quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O verdadeiro amor


O dia amanhecera, e com ele, os primeiros raios de sol começavam a banhar de luz a capital “Alencarina”, terra da luz, terra do sol, que começava a despertar de uma noite cheia de “agito”, característico das grandes cidades. O vai e vem das pessoas, que no início do dia é compassado, aos poucos dava lugar à agitação comum às grandes metrópoles. A Praça do Ferreira, local turístico muito frequentado por visitantes de outros estados, além é claro, do povo cearense, situada no coração da cidade, aos poucos se apinhava de pessoas. Os bancos do logradouro logo lotavam, e se falassem, denunciariam as confissões, os segredos ou mesmo os impropérios ditados aos jogadores e seus respectivos times de futebol.
Em um banco mais afastado do centro da praça, encolhido e mergulhado em íntimas conversações, um jovem aparentando vinte anos de idade, não chamava a atenção dos passantes e sua presença seria ignorada não fosse a atenção dispensada por um velhinho, que se aproximando, procurou entreter diálogo com o mesmo.
- Notei que está muito pensativo, observo-o há alguns minutos e posso ver a tristeza em seu semblante, talvez queira conversar um pouco com um velho já mais experiente na vida. – Disse o senhor puxando conversa.
- Não, o senhor não pode me ajudar, sinto muito, agradeço o interesse, mas ninguém poderá prestar-me auxílio.
O velho insistiu na conversa.
- Talvez você esteja errado, é sempre de bom alvitre dar atenção às experiências narradas pelos mais velhos.
O rapaz decidiu então abrir seu coração ao bondoso ancião.
- Sinto a falta de minha noiva, que repentinamente decidiu viajar para o exterior, em busca de “subir na vida”, como ela mesma dizia, já que é modelo fotográfico. Mesmo jurando fidelidade e que voltaria para meus braços, sinto-me desolado. Ela não poderia fazer isto comigo. Eu que, desde o início de nosso namoro, dediquei minha vida para ela e nossos sonhos de uma vida a dois?!
- Sinto muito meu jovem, não obstante, sei o que é um coração dilacerado pela ausência de quem amamos, junto de nós. Explicarei melhor: Quando tinha aproximadamente a sua idade, fiquei loucamente apaixonado por bela moça, no entanto ela não dava a mínima para os meus sentimentos, pois eu era de uma família pouco abastada, e ela de uma família da alta sociedade. Enlouqueci, quando soube que casaria com um de meus amigos. Fato que se consumou! Desde então, não deixei mais de atormentá-los. Mandava-lhe bilhetes, solicitando encontros ilícitos que, naturalmente, eram rejeitados por ela, deixando-me ainda mais furioso. Sua vida virou um inferno. Seu esposo dizia que tudo era culpa dela, pois se ela quisesse colocaria um fim nessa situação. Não demorou muito e o casamento desmoronou. Fiquei feliz com o acontecido, acreditando que a mulher dos meus sonhos, agora, seria presa fácil das minhas novas investidas de Don Juan. Porém as coisas não sucederam como eu desejava. Minha bela amada adoeceu com a separação e entrou em profundo ostracismo, não se relacionando com ninguém, caindo em severa depressão, isolando-se do mundo, inclusive tentando o suicídio. Foi somente então que vi o quanto eu estava errado em querer tê-la para mim. Não suportando vê-la neste estado deplorável, resolvi deixar de lado todo o meu orgulho e egoísmo insano e passei então a tentar a aproximação dela e de seu ex-marido, o que consegui depois de algum tempo. Após vários encontros com o meu antigo rival e desafeto, mostrei-lhe o meu arrependimento e pedi-lhe perdão por meus desatinos. Os dois reataram e passaram a viver uma vida próspera e cheia de felicidades. Depois desapareci de suas vidas e fui buscar minha felicidade junto à outra pessoa que realmente me amasse. Hoje, já quase no final de minha vida, compreendo que amor é muito mais que paixão, desejo ou algo que o valha. Por isso, meu jovem, não sofra nem a faça sofrer, impedindo-a de seguir sua vida. Se a moça tiver de ser sua companheira de jornada terrena, ela certamente será! Não amargue um futuro cheio de remorsos por não ter proporcionado a felicidade de alguém, em detrimento de um sentimento egoísta desvairado!
O rapaz agradeceu as palavras de estímulos e despediu-se, deixando a praça.
Passados seis meses após o ocorrido, a jovem retorna do exterior, após ter assinado contrato de trabalho com uma grande grife de confecções, para a divulgação da marca, aqui no Brasil. agradece ao noivo sua compreensão quanto a sua ausência nos últimos meses, firmando compromisso de que de agora em diante os dois ficariam juntos, para sempre, pois ela o amava bastante!



                                       Otaviano Maciel de Alencar Filho

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A seca e a escassez de educação



A seca que insiste em castigar incessantemente o sertão cearense não dá trégua. O semblante do trabalhador rural denuncia o sofrimento ocasionado pela escassez do elemento primordial à vida: A água! Não resta outra opção a não ser apelar aos céus na esperança de dias melhores. O santo padroeiro do estado do Ceará, São José, a cada ano passa a ter mais devotos que suplicam, em preces, sua interseção junto ao Pai Maior em favor de uma causa nobre, que é a solução do problema da escassez de chuvas no interior do estado. Enquanto a resposta do Alto não vem, o poder público, no seu eterno faz de contas, acredita minimizar esse tormento aplicando medidas paliativas, que a rigor em nada satisfaz a necessidade da população interiorana. A solução imediatista é o emprego dos chamados carros pipas, que levam água àquelas cidades mais afetadas pela prolongada estiagem. Porém, isso só não é suficiente, aliás, não é o bastante, uma vez que o consumo de água não é somente para saciar a sede abrasadora que desnutre e definha o corpo do já calejado sertanejo. O líquido precioso também é usado para cozinhar, lavar as roupas e os utensílios do lar, além do banho.
A obstinação em não se aplicar políticas públicas que atendam a necessidade do povo, é resultado de anos e anos de mandos e desmandos, herdados da época do “coronelismo”, quando em busca de votos, em épocas de eleição, as promessas milagrosas de solucionar as dificuldades do “rebanho eleitoreiro” eram postas em pautas e dadas como solução iminente. As coisas não mudaram muito até os dias de hoje. Apesar de o cenário político-social ter avançado em alguns setores, faz-se ressentir de ações voltadas para liquidar de vez a problemática do abastecimento de água nos lugares mais distantes das sedes dos governos. Será que se a capital do Ceará estivesse localizada, por exemplo, no município de Salitre, haveria falta de água?!
A perfuração de poços artesianos nas regiões atingidas pela estiagem, tem sido alternativa na busca de solucionar o problema, enquanto são cogitadas outras formas de atuação ostensiva, como a transposição de águas de rios perenes como o São Francisco, por exemplo. A dificuldade maior é que a água obtida nos poços é salobra, ou seja, a taxa de salinidade é alta. Isso faz com que esses projetos, segundo os órgãos responsáveis, não sejam viáveis em algumas localidades.
Enquanto isso o povo aguarda a resposta do Alto, olhando para o céu, na esperança de surgirem nuvens carregadas de água, própria para o consumo.
Alguns habitantes dessas regiões, ignorando as técnicas e recursos existentes na atualidade, no que diz respeito ao tratamento desse tipo de água, desabafam:
- Não adianta perfurar um poço aqui, pois a água não presta, é salobra!
Outros asseveram:
- Se o caminhão pipa viesse mais vezes, seria bom! É preferível andar umas léguas a mais a ter que utilizar essa água!
Esse é o tipo de discurso que qualquer candidato, sem escrúpulos, a uma vaga no poder público almeja escutar.
Não se pode cobrar muito de quem já sofreu o bastante em sua romagem terrena!
No entanto, basta lembrarmo-nos que em Israel, onde as condições climáticas são ainda mais críticas que as do nordeste do Brasil, o problema de abastecimento de água foi resolvido. E, diga-se de passagem, é modelo de gestão de recursos hídricos para o mundo. No território israelense foi construída a maior usina de dessalinização por osmose reversa do mundo. A água proveniente do mar mediterrâneo é então tornada potável e distribuída à população!
Os gestores públicos, em especial os vereadores, pessoas como nós, que alcançaram o status e a posição privilegiada em que se encontram graças a nossa confiança depositada neles através do voto, têm o dever de honrar com as suas devidas atribuições, tais como: Lutar pela construção e funcionamento de escolas, instalação de energia elétrica, pavimentação de vias públicas urbanas, perfuração e funcionamento de poços tubulares, abastecimento de água, etc...
Lembrando das palavras do Cristo, o sertanejo religioso comenta em tom baixinho com o turista, que se encontra ao seu lado, enquanto oram, na igreja:
- Amigo, Jesus disse: "pedis e obtereis". Tenho fé que dias melhores virão!
O visitante, reticente, disse:
- Não basta ter fé, também é importante instruir-se. O maior pecado é a ignorância e o seu maior castigo é o sofrimento!
O sertanejo olhou meio desconfiado. Em sua humilde condição de iletrado, mas não de burro, entendeu o que o visitante quis dizer, e, olhando nos olhos dele, tascou: Daqui em diante ninguém me põe mais cabresto!



                                               Otaviano Maciel de Alencar Filho




segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A senhora e o moço



Vida difícil a de quem tem que pegar transporte coletivo todos os dias para ir trabalhar. Será que alguém ainda tem dúvidas a respeito dessa afirmativa? Acredito que não! Mesmo assim, deixo margem a quem quer que queira para discordar do que acabo de afirmar. Sou catedrático nesse assunto. Espere um momento! Acho que falei o que não devia, ou melhor, escrevi o que não queria. Não, pensando bem fui um tanto egoísta quando afirmei ser um ‘catedrático no assunto’, dando a interpretações diversas o que acabei de afirmar. Afinal de contas, somos, nós, milhões de brasileiros, usuários do sistema de transportes coletivos urbanos, seja ele público ou de concessão à iniciativa privada, experientes nesse setor, quando o assunto é a dificuldade de se tomar um ônibus, um trem, uma van, uma topic, etc. Filas enormes nos terminais de integração . Isso sem falar na volta para casa depois de um dia de trabalho estafante.
Ônibus lotado. Sequer dava para respirar!
De pé, logo ali, um pouco afastado do assento do motorista, eu me encontrava nessa situação. O vai e vem do coletivo, causado pelas freadas bruscas efetuadas pelo condutor do veículo, dava a impressão que estávamos nós, passageiros, todos em um desses brinquedos que a gente encontra nos parques de diversões. Sentados na cadeira ao meu lado, se encontravam dois jovens rapazes, aparentando uns vinte e poucos anos de idade. Ao meu lado, também em pé, estava uma senhora, que pela aparência física denotava ser uma pessoa de idade avançada. Muito natural, portanto, que um dos rapazes oferecesse o lugar para a distinta senhora se acomodar e sair do aperto em que se encontrava. E foi o que aconteceu.
Não imaginava, porém, que a partir daquele momento fosse ser travado um diálogo dos mais inusitados já presenciados por mim, dentro de um coletivo. Já acomodada na cadeira, a senhora sentiu-se mais aliviada. O jovem sentado à seu lado, deixando transparecer que estava sentindo um odor nada agradável, fazia gestos para o colega que agora estava de pé. A senhora percebera que a atitude tomada pelo mesmo, tinha algo a ver com ela. No entanto, o moço não contendo a insatisfação de ter que suportar algo tão desagradável, desabafou:
- Não é possível que as pessoas não tomem um banho antes de adentrarem em um coletivo para voltarem as suas casas. Deveriam no mínimo usarem esses desodorantes de rolo! São tão baratos!
Falando, desse modo, se eximia da responsabilidade de estar direcionando sua insatisfação à senhora, e sua queixa, dessa forma, seria direcionada a qualquer um que se visse incomodado com seus reclames. Contudo, a senhora notara a malícia contida nas entrelinhas de seus queixumes.
- Tem gente que sequer ganha o suficiente para se alimentar, – Disse ela, tentando por um fim na conversa. Não suspeitava ela, que o embate apenas começara.
Não tem jeito mesmo, quando se trava uma discussão, cada parte envolvida não mede esforços na tentativa de provar que está com a razão. E eu, no meu lugar, sem levantar um pé, para não correr o risco de quando quiser colocá-lo no local novamente, pisar em cima de outro, já colocado no lugar em que o meu estava anteriormente!
O moço, agora, já não podia mais esconder que estava se referindo a ela, e disse:
- Por menor que seja o salário recebido por alguém, é inadmissível que não se possa comprar um rolinho de desodorante!
- A culpa é do governo que determina uma miséria de "salário mínimo" a ser pago ao trabalhador... Mesmo assim, um mal cheiro a mais ou a menos não faz diferença para quem não tem condições de comprar nem o que comer. – Desabafou a senhora.
- Então, a senhora não gosta do que faz?
- Não considero justo o quanto ganho. Acho injusto passar o dia inteirinho dando de tudo, para no final do mês receber uma miséria de salário.
- A senhora acredita em Deus?
- Claro!
- Então! E na Bíblia?
- Não do jeito que muitos creem! O que a bíblia tem a ver com isto?!
- Ué, nos ensina a suportar as dificuldades que a vida nos impõe. A Bíblia é a palavra de Deus!
- Como crer integralmente em algo que foi escrito por mãos humanas, que não raro sofreu intervenção por parte de quem escreveu algumas de suas passagens. É verdade que eu creio em Deus, e que na Bíblia existem muitas verdades e virtudes, isso é o que me interessa. Do que adianta andar com o livro sagrado debaixo do sovaco e não ser solidário para com o próximo?
- Mas quem faz isso prestará contas com Deus no dia do juízo final! – Insistiu o rapaz!
O diálogo foi, cada vez mais, ficando acalorado, e confesso, estranhei que com tanta gente dentro do coletivo ninguém interviesse no assunto.
E onde foi parar a celeuma em torno do mau cheiro?
Sinceramente, não sei, pois o ponto em que devia descer já estava próximo, e fui me adiantando até a porta de descida do ônibus. Desci. Dei graças a Deus! Só posso dizer que desse acontecimento tirei mais uma lição de vida: Não podemos forçar ninguém a mudar de comportamento e muito menos aceitar nosso ponto de vista acerca do que temos como verdadeiro. Só o tempo dirá se estamos ou não com a razão.



                                              Otaviano Maciel de Alencar Filho

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Amor... eterno amor!






Valter e Jane formavam um casal que poderíamos designar de “perfeito”. A identidade de gostos e o respeito mútuo que havia entre os dois não permitiam especulações daninhas por parte de pessoas inescrupulosas que vivem falando mal da vida alheia. A união matrimonial, que chegara às bodas de ouro, reforçava cada vez mais o comprometimento assumido décadas atrás. Cinco décadas de dedicação e renúncia de ambas as partes indicavam que o caminho a ser trilhado por todos os casais que almejam um relacionamento tranquilo e sem dissabores, é árduo. O amor existente entre os dois não se ressentia do ciúme doentio, que avassala grande parte dos corações enamorados. A cumplicidade afetiva tornava-os “um só”.
Certo dia, demonstrando forte emoção, Jane dirigiu a Valter palavras que carreavam profundo sentimento de amor e renúncia:
- Querido, já faz cinquenta anos que estamos casados e não somos mais aqueles jovens de outrora, cheios de vivacidade, daqui a alguns anos, mais cedo ou mais tarde deixaremos o nosso mútuo convívio, indo habitar outros planos existenciais, e se existe oportunidade de vivenciarmos novamente a experiência em novo corpo, após esta existência, tal qual apregoa as doutrinas reencarnacionistas, rogarei a Deus a oportunidade de estar novamente ao seu lado.
Dos olhos de Valter, lágrimas foram vertidas e rolaram sobre a face marcada pelas rugas adquiridas pelo tempo, ao mesmo tempo em que agindo tal qual criança balbuciava palavras trêmulas, manifestando o seu temor por revelação tão inusitada.
- Suas palavras estão me deixando preocupado, por que essa conversa tão repentina?- Indagou.
Neste instante os olhos de Jane marejaram, e com embargo na voz, acentuou:
- Meu amado, devemos estar preparados para tudo nesta vida, não sei como explicar, contudo o amor que nos une não me permite deixar de agir com sinceridade para contigo. Faz algumas semanas que me sinto estranha, como se aos poucos minha vitalidade estivesse esvaindo-se.
- Não fale assim, Jane. Você está muito cansada. Vá deitar um pouco e quando acordar iremos passear no bosque, à tardinha! – Disse ele, beijando-lhe a fronte.
Passadas algumas horas, Valter dirigiu-se ao quarto e se deparou com um quadro estarrecedor: Sua amada encontra-se inerte sob os lençóis. Desesperado, tenta reanimá-la. Foram inúteis as tentativas. Neste momento chega Dona Anália, vizinha e amiga do casal, fazendo esforço para acalmar o cônjuge inconformado. Os filhos foram avisados do acontecimento trágico e tomaram as providências necessárias. Nada mais podia ser feito a não ser levar a vida adiante. Valter aceitou o convite de sua filha e foi morar com ela, o genro e dois netos.
A vida estava retornando à normalidade, quando outro episódio trágico assolou a família: Valter sofreu um infarto do miocárdio, e não resistindo, veio a falecer numa manhã de primavera.
No início dos anos oitenta, em um baile comemorativo de conclusão de curso universitário, dois jovens, amigos de infância, entabulam conversa animada:
- Eduardo, meu amigo, como está a vida afetiva, já se amarrou” em alguém?
- Que conversa é essa Guilherme, esse negócio não é pra mim. Ainda não encontrei a minha outra metade! Sabe, né?!
Nesse ínterim, uma bela moça se aproxima dos dois, era Renata, uma garota que estava “ficando” com Guilherme, e abraçando-o, exclama:
- Que bela amizade existe entre vocês, sempre que os vejo estão juntos, sinto até inveja, afinal o Dudu passa mais tempo com você, que você comigo! – Falou, soltando um sorriso maroto.
- Não precisa ficar com ciúmes Renata, afinal, nós três somos amigos desde a infância. - Retrucou Eduardo.
- Humm! Tomara!
A verdade é que Renata sabia da preferência sexual de Eduardo por companhia do mesmo sexo, e isso às vezes a incomodava, mesmo sabendo que Guilherme não compartilhava da opção sexual de seu amigo. Mas Eduardo não dava trégua, estava sempre presente no lugar em que ela e Guilherme estivessem.
O relacionamento de amizade entre os dois vinha desde a infância, quando a família de Guilherme foi morar em uma casa próximo a de Eduardo. Desde a infância Eduardo demonstrava aptidão aos afazeres direcionados preferencialmente ao sexo feminino, o que foi se acentuando na adolescência, chegando à juventude. Esse modo de viver de Eduardo nunca o incomodou. O que Guilherme apreciava no amigo, era exatamente o respeito dispensado por ele. Nunca, em algum momento, ele se insinuou, faltando-lhe com o devido respeito. Eduardo, porém, sofria muito, pois ele sentia pelo amigo mais que uma simples amizade, contudo guardaria consigo todo este sentimento atroz.
No Final do ano de 1982 Eduardo sofreu um acidente automobilístico e ficou meses em coma, em um leito de hospital. Guilherme e Renata passaram a fazer vigílias no hospital, acompanhando o amigo. Já fazia seis meses e duas semanas e nada de Eduardo dar sinais de saída do estado de inércia, quando, de súbito, ele começou a falar com muita dificuldade frases desconexas:
- Valter, meu amor onde está você. Procuro-o e não o vejo. Sinto você perto de mim, mas onde?
- Eduardo, pode ouvir-me? – Perguntou Guilherme.
- Não me chamo Eduardo, sou Jane e onde está Valter?
Os dois entreolharam-se, sem entenderem o que se passava. Chamaram o médico de plantão e relataram o acontecido. O profissional tranquilizou-os, afirmando que os pacientes que se encontram neste estado têm alucinações, pois o cérebro está em total desarranjo.
- Entretanto, o mais importante é que o paciente está dando sinais de recuperação! – Acentuou o médico.
Passados dois meses depois deste acontecimento, Eduardo já se encontrava em seu apartamento, em pleno restabelecimento de sua saúde.
No final dos anos oitenta Guilherme e Renata contraíram matrimônio. Eduardo e Márcia, amiga do casal, foram os padrinhos de casamento.
Eduardo continua solteiro. A amizade com Guilherme e Renata ficou ainda mais sólida. Com certeza eles formam uma verdadeira família, com sentimentos baseados na lei de amor, fraternidade e solidariedade!




                           
                                            Otaviano Maciel de Alencar Filho
                           (Copyright© 2012 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

Mentiras e mais mentiras

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