sábado, 30 de junho de 2012

A menina e a lagarta


O outono chegara, e com ele o espetacular fenômeno inerente a essa estação do ano: a queda das folhas das árvores, que, sem suficiência de nutrientes ficam amareladas e caem no chão, deixando-o com o aspecto de um imenso tapete de cor amarelo queimado. O clima mais ameno permitia às pessoas caminharem nos bosques sem se preocuparem com a exsudação excessiva, que caracteriza as caminhadas efetuadas no verão.
Em um bosque situado nos arredores de pequena cidade interiorana, situada em terreno de várzea, encontramos Victória, uma menininha de sete anos de idade, acompanhada pelos pais. Tinha cabelos longos, encaracolados da cor de mel. A Vivacidade e ternura eram visíveis, e se estampavam em seu lindo e meigo rostinho.
Caminhavam alegremente entre árvores e arbustos, quando algo na vegetação chamou a atenção da guria: 
- Papai, olhe que linda lagarta! Posso levá-la para casa?
O pai da garotinha, responde:
- Meu anjo, ela realmente é de uma beleza indescritível, contudo, observe esses minúsculos espinhos que a envolvem. São mecanismos de defesa que ela utiliza para se defender, quando querem apanhá-la. Eles segregam uma substância nociva, que em contato com o corpo de outros animais causa irritação, podendo em alguns casos levar o predador à morte. Nos seres humanos causa irritações e o local fica bastante dolorido! Sabia que seu apelido é “lagarta de fogo”?
- Puxa vida, papai, mesmo assim eu gostaria de criá-la como se fosse meu animalzinho de estimação. Prometo não tocá-la, ficarei observando ela de longe, no nosso jardim!
- Filhinha, não podemos levá-la, pois seu lar é este bosque, se a retirarmos do seu habitat, certamente ela morrerá!
A pequena Victória, constrangida, esboçou carinha de choro. O papai coruja olha para sua companheira, que agora abraça a filhinha em prantos. Buscando mentalmente uma solução para o episódio, abraça ambas. Passados alguns instantes, após tentativas infrutíferas de consolo, uma idéia saltou em sua mente:
- Olhe, Vivi, façamos o seguinte: todas as manhãs viremos até aqui, visitar a “Dona lagartinha”. Você concorda? – Perguntou, acariciando a bela cabeleira da pequerrucha! 
- Sim papai, amanhã cedinho vamos trazer um lanchinho para ela, está certo? – Inquiriu a pequena mocinha em sua infantil ingenuidade!
- Certíssimo, agora vamos indo que já está quase na hora do almoço e você tem escola à tarde.
Os três deixaram o bosque e voltaram para casa.
Nos dias seguintes, como combinado, todas as manhãs tinham encontro marcado com pequena taturana.
Passaram se duas semanas, e certo dia, quando chegaram ao local em que a lagarta costumava ficar, não a encontraram. A garotinha procurou-a nos arredores e não a encontrando, ficou desapontada. Seus olhinhos, já marejando, buscaram consolo nas assertivas do pai, que de pronto explicou o motivo de ela não se encontrar no local onde habitualmente ficava.
Apontando em direção ao pequeno arbusto falou:
- Observe isto dependurado no galho deste pezinho de limão. Trata-se de um casulo. 
Continuando as elucidações, enquanto Victória ouvia com atenção suas sábias palavras, arrematou:
- Depois de algum tempo as larvas (lagartas) produzem fios de seda, que elas utilizarão na confecção do casulo em que ficarão dentro dele, até que seja chegado o momento da total transformação em borboletas! A isso chamamos de metamorfose!
Sem deixar que o pai termine as explicações, ela observa:
- Mas o casulo está sem nada dentro, cadê a borboletinha? Será que algum besouro comeu a “bichinha”?
- Não, Victória, o mais provável é que ela tenha voado para bem longe daqui.
- Mas eu quero minha borboletinha, não saio daqui sem ver minha amiguinha. - Retrucou a menininha!
- Sinto muito, meu amor, mas temos que ir. 
Tomando a mão da pequenina, retirou-a do local em que se encontravam, indo em direção a saída da mata.
A mocinha, desolada, desabou em lamentações. Repentinamente algo de inusitado aconteceu: Uma linda borboleta multicolorida ficou sobrevoando em seu redor e depois foi pousar em seu ombro direito.
Imediatamente o sorriso voltou a se estampar naquele belo semblante; e enquanto os dois caminhavam, de volta para casa, a mariposa os acompanhava fazendo vôos graciosos. 
A garotinha exclamou jubilosa:
- Veja papai, agora é ela que vai nos visitar em casa!


                                                      Otaviano Maciel de Alencar Filho






sábado, 23 de junho de 2012

Chamado









Nas telas imensuráveis do infinito, 
Vislumbrei de longe um grito!
 
Afastei-me com receio sem par.
 
Busquei refúgio no mar.
Mar da tranquilidade. 
Mar da inquietação... Não sei!
 
Inquieto sem saber!
 
Desarvorado no saber!
Chamado pelo dever. 
Fugindo sem o saber!
Do grito, restou-me um eco no íntimo surgir! 
O eco apossou-me o Ser.
 
Sem poder deixar de ouvir,
 
Tive de sucumbir ao dever de ser!



Otaviano Maciel de Alencar Filho











sábado, 16 de junho de 2012

Até breve





Sentado na cadeira defronte sua residência, lá estava ele. Homem magro, de estatura mediana, denotando, talvez, uns cinqüenta anos de idade. Sempre com um cigarro nos lábios, demonstrava altivez e firmeza no falar. Quando vim morar na rua onde resido atualmente, quase não havia casa, mas ele já se encontrava lá, sempre debaixo de uma frondosa árvore que lhe garantia uma sombra agradável! Sou daqueles que sempre busco amizades com as pessoas; e assim sendo, sempre dirigi palavras de cordialidade para com os outros, e não seria diferente com ele. Certo dia, logo cedo pela manhã, ao passar em frente sua residência, no caminho para o trabalho, aventei um diálogo.
- Bom dia! Como vai? Tudo bem?
- Tudo!
- A moradia aqui é tranqüila, não é?
- Sim, é bastante tranquila.
Desse breve diálogo surgiu uma amizade, e sempre que passava em frente sua residência, fosse pela manhã ou à tardinha, quando regressava do trabalho, cumprimentava-o, acenando com a mão. Tempos depois fiquei sabendo que ele sofria de insuficiência respiratória, talvez pelo fato dele ser fumante. Às vezes eu o via tossindo bastante e com dificuldade para respirar.
O tempo passou! Se é que o tempo passa! Oito anos se foram de repente. Na verdade, eu, particularmente, acredito que nós é que caminhamos no tempo. Mas aí é outra estória! O certo é que o estado de saúde de meu amigo foi se agravando cada vez mais. A ida a hospitais se tornou frequente e ultimamente, quase todas as semanas tinha de voltar ao pronto-socorro. Em uma dessas consultas o profissional da área médica sugeriu-lhe alguns exames complementares, já que a medicação que ele estava administrando não estava surtindo o efeito desejado. Marcados os exames, lá foi ele.
O eletrocardiograma era desejável. O raios- x torácico indispensável! Afinal, o mesmo deveria ser avaliado em minúcias.
Estava voltando de mais um dia de trabalho quando o avisto de longe. Havia alguns dias que eu não notara sua presença em frente sua residência. Dessa vez, sentado não mais na cadeira de sempre, mas no tronco da árvore que costumeiramente ficava, o observei abatido. Ah! A árvore havia sido cortada porque havia sido infestada por um inseto. Um parasito. Agora, o que lhe restava para o descanso, era apenas o tronco, ainda fixado no chão. Sinais de debilidade e cansaço físico foram prontamente por mim observados, quando me aproximei. Então perguntei:
- Tudo bem com você?
Com o semblante debilitado e quase sem poder falar, disse:
- Que nada, rapaz! Tenho estado nos últimos dias internado.
Insisti a perguntar:
- E o resultado dos exames?
- Nem te falo! Os exames cardiológicos nada detectaram de anormal.
Fiquei surpreso!
- Então, porque se encontra neste estado? Tornei a perguntar.
- Sabe, quando o médico observou a chapa de raios x, foi enfático no diagnóstico! Coração crescido. Sim, essa é a causa do meu sofrimento.
Confesso que nesse momento fiquei com um nó na garganta. Porém, sem demonstrar sentimento de dó, o que nesse momento, só lhe causaria maiores aflições disse-lhe:
- Contudo, o tratamento agora pode ser efetuado sabendo a causa e em breve você estará restabelecido. Com relação à medicação, ele prescreveu alguma?
Falando, com sofreguidão disse:
- Claro, uma medicação ‘pesada’, tanto para controlar o aumento do volume do coração, quanto para aliviar a falta de ar.
- Que bom! Vou indo e desejo-lhe pronta recuperação.
Desci a rua, pois moro um pouco mais para baixo e o deixei em suas íntimas cogitações.
Alguns dias se passaram logo depois dessa nossa conversa.
Eis que em um sábado, logo cedo, uma agitação tomara conta da rua. Como de costume não trabalho aos sábados, aproveito para dormir até um pouco mais tarde. Quando, enfim, ponho os pés na rua, os transeuntes informam a triste notícia: O Sr. Carlos faleceu hoje pela manhã, por volta das seis horas. Fiquei triste! Não esperava por uma notícia dessas, tão de repente. Fui até sua casa e constatei que alguns vizinhos e familiares já se faziam presentes. A esposa, os filhos, - uma jovem adolescente e um garoto pré-adolescente -, inconformados com o fato, não deixavam de verter lágrimas. Estava observando o amigo, ainda no leito, quando chega o carro de serviços funerários, para cuidar da parte que lhes é relativa. Deixando minhas condolências à família, retirei-me do recinto.
O velório acontecera à tarde, entrando pela noite. O sepultamento, no dia seguinte.
Fiquei a pensar, como sempre faço em qualquer situação e, especificamente nesse caso, observei a mim mesmo:
“Não sabemos o dia nem tampouco a hora em que partiremos para o lado de ‘lá’ ”. Digo de ‘lá’, para alguns que ainda não têm certeza da continuidade da vida em outros planos existenciais. Como para mim é fato, tenho certeza que poderemos nos encontrar novamente, algum dia, no lado de lá. Quem sabe! Sendo, assim, digamos aos nossos parentes, amigos e familiares: Até breve!

                                                    Otaviano Maciel de Alencar Filho







Vida e morte



Há Vida na Morte!
Há Morte na Vida!
Há Vivos mortos.
Há mortos Vivos.

Há Vivos vivendo da Morte!
Há Mortos morrendo -de medo- da Vida!
Há Vivos que vivem morrendo - de medo - da morte!
Há Mortos que morrem vivendo!


Morte e Vida!
Vida e Morte!
Viva a Vida!
Viva a Morte!

Vida é Morte,
Pra quem não quer viver!
Morte é Vida,
Pra quem não quer Morrer!

Vida e Morte... Eternos amantes!


Otaviano Maciel de Alencar Filho



                       





A verdade




“Conhecereis a verdade e ela vos libertará”
                                                                                                Jesus Cristo 


Em vão, busca o homem moderno o conhecimento da verdade absoluta. Mas que conhecimento ele quer ter?  Porventura, estará o conhecimento encarcerado dentro de algo ou alguma coisa, esperando apenas o momento fatídico da ação do homem em liberá-lo?  De certa forma faz sentido considerações como esta que, naturalmente o compele à busca de novos conhecimentos. Levando-se em consideração a complexidade do assunto é natural que ao examiná-lo, deixemo-nos despir de preconceitos inerentes a nossa formação cultural-religiosa.
 A verdade, filosoficamente falando, não precisa de defensores. Ela simplesmente é! Não está de forma alguma sujeita ao parecer de ninguém. Falo utilizando-me da “Filosofia” e não das “filosofias” sectárias, existentes desde que o espírito humano veio habitar este pequenino globo, situado nas bordas de uma imensa constelação em forma espiral formada de bilhões de estrelas, muitas delas levando em sua órbita, um cortejo de planetas girando em seu redor. Isso sem falar nas infinitas constelações que compõem o universo visível.
Quando perscrutamos  nossa imaginação e viajamos, pelo pensamento, rumo aos confins do universo, ficamos sabendo que tudo o que conhecemos até agora, por analogia, pode ser representado como um grão de areia em relação a um deserto. Tudo bem, e o que tem a verdade a ver com isso, perguntar-me-ão. Aí é que está o ponto da questão! Suponhamos que haja civilização inteligente em outro ponto do universo que não na Terra. Tal civilização terá seus conceitos acerca de seus conhecimentos adquiridos até aquele momento. São mais inteligentes que nós, seres humanos? Talvez mais atrasados intelectualmente e mesmo moralmente. Tudo é possível para aquele que não se deixa levar pelas verdades impostas. Neste caso a verdade de determinadas civilizações seriam relativas ao conhecimento adquirido até aquele momento. A verdade é relativa a cada povo, situado no tempo, em determinada época. Espere um momento! Então não existe a verdade absoluta, tornar-me-ão a perguntar. Mas quem disse isto? É claro que a verdade absoluta existe! Mas quem terá a pretensão de possuí-la? Certamente só o Absoluto (Deus), a possui.
A história dos povos está repleta de atrocidades cometidas por aqueles que se intitulavam donos da verdade incontestável. “Verdades” que hoje sabemos serem mentiras, e “mentiras” que hoje sabemos serem verdades. 
Mas de que verdade o Cristo de Deus, Jesus, falava? A verdade não estará no respeito que devemos ter para com idéias do nosso próximo, mesmo que nos pareçam esdrúxulas? Isto não quer dizer que devemos acatá-las sem um exame preliminar, e se a consciência nos impelir a aceitá-las, deixemos de lado o egoísmo insano que devora nossas almas e adotemos como conduta de vida o exemplo de Jesus, que quando interpelado por João, que na ocasião representava os doze discípulos, a respeito da expulsão de demônios, realizada por outros que não O seguiam, e se os mesmos deveriam ser admoestados, Jesus, dotado de imensa sabedoria, simplesmente disse: Acalmai-vos, pois quem não é contra nós, é por nós!


                                                 Otaviano Maciel de Alencar Filho

Nostalgia postal



Antigamente chamavam-no de mensageiro.  Hoje em dia, de carteiro. O tempo passou, mas a rotina é a mesma. Melhor dizendo: quase a mesma! Sim, porque em um mundo globalizado, como o que vivemos atualmente, que exige do trabalhador um melhor desempenho e maior atuação no ambiente do trabalho, naturalmente, o mesmo é impelido à realização de novas tarefas que não sejam somente ligadas àquelas que habitualmente exerce. Assim, todas as atividades profissionais tendem a agregarem em si, novos valores. Notório é que os mesmos ficarão sobrecarregados de serviços, caso não haja uma política de distribuição equitativa das atividades e/ou contratação de mão de obra para que a qualidade e a continuação dos serviços não sejam afetadas.
O antigo mensageiro, que habitualmente era incumbido de distribuir as cartas que eram endereçadas a destinatários de variados locais desse imenso país chamado Brasil, hoje já não executa somente esta tarefa. Além das atividades externas, tem ele a atribuição da separação das correspondências por respectivos logradouros e distritos, para tão somente após, sair para a “entrega”.
  Com o crescente aumento da economia, devido à estabilidade econômica, as famílias passaram a ter um melhor poder aquisitivo e, desta forma, adquirir bens duráveis que antes só ficavam nos sonhos daqueles que os desejavam. 
As cartas que, antes, eram manuscritas, cederam lugar a cartas datilografadas!  Que digo eu!? Já estamos na era da informática e a antiga máquina de escrever já é objeto de museu. Então, retrato-me: As antigas cartinhas, escritas de punho, das quais muitas delas impregnadas com a emoção de quem as escreveram, disputam em uma luta sem igual, com correspondências impressas e digitalizadas: Jornais, panfletos, revistas; telegramas, faturas de cartões de crédito, contas de água, de energia elétrica, de telefone, boletos bancários, títulos para protesto, vales postais e tantos outros serviços que dia a dia passam a serem atribuições desse profissional.
Lá vai ele em sua jornada diária, atarefado, bolsa cheia.  Faça chuva ou faça sol, o carteiro sai à rua, em sua nobre tarefa de levar as correspondências até o destinatário. Seja a pé, de bicicleta, ou de moto seu maior objetivo é a entrega dos objetos postais destinados a entrega. 
- Correio,.. Correio,.. Correio!
Não pode demorar muito, o tempo é curto. Na bolsa existem centenas de correspondências para serem entregues. Os clientes aguardam ansiosamente por sua passagem na rua, e ao vê-lo:
- Tem carta para mim?
Ele responde:
- Hoje, não.
Insiste o interlocutor:
-Também, só traz conta.
E aquela senhora, de idade avançada, aduz:
- Aceita um cafezinho?
Responde enfático:
- Obrigado, deixe prá depois, estou atrasado!
Ante a resposta dada, a venerável anciã, um tanto desapontada, diz:
- Que saudades daquele tempo em que o carteiro tinha tempo para dar um bom dia! Uma boa tarde...! 
E assim, segue em frente no afã da realização de sua tarefa.


                                                 Otaviano Maciel de Alencar Filho

                                               

Socorro providencial


                   
Sentiu-se muito cansado e enjoado após fazer ligeira caminhada. Dirigiu-se até uma fonte de água cristalina que ficava no centro da praça em que fazia a costumeira caminhada matinal. Lavou o rosto e tomou alguns goles d’água. De repente, tudo começou a girar em seu redor. A vista escureceu. Desmaiou.
Enfermeiros entravam e saiam, e ele imóvel em um leito de hospital, a tudo observava sem entender o que estava acontecendo. Olhou para os lados e pode observar que havia no recinto mais três pacientes, deitados em suas respectivas camas. Fazendo esforço, para sair da inércia em que se encontrava, sentou-se na lateral do leito e chamou a enfermeira que acabara de entrar no quarto:
 - Ei, por favor, onde estou e o que aconteceu comigo?
 Aproximando-se do enfermo, disse:
 - Que bom que o senhor já apresenta sinais de melhora Sr Douglas, mas não faça esforço, deite-se novamente, não está curado totalmente. Cuide-se mais, com diabetes não se brinca. Quando você chegou aqui, estava desacordado, e com taxa de glicemia ultrapassando os 400mg/dl.
 - Diabetes, eu?
 - Talvez, mas já está tudo controlado, apenas descanse mais um pouco e à tarde o doutor possivelmente lhe dará alta.
- Quem me prestou socorro, trazendo-me até aqui? 
- Seu irmão e alguns parentes.
- Meu irmão?! A senhorita deve estar enganada, não tenho irmão, que dizer, tinha, mais faz cinco anos que ele faleceu.
- É... Devo estar equivocada, mas quando ele o trouxe, até aqui, fez questão que o senhor fosse atendido pelo Dr. Cleiton, por sinal o melhor profissional na área em que atua, portanto fique despreocupado.
A moça retirou-se do recinto, e ele logo adormeceu.
Por volta das 17:00hs ela retorna com o médico, um senhor de idade avançada.
Olhar fixo no paciente, diz:
- bem, meu amigo, vou dar sua alta, contudo preste bem atenção no que vou lhe dizer: Procure  o quanto antes fazer um exame geral, uma vez que o amigo pode ser portador de diabetes. O que fizemos aqui foi somente controlar os níveis de glicemia em seu sangue, aplicando insulina. Aconselho-o a procurar um centro de referência em endocrinologia. Boas melhoras e vá em paz!
- Douglas, Douglas, acorde... Tragam um pouco de álcool para ele aspirar, dizem que é bom para desacordar - Disse sua esposa.
Em poucos minutos ele voltava a si.
- Já estou em casa? Quem me trouxe do hospital?
- Que hospital, tá delirando? Você desmaiou e o trouxeram para casa.
Dias após este acontecimento, Douglas sentiu-se mal novamente e teve de ser levado às pressas para o hospital. Enquanto aguardava o atendimento, observou que na parede, na sala de recepção, havia um quadro com a fotografia de um homem que lhe chamou a atenção. Fazendo esforço descomunal para levantar-se da poltrona em que estava sentado, caminhou até a recepção e perguntou:
- Quem é esse senhor da foto?
 A atendente, responde:
- Esse aí é o Dr. Cleiton, falecido há pouco mais de quatro anos, foi um dos fundadores desta instituição, há mais de quatro décadas. Em sua homenagem, este hospital passou-se a denominar-se: Centro de referência em endocrinologia Dr. Cleiton Passos!


                                                 Otaviano Maciel de Alencar Filho

Peixe de asfalto



  

Coitado do peixe! Em uma poça d’água que se formara junto ao meio fio do asfalto, um peixe tentava inutilmente nadar. Ao passar pelo local, de bicicleta, de relance, o vi numa luta desesperada pela sobrevivência. Não era pequeno, e a quantidade de água acumulada no local não era suficiente para que ele pudesse respirar, afinal, o acumulo de água se dera devido a uma rápida chuva vespertina. Debatia-se em um esforço desmedido a procura de um lugar mais profundo. Como ele foi parar ali eu não sei! Continuei minha viagem. Um pouco mais a frente, não sei por que, resolvi dar meia volta e observá-lo mais calmamente. feito o trajeto inverso procuro-o, desde o começo do filete de água junto ao meio fio até o local em que eu o observara. Cadê o peixe? Sumira. Para onde ele fora em tão curto espaço de tempo? Novamente realiz o a busca de um canto ao outro, e nada. Teria eu sofrido uma alucinação? Não, eu vi um peixe. Pensei, então: talvez alguém tenha passado e o retirado do local. Hipótese descartada, pois a rua estava deserta e, até então, ninguém passara por ali. Restaram-me somente duas explicações para o sumiço o peixe: Ele adentrara no asfalto e fora em busca de água no interior da terra! Esse seria um tipo de peixe raríssimo, talvez o único de sua espécie, afinal não é todo peixe que tem a capacidade de perfurar o solo, ou então seu habitat era debaixo da terra, e ele resolveu dar uma subidinha à superfície para tomar um banho de sol. Ficou frustrado porque chovia e então resolveu voltar ao seu lugar de origem. Até hoje continuo intrigado com este acontecimento.


                                                   Otaviano Maciel de Alencar Filho

Inútil indecisão




A poesia te parece sem fim?!
Não imagine assim.

Que lhe importa a folha vazia
Sem nenhuma grafia
Se em tua mente todo o
Poema jazia?

Poetizar de trás pra frente
Talvez só em tua mente pareça ser mania.
Desdenhar esta esquisitice seria ato de tirania:
Um desfavor à beleza da poesia.


Otaviano Maciel de Alencar Filho


segunda-feira, 11 de junho de 2012

O pulo do gato


                                        


          Após um dia de trabalho estafante, o desejo de todo trabalhador ao retornar a sua casa é tomar um banho relaxante, fazer uma alimentação bem leve e depois descansar as pernas no braço do sofá, fazer a leitura de um livro ou ler as notícias do dia no “jornal de papel”, no tele-jornal, ou talvez na internet! Há quem faça opção por escutar uma boa coletânea de músicas enquanto o sono não chega.
          As horas passam e já é hora de tirar aquela bela soneca, afinal, amanhã é domingo, dia de descanso, pois na segunda feira começa tudo de novo, a mesma rotina! O abençoado trabalho reclama o compromisso assumido em favor da família e da sociedade!
          Para certa parcela da população humana, basta deitar-se e o sono logo se apodera do ser. Há, inclusive, pessoas que dormem em pé dentro de coletivos, bastando para este mister procurar um lugarzinho para se acomodar. Quem dera fosse esse o meu caso. Faz-se necessário um silêncio quase sepulcral e a luz ambiente deve ser a mínina possível. Vou deitar. O sono demora. Começo a adormecer, enfim!  Após algumas horas que não sei precisar, sou surpreendido por barulhos no telhado: Crash... Crash... Crash... De súbito, assustado, ainda sonolento, arregalo os olhos e procuro saber de onde vem o barulho e percebo que o incômodo ruído vem do telhado. Escuto passos. Minha esposa, ao lado, também acorda e fala:
           - Amor, é o gato da vizinha que mora aí em frente.
           A intensa barulheira provocada pelo bichano mais parecia uma britadeira sendo usada, ante o silêncio do começo da madrugada.
           - Amanhã mesmo, ou melhor, mais tarde vamos dar um jeito desse gato não mais subir no telhado – Disse irritado!
Voltamos a dormir, melhor dizendo: cochilar.
          Logo cedinho, comecei a preparar um plano para evitar que o felino voltasse na noite seguinte para nos atormentar.
          Realizei uma rápida pesquisa na internet, para saber como afugentar gatos dos telhados das casas. Uma das soluções consistia em colocar garrafas PET deitadas, juntas em fileira, unidas por um arame, sobre a parede ou o muro, assim, quando o animal tentasse pular, esbarraria no obstáculo e escorregaria, pois suas garras não prenderiam nas garrafas. Fácil, não?! Foi o que fiz. Aguardei ansiosamente a chegada da noite. Aproximando-se a hora de dormir, fui deitar mais tranquilo. Adormeci. Lá pelas tantas: Trusth... Crash... Crash... Crash... Atordoado, dei um salto da cama. O gato novamente estava lá: saltara sobre as garrafas! Mais uma noite sem dormir direito. Pensei: depois eu vejo outra solução!
           O dia amanheceu e fui trabalhar. Quando cheguei em casa ao meio dia para almoçar, minha esposa me chama na cozinha e mostra o danado do gato amarrado, triste e encolhido no canto da parede. Perguntei:
            - O que é isto?
           Ela respondeu:
           - Eu consegui pegá-lo, vamos dar uma nova moradia para ele bem longe daqui. Só assim conseguiremos dormir em paz!
Fitei bem nos olhos do bichinho e fiquei comovido com aquela cena que ora presenciava, e decidi:
           - Não, não vamos fazer isto. Veja como ele é dócil e inofensivo; talvez com esta lição ele aprenda e não queira chegar mais perto aqui de casa!
            Minha esposa redargüiu:
            - Homem, não perca tempo, pode ser que não tenhamos outra oportunidade de colocar as mãos nele! Ele logo arranjará outro dono!
Fui enfático:
            - Não.
            - Depois não reclame: Disse ela.
            Soltamos o pobre animal, que saiu desconfiado passando pelo hall, quartos e a sala, encontrando a saída para a rua.
            Agora era só esperar e ver se ele aprendera a lição.
            Nos dias subsequentes: Trusth...  Crash... Crash... Crash...


                                                 Otaviano Maciel de Alencar Filho

O casebre


                                             



O casebre, situado do outro lado da rua, causava espanto à meninada que habitualmente brincava do lado oposto ao mesmo. Rua, na definição oficial, não era! O centro do logradouro era ocupado por um riacho que tomava praticamente toda a extensão do mesmo. Em época de chuvas intensas, transbordava e inundava diversas residências. Porém, encontrando-se em posição privilegiada, a velha casa em ruínas ficava incólume às inundações, já que fora construída sobre sólido barranco. O ambiente tornava-se, então, propício as mais variadas formas de brincadeiras por parte da garotada que, febrilmente, ignorando os perigos pertinentes a uma enxurrada, atirava-se riacho adentro.
Os pequeninos tinham um código de honra que consistia em não se aproximarem, do que eles mesmos diziam ser: a casa mal-assombrada.
Nessa época, lá pela década de 70, surgiu uma lenda que dizia existir, circulando mundo afora, um indivíduo que atacava as pessoas e cruelmente extirpava as vísceras de suas vítimas, em especial o fígado. Era conhecido vulgarmente como “papa-figo”. Ficar sozinho em casa era motivo de terror. Não lembro com maiores detalhes como tudo aconteceu, mas certo é que na cabeça da gurizada, inclusive na minha, o criminoso morava na dita casa mal-assombrada que, por coincidência, ficava defronte a casa onde eu morava.
Quando chegava à tardinha, juntávamo-nos para brincar de pega-pega, e, sempre de olhos na casa, que abrigava vários morcegos, que com a chegada do anoitecer, começavam a sair em seus vôos vespertinos, superexcitando ainda mais a nossa imaginação a respeito da casa.
Assim, a vida seguia seu curso natural. Deixar de brincar, não deixávamos!
Certo dia, quando brincávamos,  observamos a chegada de uma pessoa a casa. Não era homem, tratava-se de uma senhora, bem magrinha, e trazia consigo um carrinho de coleta de material reciclável. Ficamos atentos observando o que aconteceria. A senhora adentrou a casa e não saiu. Resolvemos, então, em comum acordo, atravessar o riacho, passando sobre uma ponte improvisada de madeira, e ir até o casebre, ver de perto o que estava acontecendo lá dentro da casa.
Nessa altura do campeonato, o medo dava lugar ao sentimento de curiosidade, afinal de contas, havíamos decidido esclarecer toda essa confusão de informações, que durante muito tempo vinha causando pavor a todos nós.
Fomos chegando devagarzinho, sempre bem juntos, e, esgueirando-nos sobre a janela pudemos ver algo que nos chamou a atenção: Sentada no chão de barro batido a senhora separava os materiais coletados durante o dia. Ficamos perplexos com o que estávamos presenciando. O humilde lar não tinha nada de mobília. Podia ver-se ao fundo pequena quartinha feita de barro, uma cadeira de madeira faltando algumas tábuas, uma rede amarelada pelo tempo, dependurada junto à parede sem reboco e muita sujeira espalhada pelo recinto. Era a miséria humana em pessoa. A situação econômica de nossas famílias também não era muito diferente, contudo, não chegava nem de longe, a se parecer com a visão triste que ora testemunhávamos.
Estávamos inebriados com a visão de tudo aquilo, e sequer notamos que fôramos percebidos pela dona da casa, que prontamente nos chamou para junto dela.
- Entrem meninos. Não tenham medo. Sou feia, mas não mordo. Ajudem-me a separar estes materiais, aposto que vocês irão gostar.
Entre o medo e a coragem em atender ao pedido, falou mais alto o sentimento de solidariedade que se estabeleceu em nós naquele momento, e decidimos ajudar a pobre senhora em sua tarefa dignificante.
Nossas tardes, a partir daquele dia, não foram mais as mesmas. O medo desaparecera, e, nos dias subsequentes àquele episódio, aguardávamos a chegada da senhora e seu carrinho.




                                                      Otaviano Maciel de Alencar Filho

A comunicação


A conversa girava em torno de assuntos diversos. Sentados cada qual na sua posição de trabalho, a equipe que trabalhava na manipulação de objetos postais, sem que prejudicasse o andamento dos trabalhos, sempre encontrava um “tempinho” para opinar sobre alguns temas do dia a dia. Alguém começou a falar em comunicação, lembrando que as cartas escritas estavam cada vez mais raras depois da expansão da internet, que permitia às pessoas um intercâmbio mais ágil.
O grupo formado contava com aproximadamente cinquenta indivíduos, no entanto apenas os que se encontravam mais perto uns dos outros, cerca de cinco pessoas, participavam da discussão em questão. E eu estava neste grupo. Sem que qualquer um do grupo percebesse, o rumo da discussão tomou caminho diverso do estabelecido no inicio da conversa.
Não sei por que, mas a conversa foi ficando cada vez mais metafísica. Gostei da ideia! Afinal, sendo eu, espírita, era um bom momento para colocar em questão a comunicação com os espíritos. Dedução errada. Tema como este geralmente é tratado com desdém por aqueles que não têm conhecimento da Doutrina Espírita ou de alguma outra religião ou seita que não tenha esta crença. O que deveria ser uma rápida conversa em torno de um assunto comum a todos se tornou objeto de controvérsias, e consequentemente seria necessário um tempo maior para que se fizessem as devidas elucidações em torno da questão. Coincidência ou não, os objetos postais já haviam sido tratados e dessa forma arranjaríamos um “tempinho” a mais a nosso favor.
Os componentes do grupo em questão éramos de diferentes escolas religiosas/filosóficas. Eu espírita. Um evangélico, o outro católico. Um adventista do sétimo dia e o outro não soube ou não quis revelar sua posição religiosa. O evangélico, tomando a palavra disse:
- Isto de falar com os espíritos é coisa do diabo! A bíblia nos informa a respeito, no livro deuteronômio, que não devemos evocar os mortos, pois que quem se apresenta é o demônio!
Falando assim, quis encerrar a conversa. Porém, o amigo católico, vindo em defesa do argumento de que seria inútil tentar estabelecer um diálogo com os mortos, deu a sua contribuição na conversação:
- Um a vez no céu ou no inferno, é impossível tal coisa. Lembra o caso do rico e Lázaro, mencionado por Lc , cap. XVI, 19,31?
Os argumentos, baseados na bíblia, iam ficando cada vez mais consistentes e a conversa finalmente acabaria por ali mesmo. Certo? Errado!
O amigo que não definiu sua posição religiosa a tudo observava sem intervir, dando a vez para o adventista explanar o assunto sob sua ótica. Demonstrando cavalheirismo, deixou que eu manifestasse melhor o pensamento espírita acerca das duas passagens bíblicas citadas anteriormente. Falei, então:
- Caros amigos, interpretações diversas podem ser dadas em relação às duas citações. Primeiro é importante deixar claro que cada escola buscará elementos e não poupará esforços para provar, seja pela bíblia ou não, a veracidade de seus argumentos. Vejamos o caso de Moisés, que proibiu a evocação dos mortos. Pergunto aos amigos: porque proibir o que não é possível? Só é passível de proibição algo que exista. Esquecem o caso do rei Saul, que foi em busca da pitonisa de En-Dor, para ter com o espírito de Samuel, o profeta? Vamos ver o caso do mau rico e Lázaro. O mau rico pede a Abraão o envio de Lázaro até os seus familiares, para que lhes dê testemunho do que acontece com ele, para que não suceda que seus irmãos também passem a habitar o lugar de tormentos em que ele se encontra. Ora, mesmo sendo mau, o rico vivera na terra, sob a lei judaica, portanto deveria conhecer as escrituras e saber da possível impossibilidade de se comunicar com os encarnados. Agindo assim é porque sabia da possibilidade. Abraão nega. Afinal, se eles não davam ouvidos a Moisés e os profetas, muito menos dariam a algum dos mortos que ressuscitassem. Por que Abraão não o repreendeu dizendo que isso seria impossível?
Iria continuar com maiores explicações, quando notei que meu amigo adventista ansiava por falar. Então, imitando o gesto de cavalheirismo, que o mesmo havia usado em meu favor, cedi a palavra, não imaginando o que haveria por vir.
De caráter jocoso, mesmo sendo membro de uma escola religiosa tradicionalmente rígida nos preceitos morais, logo notei que o que ele queria mesmo era jogar um balde de água fria na discussão que parecia não acabar mais. Então começou:
-Conheci, tempos atrás, um senhor que dizia ouvir vozes que o incomodavam bastante! Sugeriram-lhe procurasse um padre para exorcizar o demônio. Assim foi feito, mas o problema persistia. Deveria procurar um pastor para que o mesmo fizesse algumas orações em seu favor, e o problema seria resolvido. Nada resolvido. Quem sabe se for tomar um banho de descarrego em um centro de umbanda, o caso não se resolveria? Lá se foi o senhor em busca de alívio para seus ouvidos. Não foi dessa vez, também. Ah! Agora sim! Vá a um centro espírita, só falta esse recurso. Novamente a busca da solução para seu problema foi infrutífera! Eis que um dia, padecendo de dores de dente teve de ir ao odontologista que, prontamente, diagnosticou o motivo das dores que ele sentia. Tratava-se de uma obturação muito antiga feita de amálgama, material composto de met ais tais como: mercúrio, prata estanho, cobre e outras coisas mais. A obturação deveria ser substituída por uma outra, de preferência feita de resina, pois o dente ficava localizado na parte frontal, e, até mesmo por estética, era recomendável o referido procedimento. Dias depois, o senhor observou que as vozes que ele frequentemente ouvia, desapareceram.
Assim, concluindo sua dissertação sobre o assunto, meu amigo explicou que o que causava o fenômeno, era a sintonização que o material, que havia na obturação do dente do senhor, fazia com estações emissoras de rádio! Pode um negócio desses?! O amigo que não se identificou em nenhuma das religiões era técnico em eletrônica, e discordando do mesmo falou da impossibilidade de acontecimentos dessa natureza. Com essa tese a conversa acabou. Dias depois fiquei sabendo que o amigo adventista também era membro da sociedade teosófica, então entendi o porquê do balde de água fria jogado no assunto. Ou será que ele acreditava mesmo na tal possibilidade?! 



                                                 Otaviano Maciel de Alencar Filho

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