Aconteceu
muito rápido. Não sei precisar o tempo decorrido do fato que vou contar.
Somente agora, passadas algumas semanas, creio eu, começo a me dar conta do
ocorrido, embora me encontre um tanto confuso diante a nova situação em que me
encontro, chegando até certo ponto não aceita-la.
Um estampido. Apenas e tão somente um estrondo
acompanhado de um projétil que veio em minha direção, e logo uma pressão muito
grande em meu peito esquerdo. Cai esvaindo-se em sangue. Ao meu lado se
encontrava minha companheira, abraçando-me aos prantos. Jamais ela poderia
imaginar que o desfecho de uma situação litigiosa no matrimônio tivesse um
final trágico, afinal já havíamos entrado em consenso quanto à nossa separação
a cerca de três meses.
O disparo certeiro que me acertou, partiu das mãos
de seu amante que, adentrando nossa residência, sem que fosse visto, dirigiu-se
até o quarto onde nos encontrávamos, tratando das ações a serem tomadas com
relação à ruptura de nossa união.
Como disse anteriormente, desde há muito já tínhamos
resolvido esta questão e em nenhum momento demonstrei hostilidade para com sua
decisão. Um homem de idade avançada compartilhando amores com uma jovem, no meu
caso bem mais jovem que eu, não poderia esperar outra coisa a não ser
surpreendido pela decepção de ser trocado por outro ser mais jovem, cheio de
vigor. Por favor, não tomem minhas palavras como regra geral para os
relacionamentos onde a diferença de idade dos cônjuges é muito grande. Cada
caso é um caso e o desfecho final de um matrimônio, se me permitem assim dizer,
está nos desígnios de Deus.
Não pretendo entrar em maiores detalhes acerca das
situações que vivi no matrimônio e que culminaram com o nefasto episódio que
ora narro.
Voltarei, então, a compartilhar as impressões que
tive após o tombamento de meu corpo ao chão:
Senti uma dormência estranha. Uma leveza. As coisas
começaram a girar (ou seria eu quem estava girando?). Apavorei-me, quando, após
alguns instantes, olhei para o chão e vi meu corpo caído e sobre ele, chorando,
minha ex-esposa e meus dois filhinhos. Gritei, chamando por eles, mas não me
ouviam. Aproximei-me para abraçá-los. Não consegui. Estou vivo, clamei
desesperadamente. Chamem um médico. Tudo em vão! Aflitivamente, cheguei a uma
dura conclusão:
- Estou morto... Meu Deus!
Foram chegando algumas pessoas e em pouco tempo o
recinto estava cheio. Procurei, com turvos olhares, identificar o meu algoz no
meio da multidão, mas ele já havia se evadido do local. Tentei sair do quarto,
mas algo me impedia de fazê-lo.
Com os prantos de meus familiares ressoando aos meus
ouvidos, que agora pareciam ter os sentidos auditivos dilatados, entrei em
profundo desespero. O tempo e o espaço pareciam estar dilatados. O ambiente
mudava constantemente os seus contornos. O quarto que media pouco mais de 16m²
afigurava-se agora a um grande salão. Muitas pessoas conversavam baixinho para
não tumultuar ainda mais o recinto, que, pelo que pude perceber, contava com
aproximadamente cinquenta pessoas. Reconheci de imediato alguns familiares que
se aproximavam de mim (ou do meu corpo) e não conformados com a triste cena,
derramavam copiosas lágrimas.
Observei que chegara ao recinto o pessoal
responsável pelo translado de meu corpo. Juntamente com eles vieram as
autoridades policiais que, de imediato, começaram os trabalhos de investigação.
Enquanto isso as pessoas era retiradas do local para não atrapalharem o
trabalho efetuado por eles.
Por um lapso de tempo que ignoro a duração entrei em
estado de torpor profundo, e vi, como num filme, toda a história de minha vida
desenrolar-se ante meus olhos.
Quando retornei do estado em que me encontrava,
senti um vazio dentro de mim. Acabrunhado, recolhido em um canto qualquer,
imerso em total solidão, não me dava conta de tempo e espaço, até que uma luz,
vinda não sei de onde, começou a iluminar o ambiente, se assim posso me
expressar, pois como mencionei anteriormente é um estado novo, este em que me
encontro. Poderia dizer, sem receio de estar faltando com a verdade, que o
simples fato de pensar torna tudo muito “real”.
À luz que se fizera perceptiva para mim,
aproximaram-se dois seres que, complacentemente, passaram a me observar. Tomando-me
as mãos, ergueram-me do local em que me encontrava, e pela primeira vez pude
constatar que alguém podia relacionar-se comigo.
- Companheiro, não temas, você está entre amigos,
precisamos conversar bastante e pô-lo a par de sua nova existência! – Falou um
jovem senhor, com um leve sorriso no olhar.
Após algum tempo fui apresentado a algumas pessoas que há muitos anos
não via, pois haviam transpassado o portal existente entre o que chamamos vida
e morte, antes de mim.
Pude reconhecer alguns parentes e alguns amigos que
conviveram comigo em vida. Fiquei feliz quando encontrei Humberto, antigo amigo
de negócios, e qual não foi minha surpresa quando o vi “inteirinho”, com sua
perna direita, que havia sido amputada após ser vítima de um acidente
automobilístico que sofrera anteriormente.
- Como pôde acontecer isso, Humberto. - Perguntei
curioso.
- Vá com calma, amigo, terá todo o tempo do mundo
para ficar a par de seus novos modo de ser e estar!
Formamos um círculo e começamos a conversar
alegremente.
Otaviano Maciel de Alencar Filho
Otaviano Maciel de Alencar Filho
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