
Assim foi feito, e ao puxarem a rede, que surpresa!   A rede veio abarrotada de peixes e entre eles um “grandão” veio junto. A alegria tomou conta geral. Novamente as redes foram lançadas e mais peixes foram apanhados.
Já amanhecia e enquanto preparavam o retorno a praia, Zé, meio sem jeito, pediu para que não comentassem sobre o episódio do pesadelo, afinal não ficava bem um pescador tão respeitado ter dado um vexame destes.
- Por que a preocupação, Zé? Mesmo que esta história escape, sem querer, nos botecos da vida, enquanto jogamos conversa fora, quem vai acreditar? Vão dizer que é história de pescador! – Falou Antonio, sorrindo e abraçando o irmão.



Otaviano Maciel de Alencar Filho

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