A
carrocinha de lanches descia a rua quando, de longe, foi avistada por um
pequeno guri aparentando ter uns oito anos de idade que, sentado na calçada em
frente a sua casa já a aguardava ansiosamente. Não esperou que ela chegasse até
onde ele estava e imediatamente correu até o vendedor. O garoto, que já levava
algumas moedas, foi logo inquerindo:
- O
senhor tem bolo de batata?
O
vendedor era um senhor já idoso marcado pelas rugas que o tempo não tardou em lhe
perdoar. Em sua mansidão característica, retrucou:
-
Não, meu bom menino, hoje não trago bolos. Trago algo muito especial: sonhos
recheados com doce de leite. – Respondeu o ancião.
O
pequeno não entendendo o que o velho dizia, pois não conhecia esta guloseima,
tornou a perguntar-lhe:
- O
senhor tem bolo fofo? – Insistiu.
O
homem percebeu que o garotinho não tinha escutado sua resposta e aparentava não
saber o que era um sonho, então disse:
-
Não, meu filho, não estou vendendo bolo de nenhuma qualidade. Estou vendendo
apenas sonhos e lhe digo que são muito saborosos. Tomando um em suas mãos
mostrou-o ao garoto, que ficou perplexo quando viu aquele pãozinho recheado de
doce de leite e coberto de açúcar branquinho como a neve.
-
Ah, então o nome disso é sonho? – Perguntou.
-
Sim, você nunca provou de um sonho? - Interrogou o vendedor ao menino que não
tirava os olhos da carrocinha lotada de sonhos. Talvez, sonhando em
saboreá-los!
- Não,
senhor. Pensei que sonho era aquilo que a gente tem quando deita dorme e fica
vendo coisas passarem na nossa cabeça. – Disse o moleque em sua simplicidade!
O senhor coçou a cabeça e, balançando-a, deu
leve sorriso admirando a ingenuidade do pequenino. Observando que as moedas que
ele portava não eram suficientes para comprar o doce, asseverou:
-
Sei que você está “doidinho” para provar do sonho, mas seu dinheiro não dá para
comprá-lo, então vou fazer o seguinte com você: Vou dá-lo de presente, guarde
suas moedas e junte com mais outras para que quando eu passar outro dia com os
bolos você possa usá-las, tudo bem?
- O
senhor está dizendo que vai me dar de graça este sonho? Inqueriu o pivete,
saltitante de alegria.
-
Claro, é todo seu. Sonho que é sonho não se vende, não é mesmo? –Respondeu,
jubilosamente.
O
vendedor então embrulhou o sonho e entregou ao menino, e abaixando-se e tocando
em seus pequeninos ombros, falou-lhe, olhando nos olhinhos redondos e
amendoados, antes que ele retornasse à sua casa, o seguinte:
-
Hoje é o dia de meu aniversário, então resolvi vender sonhos, porque além se
serem saborosos seus nomes simbolizam o que há de melhor no ser humano, que é a
capacidade de acreditar que um dia nossos sonhos possam se tornar realidade, mesmo
diante as adversidades que a vida nos contempla. Já tive muitos sonhos, alguns
se realizaram outros nem tanto, contudo não perdi as esperanças de que a
qualquer momento eles possam se tornar realidade. Para falar a verdade, ainda
tenho sonhos! Espero que seja um eterno sonhador, mas antes de tudo, que seja,
no futuro que o aguarda, um homem de bem e que trabalhe muito para que seus
sonhos se tornem realidade. Esse é o meu sincero desejo. – Sentenciou.
Estava
tão absorto em seus pensamentos que sequer se deu conta de que o menino não
estava entendendo nada do que ele estava falando. Quando percebeu que o pequeno
fitava-lhe os olhos, sem saber o que falar, encerrou a conversa, dispensando-o.
O menino saiu alegre e saltitante,
saboreando o sonho, enquanto o vendedor de guloseimas continuava o seu trajeto,
na labuta diária e levando consigo seus sonhos.
Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 2017 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)
(Copyright© 2017 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

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