quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O ataque da perna cabeluda




As lendas urbanas não dão trégua e vez por outra elas ressurgem em locais e épocas diferentes. A lenda da Perna Cabeluda é originariamente pernambucana, dos anos 70. Porém ela ressurgiu em Fortaleza no final dos anos 80 e começo dos anos 90. A tal “perna cabeluda” causava grande alvoroço por onde passava. No município foi registrado casos nos bairros de Mondubim e José Walter.
Segundo os relatos ela perseguia as pessoas, assustando-as e provocando agressões contra suas vítimas.
Aproveitando a “onda”, uma dupla de vigaristas resolveu aprontar com os cidadãos. Confeccionaram uma vestimenta, que mais parecia um grande saco feito de um tecido escuro e felpudo com um furo no alto, para que pudessem olhar. Um dos pilantras ficava na cacunda do outro e se cobrindo com o “manto da assombração”, que em ambientes onde a luz fosse escassa ninguém duvidava que fosse algo do “outro mundo”, ou mesmo a tal “Perna cabeluda” e saíam pelos arredores pregando peça nas pessoas incautas, subtraindo-lhes os pertences.
Eis um desses surpreendentes relatos:
 Já passava das três horas da madrugada do domingo, quando Lúcia e Edineia, retornavam às suas residências, depois de terem passado a noite se divertindo no forró.
Enquanto caminhavam até o ponto de ônibus, onde aguardariam o coletivo que as levariam de volta a suas casas, iam conversando alegremente:
- Mulher, estou “morta” de cansada, aquele homem com o qual fiquei na noite de hoje só queria estar dançando. – Disse Lúcia, bocejando.
- Querias o quê mulher? O cara pagando tudo pra nós, Tu tinha mesmo era que dançar... e muito! O macho que eu arrumei era mais fraco que “caldo de pedra”, fumava tanto que parecia uma chaminé ambulante. O miserável mal pagou duas cervejas e já queria dar uma “saidinha”. Pode um negócio desses? Foi por esse motivo, que não quis sair com ele, mas por ele ser tão “pão duro”, que eu lhe dei um fora e fiquei com vocês na mesa. – Falou Edineia, dando uma risada extravagante.
- Edineia, passou ontem na televisão que um homem foi atacado pela Perna Cabeluda e o coitado foi parar no hospital depois de ter levado uma surra dela. – Comentou Lúcia.
- E tu acreditaste nessa conversa mulher? Isso é coisa de gente querendo amedrontar as pessoas. Isso é conversa de Trancoso! Perna cabeluda que eu conheço só a perna do Sandoval, o meu vizinho. O miserável tem as pernas tão finas e tão cabeludas que parece patas de caranguejo. - Tascou Edineia, dando nova gargalhada, jogando os cabelos para trás.
Quando transitavam em um estreito beco que dava acesso a avenida principal, local onde as amigas esperariam o coletivo que as levaria de volta as suas casas, de longe avistaram algo que lhes chamou a atenção. A pouca luminosidade do ambiente impedia que elas identificassem o que realmente era aquilo que se encontrava a aproximadamente cinquenta metros de distância do local em que elas se encontravam. A estranha figura foi se aproximando, enquanto as amigas, assustadas e com as pernas tremendo mais que “cipós de vara verde”, tentavam divisar o rosto do indivíduo que aparentava ter aproximadamente dois metros e meio de altura.
Quanto mais perto o indivíduo chegava, mais aterrorizadas as mulheres iam ficando. A distância foi diminuindo e a forma do ser foi se delineando, mostrando um corpo sem cabeça e sem membros superiores e todo peludo. Em uníssono som gritaram:
- É a Perna Cabeluda!
- E agora, meu Deus, o que vamos fazer? - Falou Lúcia, desesperada.
- Corre mulher, senão ela vai pegar a gente. - Gritou Edineia, apavorada!
- Tu disseste que não acreditavas que ela existia, mulher? – Acrescentou Lúcia.
- Mudei de ideia, cunhã. Se isso que está aí na nossa frente não for coisa do capeta, de Deus é que não é! – Falou Edineia aterrorizada.
As duas saíram em desesperada correria e a entidade seguiu atrás. Em determinado ponto do trajeto elas foram alcançadas pela estranha figura que lhes deu um pontapé nos traseiros, levando-as a caírem no chão, ficando desacordadas por pequeno lapso de tempo.
O sol já estava raiando quando as amigas retornaram à consciência e constataram que haviam tido suas bolsas roubadas. Logo surgiram alguns transeuntes que as ajudaram a levantarem-se do chão. Um senhor que passava por perto, vendo a situação das duas mulheres deu-lhes uns trocados para que elas pudessem pegar o coletivo até suas residências.






                                             Otaviano Maciel de Alencar filho
                           (Copyright© 2017 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

Arbítrio



Ah, o grito da liberdade!
O doce gosto do imprevisível engano;
Sobretudo a mais tenra lealdade
O sabor amargo do desengano;
O fruto proibido da insensatez: Humano!
Real leveza do ser em constante lapidação
Desfaz a tônica cartesiana em sólido persistir!
Jaz, sobre alicerces vivazes,
Em pleno vigor febril
Envolto em azáfamas sutis.
Sobriedade, alteridade!
Acima a lealdade!
Ser do Ser
Ainda assim poder!
Tamanha sapiência
Desdenha a ciência
Em tom de demência!




Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 2017 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Nós e a tecnologia

                                                        

Era um tempo em que o mundo tal qual o conhecemos hoje não existia. O ser humano sequer sonhava um dia poder andar em carros que não precisassem de tração animal.  Voar, só nos sonhos de alguns visionários.  Na mitologia grega Ícaro até tentou, mas Dédalo, seu pai, não dispondo de conhecimento e tecnologia necessária, que só surge com o avançar do tempo, após muitas lutas em busca da construção do conhecimento, concebeu e confeccionou dois pares de asas que foram feitas tão somente com penas de aves coladas com cera de abelha. Ícaro voou muito alto e o sol derreteu a cera fazendo com que ele despencasse lá do alto.
O mito de Ícaro tem sua importância simbólica na construção do conhecimento, na criatividade e no potencial humano.
 A referência ao mito de Ícaro é somente para entendermos que tudo o que temos hoje nos variados setores do conhecimento humano e em especial o das tecnologias, somente surgiu e surgirá com o avanço dos estudos das técnicas, de forma que em nada, mas em nada mesmo, o conhecimento da antiguidade se assemelhava ao conhecimento tecnológico que temos na atualidade.
Antigamente o homem comum olhava para o céu e, contemplando a imensidão do universo, regozijava-se de sua insignificância diante o espaço infinito! Porém, os mais audaciosos buscavam entender quais mecanismos eram responsáveis por tão bela e portentosa obra da natureza.
Os séculos foram escoando e o homem cada vez mais foi sentindo a necessidade da satisfação de seus desejos. Esses desejos e aspirações agiram e ainda agem como molas propulsoras na busca de inovações e novas formas de conhecimentos, para enfrentar as adversidades que o ser humano encontra em sua estadia no planeta.
Hoje em dia, modernos jatos cortam os ares ultrapassando em muito a velocidade do som. O homem já foi à lua e faz planos de em breve visitar o planeta Marte. O átomo, a unidade básica da matéria, que antes era tido como a menor partícula componente da matéria, e que não podia ser dividida, após o descobrimento dos estados quânticos, promovidos pela física, perdeu este status. Atualmente o mesmo pode ser dividido em algumas subpartículas!
Vivemos, na atualidade, a era da tecnologia!
Hoje, contando com as mais variadas técnicas digitais, vemos o avanço vertiginoso nos mais variados campos do conhecimento humano, em especial o da farmácia e da medicina, que trazem cada vez mais esperanças para a humanidade, aliviando as dores físicas dos indivíduos, fazendo uso de medicamentos cada vez mais eficazes e cirurgias reparadoras como transplantes de órgãos, que auxiliam a inserção do homem na sociedade ou simplesmente intervenções cirúrgicas que visam somente a estética, trazendo de volta a autoestima de milhões de pessoas que devido às más formações ou mesmo por se sentirem constrangidas por possuírem algo no corpo que as incomode, se isolam dos outros, vivendo na solidão.
Pode parecer paradoxal, mas a mesma tecnologia que traz tantos benefícios à humanidade é também a causadora de muitos sofrimentos enfrentados pelo homem na atualidade. A indústria química, que tanto ajuda na descoberta e na manipulação de novas substâncias e elementos químicos em favor da humanidade, também manuseia substâncias deletérias que são utilizadas nas “guerras químicas”, provocando o morticínio de milhões de pessoas no mundo inteiro, tudo isso devido à insensatez humana.
Os modernos artefatos computacionais, tais como os aparelhos de infravermelho, de ressonância magnética, tomografia, ultrassonografia, que auxiliam no diagnóstico de diversas doenças através das imagens produzidas, também são utilizados nas guerras como meios de localização e de destruição em massa de populações inteiras, que, indefesas, sofrem os ataques perpetrados por insanos tiranos que se arvoram em donos do mundo.
A era tecnológica em que vivemos aguarda ansiosamente o momento em que o ser humano se despida do orgulho e do egoísmo que insistem em fixarem moradia nos corações humanos, para que dessa forma, os avanços tecnológicos possam eficazmente promover uma nova era: Uma era de bem estar social onde as tecnologias já consagradas e as emergentes sejam utilizadas somente para o bem da humanidade.





                         Otaviano Maciel de Alencar Filho
           (Copyright© 2017 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O vendedor de sonhos


      
A carrocinha de lanches descia a rua quando, de longe, foi avistada por um pequeno guri aparentando ter uns oito anos de idade que, sentado na calçada em frente a sua casa já a aguardava ansiosamente. Não esperou que ela chegasse até onde ele estava e imediatamente correu até o vendedor. O garoto, que já levava algumas moedas, foi logo inquerindo:
- O senhor tem bolo de batata?
O vendedor era um senhor já idoso marcado pelas rugas que o tempo não tardou em lhe perdoar. Em sua mansidão característica, retrucou:
- Não, meu bom menino, hoje não trago bolos. Trago algo muito especial: sonhos recheados com doce de leite. – Respondeu o ancião.
O pequeno não entendendo o que o velho dizia, pois não conhecia esta guloseima, tornou a perguntar-lhe:
- O senhor tem bolo fofo? – Insistiu.
O homem percebeu que o garotinho não tinha escutado sua resposta e aparentava não saber o que era um sonho, então disse:
- Não, meu filho, não estou vendendo bolo de nenhuma qualidade. Estou vendendo apenas sonhos e lhe digo que são muito saborosos. Tomando um em suas mãos mostrou-o ao garoto, que ficou perplexo quando viu aquele pãozinho recheado de doce de leite e coberto de açúcar branquinho como a neve.
- Ah, então o nome disso é sonho? – Perguntou.
- Sim, você nunca provou de um sonho? - Interrogou o vendedor ao menino que não tirava os olhos da carrocinha lotada de sonhos. Talvez, sonhando em saboreá-los!
- Não, senhor. Pensei que sonho era aquilo que a gente tem quando deita dorme e fica vendo coisas passarem na nossa cabeça. – Disse o moleque em sua simplicidade!
 O senhor coçou a cabeça e, balançando-a, deu leve sorriso admirando a ingenuidade do pequenino. Observando que as moedas que ele portava não eram suficientes para comprar o doce, asseverou:
- Sei que você está “doidinho” para provar do sonho, mas seu dinheiro não dá para comprá-lo, então vou fazer o seguinte com você: Vou dá-lo de presente, guarde suas moedas e junte com mais outras para que quando eu passar outro dia com os bolos você possa usá-las, tudo bem?
- O senhor está dizendo que vai me dar de graça este sonho? Inqueriu o pivete, saltitante de alegria.
- Claro, é todo seu. Sonho que é sonho não se vende, não é mesmo? –Respondeu, jubilosamente.
O vendedor então embrulhou o sonho e entregou ao menino, e abaixando-se e tocando em seus pequeninos ombros, falou-lhe, olhando nos olhinhos redondos e amendoados, antes que ele retornasse à sua casa, o seguinte:
- Hoje é o dia de meu aniversário, então resolvi vender sonhos, porque além se serem saborosos seus nomes simbolizam o que há de melhor no ser humano, que é a capacidade de acreditar que um dia nossos sonhos possam se tornar realidade, mesmo diante as adversidades que a vida nos contempla. Já tive muitos sonhos, alguns se realizaram outros nem tanto, contudo não perdi as esperanças de que a qualquer momento eles possam se tornar realidade. Para falar a verdade, ainda tenho sonhos! Espero que seja um eterno sonhador, mas antes de tudo, que seja, no futuro que o aguarda, um homem de bem e que trabalhe muito para que seus sonhos se tornem realidade. Esse é o meu sincero desejo. – Sentenciou.
Estava tão absorto em seus pensamentos que sequer se deu conta de que o menino não estava entendendo nada do que ele estava falando. Quando percebeu que o pequeno fitava-lhe os olhos, sem saber o que falar, encerrou a conversa, dispensando-o.

O menino saiu alegre e saltitante, saboreando o sonho, enquanto o vendedor de guloseimas continuava o seu trajeto, na labuta diária e levando consigo seus sonhos.



                                                 Otaviano Maciel de Alencar Filho
                                  (Copyright© 2017 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Cadê a água do açude?

O período chuvoso que, desde o começo do ano, banha boa parte do território cearense está levando as pessoas a reavivarem as esperanças de que a seca que dura mais de cinco anos terá seu fim. Embora as precipitações pluviométricas não estejam bem distribuídas, pois as regiões centro e sul estão recebendo menos chuvas que as do setentrião do estado, a média histórica de precipitação já ultrapassou a do mesmo período do ano passado. Mesmo diante dessa situação o governo do estado não descarta a possibilidade de ser decretada situação de emergência em alguns municípios. 
Enquanto as águas do “Velho Chico” não chegam, trazendo com elas as esperanças de dias melhores o jeito mesmo é ir se virando com a ajuda de Deus. E queira Deus que quando elas chegarem seja para benefício da população mais carente e não apenas para o abastecimento do parque industrial de  agronegócios de grande porte que se instalarão na região. Por enquanto a população continua a contar com a ajuda vinda dos céus, de vez que a ajuda que deveria vir do estado não se faz presente através dos órgãos governamentais, que se eximem das responsabilidades a eles incumbidas. Todo ano a história se repete e dessa vez não está sendo diferente. Poucos são os investimentos feitos para que o sertanejo não venha a depender tão somente dos fenômenos naturais. 
Alguns açudes situados em regiões onde as chuvas caem em grande quantidade estão “sangrando”, deixando as águas vazarem por sobre as barragens construídas para a contenção do líquido precioso e raro, gerando um grande espetáculo visual além de proporcionar momentos de lazer àqueles que afluem ao local para tomarem banho. 
Como é bonito ver no semblante de um povo marcado pelo sofrimento, o sorriso estampado em suas faces enrugadas pela exposição de anos sob a ação causticante de um sol abrasador, a alegria de ter “ajuntado” uma boa quantidade de água nas cisternas construídas para a captação das águas que caem nos telhados das casas e vão através de calhas encherem os respectivos reservatórios! 
Um fato inusitado chamou a atenção de moradores da pequena cidade de Baturité, situada a aproximadamente 100 quilômetros de Fortaleza: o açude Tijuquinha, que ficou completamente cheio com as chuvas que caíram na região, inexplicavelmente, de um dia para o outro amanheceu quase que totalmente vazio. Os moradores mais próximos do açude estranharam o ocorrido e rapidamente a notícia se espalhou por toda a cidade causando as mais variadas especulações acerca do acontecimento.
Não demorou muito e a explicação veio através da companhia responsável pela gestão dos recursos hídricos do Ceará, COGERH, que informou através de nota à imprensa que teve de realizar uma operação de desassoreamento do açude, ou seja, liberou a descarga da água para que houvesse uma melhoria em sua qualidade, de vez que a mesma estava lamacenta e inapropriada ao uso e consumo. A nota também esclareceu que o açude acumula água todos os anos, independentemente de se ter ou não uma estação chuvosa rigorosa, e como não havia sido feito o desabastecimento do mesmo nos anos anteriores a lama foi se acumulando no fundo e agora era o momento ideal para se proceder com a limpeza através do desassoreamento, já que com máquinas não era possível, pois elas atolariam devido ao grande acúmulo de lama. Ainda segundo o órgão, o açude já esta recebendo recarga de água proveniente das chuvas que continuam caindo na localidade. Com relação ao possível desperdício da água a empresa informou que quando é feito o desassoreamento, a água desce pelo rio de mesmo nome do açude até se encontrar com o rio Aracoiaba. Os sedimentos vão decantando pelo trajeto feito no fluxo do rio. Finalmente chegando limpa no açude Aracoiaba, situado no município vizinho, também de nome Aracoiaba. 
Eu, particularmente, há algum tempo atrás, provavelmente atribuiria o fato a intervenção de ET’s em busca do líquido precioso a manutenção da vida em seus respectivos planetas. Mas hoje os tempos são outros e a superstição não tem mais guarida em meu ser. Ademais, o que iriam fazer os supostos ET’s com uma água suja, contaminada por vários materiais? Seria mais razoável imaginá-los captando água em uma dessas indústrias de extração de águas minerais, não? 
Xô superstição!





                                                   Otaviano Maciel de Alencar Filho
                                       (Copyright© 2017 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A justiça e os pecados capitais






O dia aprazado para a apresentação dos réus à justiça havia chegado.
Um por um, aos poucos, os réus foram adentrando o grande salão do tribunal onde seria realizada a audiência de julgamento. O público que assistia à sessão, desde cedo, aguardava a presença de todos os envolvidos no processo em andamento há quase um milênio.
Os sete acusados sentaram-se em assentos situados no centro do grande salão reservados especialmente para esse momento especial. Em um dos lados do compartimento encontrava-se o promotor de justiça e no lado oposto o advogado de defesa. Também, no centro do recinto, um pouco mais adiante dos infelizes acusados, estava aquele que daria a sentença final, condenando-os ou absolvendo-os.
O Grande Juiz, tomando a palavra, dirigiu-se a todos os presentes, exclamando:
- Este é o grande dia, o dia em que será decido o futuro de todas as criaturas do mundo, portanto espero que acusação e defesa se pautem dentro dos princípios de harmonia e valores éticos impressos em suas consciências, respeitando-se mutuamente e igualmente os que aqui se encontram na condição de denunciados como tendo cometidos delitos tidos de alta relevância contra os costumes e a moral.
Instantes depois das considerações preliminares deu-se início os trabalhos, com a palavra sendo dada ao promotor de justiça, que apresentou formalmente os acusados:
- Excelência, esses que aqui se encontram: A gula, a avareza, a luxúria, a preguiça, a inveja, a ira e a soberba desde tempos remotos perturbam a ordem e a moral, conduzindo a humanidade para situações degradantes, levando muitos daqueles que sucumbem às suas investidas a perda da salvação eterna.
A defesa pediu a palavra e asseverou:
- Excelentíssimo juiz, a acusação desconhece ou furta-se ao conhecimento da natureza humana que se fundamenta na experimentação para a busca do conhecimento. Portanto, embora verossímil, carece de fundamentação jurídica os argumentos elencados nos autos do processo em favor da condenação dos acusados, de vez que a natureza e condições humanas e seus desdobramentos são fatos e não meras especulações filosóficas, ademais, onde a linha divisória entre vícios e virtudes? Acusam estes sete que aqui se encontram de subverterem a ordem e a natureza do homem. Pautam-se em classificação meramente humanas e controversas, na busca de justiça. Dizem estarem eles classificados na ordem dos “pecados capitais” e, portanto, passíveis do sacramento da confissão, para serem eles perdoados pelos apelos ignóbeis ofertados à humanidade. Estes, acreditando estarem agindo segundo as conveniências humanas, e respeitando o direito à liberdade de escolhas não se veem como criminosos e negam-se a prestarem a confissão. Se, agindo de maneira “apaixonada”, a acusação procura estabelecer a ordem das coisas, por que os “pecados veniais” não são tão rigorosamente punidos, de vez que eles são os embriões dos ditos “pecados capitais”? Lembro, mais uma vez, que meus clientes não são da classificação “pecados mortais”. Insisto novamente em perguntar: onde se encontra a linha divisória entre os três tipos de vícios? Quem o culpado no caso do homem queimar-se no fogo? O fogo que não pensa, não tem vida própria ou o homem que age de forma insensata desdenhando o poder do fogo em ferir sua pele ou mesmo leva-lo a morte? Deve-se banir o fogo da existência humana?
Defesa e acusação travaram intenso debate por mais de setenta e duas horas até que o magistrado Maior pudesse se certificar da decisão a ser tomada. Embora já soubesse de antemão o desdobrar do julgamento do certame a decisão final refletiria, sobretudo, a justiça capital.
Tomando a palavra, o Supremo Juiz fez alguns esclarecimentos oportunos e sentenciou:
- Após analisar as argumentações e as provas apresentadas nos autos processuais devo tornar público a decisão tomada: Declaro que mesmo sendo dada a palavra para defesa os réus abdicaram da mesma, justificando estarem sendo representados no tribunal. Declaro, ainda, infundadas as argumentações que tornam culpados os réus, porém a não culpabilidade dos acusados não está completamente descartada. Sendo assim atrelo a punição dos réus à condição de condenação daqueles que se conluiarem com os mesmos na prática de atos contrários à dignidade humana. Esta sentença terá a validade de mil anos a partir da data de hoje. Tempo que julgo necessário para que o homem compreenda que ele é o artífice de sua felicidade ou infelicidade.
Bateu o martelo e deu por encerrada a sessão e consequentemente o julgamento!




                          Otaviano Maciel de Alencar Filho
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Sobretudo a mais tenra lealdade
O sabor amargo do desengano;
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Desfaz a tônica cartesiana em sólido persistir!
Jaz, sobre alicerces vivazes,
Em pleno vigor febril
Envolto em azáfamas sutis.

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Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 201 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

Mentiras e mais mentiras

                                         Atualmente vemos ordinariamente na imprensa escrita assim como nas mídias digitais, infor...