Ela estava apaixonada! Sim, definitivamente ela estava
loucamente apaixonada. Mas... Como poderia uma garota de quatorze anos de idade
se apaixonar tão intensamente, a ponto de se ausentar da sala de aula da 5ª série, durante as explicações
da professora e ir até a sala da 7ª série e ficar de prontidão, encostada na
porta e fitando o olhar para o garoto que ela estava interessada? Não,
sinceramente não dava para entender, afinal, o garoto não demostrava nenhuma
afeição por ela. Ela era uma adolescente de uma beleza exuberante. Tinha um
sorriso encantador que deixava muitos meninos de “água na boca”. Mas, então por
que aquele garoto, sua paixão, não estava nem aí para ela? No seu íntimo, ela
não conseguia entender o porquê dele não se interessar por ela.
O
ano letivo ia escoando e a paixão de Sônia por ele não diminuía. No mês de
junho, por ocasião das festas juninas, a escola realizava a tradicional
quadrilha. A garotada esperava ansiosa por esse momento. Era durante os ensaios
das danças que muitos começavam a paquerar e até arranjavam um namoro. Aproveitando
a ocasião, Sônia, que havia sido escolhida para ser a noiva da quadrilha,
convidou Nilton, esse era o seu nome de seu amado, para ser seu parceiro de
dança. Um tanto reticencioso Nilton aceitou o convite. A partir daquele momento Sônia sentiu-se a pessoa
mais feliz do mundo. Seu olhar vívido e brilhante não disfarçava o
contentamento de estar tão próximo de seu grande amor. Os ensaios foram acontecendo
nos dias seguintes sem que Nilton apresentasse sinais de interesse por ela.
Foi
numa sexta feira à tardinha, durante um ensaio para a apresentação, que
ocorreria no sábado seguinte, que Sônia veio saber o motivo de Nilton não dar
muita atenção a ela. Terminada a apresentação os dois se afastaram do grupo e
foram sentar em uma ponta de calçada existente bem próximo, e ali começaram a
se entenderem de verdade. Nilton começou a falar e ela ficou escutando
extasiada.
- Sônia, me desculpe por todo esse tempo eu
ter sido tão idiota e não “dar bola pra você”. É que... Sabe... Eu não sou
muito de falar e... Bem... Deixa pra lá.
Sônia,
nesse momento percebeu que Nilton era uma pessoa muito tímida e sem autoestima.
Não se valorizava como pessoa, embora fosse uma pessoa muito inteligente.
-
Nilton deixe de bobagens, eu admiro muito você. Na verdade eu queria que você
namorasse comigo. - Disse ela com um sorriso extasiante.
Nilton
deu uma risada meio sem graça e encabulado falou:
- Os
outros meninos ficam gozando de mim, dizendo que você, uma menina tão bonita,
está somente querendo tirar onda com a minha cara.
Não
ligue pra isso Nilton, eu gosto é de você e isso basta. Ah! Amanhã, depois da quadrilha vem comigo em
minha casa, minha mãe fez pé de moleque e bolo de milho pra gente comer junto à
fogueira. - Falou Sônia.
Nos
dias subsequentes a esse acontecimento os dois passaram a se encontrar antes da
aula e durante o recreio, o que deixou Sônia muito contente e ao que parece
Nilton também estava feliz. Mudou muito o seu comportamento junto a Sônia.
Poderia se dizer que ele também se apaixonou por ela. Andava animado, amenizou
sua timidez e agora já assumia diante seus amigos, o namoro com Sônia. Se é que
podemos chamar de namoro o relacionamento entre os dois, pois mais parecia uma
amizade muito intensa, mas... Namoro de verdade... Não!
O
ano letivo terminou e, por ironia do destino, nesse mesmo período, a família de
Sônia mudou-se para outro bairro, bem distante de onde morava e ela teve de
deixar a escola.
Passaram-se
quase uma década sem que se vissem. Certa vez, quando Nilton descia a rua rumo
a sua residência, foi parado por uma bela jovem, era Sônia, que sem deixar que
ele falasse, disse:
-
Nilton, o destino fez com que nós não ficássemos juntos. Hoje me encontro compromissada, creio que você
também, mas eu nunca me esqueci de você e lhe digo do fundo do meu coração: você
foi e será a minha única e verdadeira paixão de minha vida. Tirou do bolso da calça jeans que usava, uma
fotografia de comemoração de seus quinze anos de idade e lhe deu, pedindo que
guardasse com muito carinho. Nilton ficou extasiado sem saber o que fazer e
quando ia falar ela lhe deu um abraço e um beijo bem afetuoso. Por alguns
instantes ficou fitando seu rosto, que agora se encontrava marejado, para
somente depois ir embora.
Nilton
acompanhou o seu afastamento com lágrimas rolando pela face, afinal, também já
estava comprometido com outra pessoa. Esta foi a última vez que os dois se encontraram.
Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 2019 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

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