quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

De sonho a pesadelo


O sonho de todo apostador de jogos de azar é um dia “tirar o pé da jaca”, e esse desejo, em alguns casos, torna-se obsessivo, levando o indivíduo a não ter outra meta que não seja viver apostando, na esperança desse dia chegar. Mesmo sabendo que as chances são mínimas algumas pessoas não se importam com esse fato.
Josimar era um sujeito que se enquadrava nesse perfil: Homem sonhador e esperançoso de um dia ficar rico com o dinheiro que ganhasse nos jogos que realizava. Além de exímio jogador de baralho, também era “bicheiro” e mantinha uma pequena banca de jogos em uma das praças do centro da cidade. Não raro os frequentadores pediam palpites acerca do possível resultado da aposta que estavam fazendo, e é claro que ele não deixava o freguês “na mão”. Revelava os sonhos que tivera na noite anterior com bichos e números e num estranho malabarismo onírico, dava seu parecer. Coincidência ou não alguns dos apostadores, aqui e acolá, acertavam a aposta. Mas como não investiam muito dinheiro na aposta, talvez receosos de perderem o pouco que tinham, não chegavam sequer a ganhar o suficiente para pagar as dívidas que tinham e comumente apostavam novamente o dinheiro ganho. Existiam os clientes “fiéis”, aqueles que raramente não faziam sua “fezinha” diariamente. O termo “fezinha” é muito utilizado entre os apostadores e quer dizer, provavelmente: Apostar acreditando, ter fé que tudo vai dar certo, que a sorte grande vai chegar desta vez.
Josimar, por sua vez, também fazia suas apostas. Já havia ganhado alguns trocados, mas nada que garantisse a ele e sua família um futuro tranquilo sem ter de se preocupar com o futuro.
Certa vez um apostador ganhou considerável quantia de dinheiro apostando em um milhar, em sua banca. Aproximadamente três meses depois o homem retornou para fazer novo jogo.
Intrigado, Josimar perguntou ao indivíduo se ele havia aplicado o dinheiro ganho em algum negócio que lhe rendesse mais dinheiro. O homem retirou os óculos e, abaixando-se próximo de seu ouvido esquerdo disse:
- Amigo, dinheiro que se ganha em jogos de azar é dinheiro amaldiçoado, gastei tudo com mulheres e farras noites afora, só me sobrando alguns trocados que irei novamente apostar.
O bicheiro tornou a perguntar:
- Mas se o senhor perder o pouco que lhe resta, não acertando a aposta, que vai fazer?
- Dificilmente perco uma aposta. – Respondeu.
- O senhor deve contar muito com a sorte, não?
- Coragem, é isso que se deve ter.
- Coragem... Pra quê?
- Vou ter falar uma coisa, se você quiser ganhar algum dinheiro em jogo de azar tem que fazer uma “pulutrica”.
- Sei, mas dizem que isto é fazer pacto com o diabo.
- Talvez seja verdade... ou apenas crendice popular. Particularmente, nunca vi o dito cujo e como essas simpatias dão certo... eu não me preocupo com as possíveis consequências, o que quero é botar a mão na grana e me divertir.
- Mas, só por curiosidade, que tipo de simpatia tem que ser feita?
- Vejo que você tem coragem, porque se não tivesse não perguntaria. Vou então lhe dizer o que fazer. Numa sexta feira, lá pelas duas horas da madrugada, quando todos em sua casa estiverem dormindo, vá até o quintal fique totalmente despido e abrace uma árvore, pode ser um pé de cajueiro, mangueira, coqueiro. O importante é que durante todo esse tempo você não desgrude da árvore e fique em constante oração, pedindo ao “cavaleiro negro” que vem montado em um cavalo branco, que lhe traga o milhar. Dentro de aproximadamente meia hora você irá escutar uns galopes, não se preocupe é ele chegando. Logo depois se aproximará de você e irá perguntar por que o chamou, então fale que quer ver o número que ele traz estampado em seu peito. De imediato ele não o fornecerá, pois você terá de desgrudar da árvore e ir de encontro ao animal e acariciar-lhe a crina. Feito isto, se o cavalo gostar das carícias feitas tocará o solo três vezes com a pata esquerda, então o cavaleiro abrirá a jaqueta e lhe mostrará os números, caso ocorra o contrário ele imediatamente desaparecerá da mesma forma como surgiu.
- Tudo bem, como o senhor se chama? – perguntou virando o olhar para um freguês que se aproximava.
Quando Josimar retomou o olhar para o homem que lhe ensinara a simpatia, não mais o viu, sumira entre os transeuntes.
Passados alguns dias, numa sexta-feira, Josimar resolve por em prática o plano de realizar a tal “pulutrica”. Quando todos já se encontravam dormindo, levantou-se devagarinho da cama, deixando ao lado sua esposa, Severina, e caminhou até o quintal, fazendo tudo o que foi dito pelo homem que lhe ensinara a estranha simpatia.
D. Severina acordou com barulhos vindos da cozinha, procurou seu marido na cama e não o encontrando foi até lá. Chegando viu a porta dos fundos aberta e quase caiu de susto quando viu aquela cena inusitada: O marido nu agarrado no pé de coqueiro dizendo coisas sem nexo. Imediatamente, sob a luz do luar, tomou nas mãos uma vassoura que se encontrava próxima à porta e partiu para cima do esposo, acertando-lhe a moleira. O pobre coitado caiu desfalecido, acordando alguns minutos depois.
- Cabra sem-vergonha, quando tu acordar vai ouvir poucas e boas. – Disse, furiosa!
Após tudo explicado, Severino queixou-se da esposa que não lhe permitira a visualização do último número do milhar. Só conseguira enxergar os três primeiros numerais que formavam o número 666.
Quando o dia amanheceu, estando à mesa tomando o café da manhã, D. Severina contou que ao voltar a dormir sonhou com alguém que lhe indicara o numeral nove. Severino decidiu então colocar o nove no final dos números que conseguira visualizar e fazer a aposta.
No final da tarde, quando da apuração do sorteio, o milhar sorteado foi o de número 9999.
Chegando a casa, contou para a mulher e esta se mostrou pesarosa. Josimar consolou-a dizendo:
- Fique triste, não, afinal essa história de simpatia não dá certo mesmo, o único numeral que saiu foi o que tu sonhaste, os meus não saíram nenhum, viu?
- Será, homem, que com a pancada que dei na tua moleira tu não trocaste os números e passasse a vê-los de cabeça para baixo?!



                                                Otaviano Maciel de Aencar Filho

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Canto à Fortaleza





Fortaleza terra da luz e do sol,
Dos verdes mares bravios,
Dos ventos e seus assovios,
Do farol do Mucuripe!
Fortaleza dos jangadeiros altruístas,
De Dragão do Mar, o abolicionista,
Do forte de Nossa Senhora da Assunção,
De José de Alencar, o romancista!
Fortaleza bem humorada,
Hospitaleira e atraente:
Faz jus à sua gente!
Fortaleza, capital do Ceará,
De uma coisa eu tenho certeza:
Tu és bela por natureza!



Otaviano Maciel de Alencar Filho

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A Copa das Copas






Finalmente estamos às vésperas do maior evento futebolístico mundial e o Brasil o sediará pela segunda vez, a primeira vez aconteceu no ano de 1950 quando, na ocasião, a equipe do Uruguai sagrou-se campeão da competição e o Brasil ficou com a vice-liderança. Trata-se do Campeonato Mundial de Futebol, ou ainda Copa do Mundo FIFA (Fédération Internationale de Football Association), designação esta que passou a ser adotada como nome oficial da competição a partir do ano de 1994.
A FIFA foi fundada em Paris, na França, no ano de 1904. Contudo, sua sede está localizada na cidade de Zurique, na Suíça.
Nos idos de 1905, tentou-se a realização de um torneio olímpico de futebol amador entre as federações, como nenhuma delas atestou a participação junto ao comitê olímpico, o projeto foi não vingou.
Deve-se ao francês Jules Rimet a criação de uma nova modalidade de competição, não mais reconhecendo o torneio como campeonato mundial de futebol amador, pois a intenção era profissionalizar o futebol em nível mundial. No ano de 1928 foi aprovada a proposta da FIFA pela criação da Copa do Mundo e por vinte e cinco votos a favor cinco contra e uma abstenção, o projeto saiu vitorioso dando início a história das Copas.
A primeira Copa do Mundo contou com apenas treze equipes nacionais e aconteceu no ano de 1930 no Uruguai, e o mesmo sagrou-se campeão, a Argentina ficou com a vice-liderança.
Importante ressaltar que a Copa do Mundo alterna com outro grande evento desportivo: As olimpíadas que são realizadas de quatro em quatro anos. Infelizmente, nos anos de 1942 e 1946 não houve edição do torneio devido à segunda guerra mundial.
As Copas do Mundo aconteceram respectivamente nos anos de:
1930 no Uruguai, onde o dono da casa foi campeão;
1934 na Itália, onde também a dona da casa foi campeã;
1938 na França onde a campeã foi a Itália;
1950 no Brasil, e o campeão foi o Uruguai;
1954 na Suíça, e a campeã foi a Alemanha Ocidental;
1958 na Suécia, e o Brasil foi o campeão;
1962 no Chile e novamente o Brasil foi o vencedor da competição;
1966 na Inglaterra, e a dona da casa foi a vencedora;
1970 no México, e o Brasil foi o vencedor, tornando-se a primeira nação tricampeã mundial, recebendo definitivamente a taça Jules Rimet. Nesta Copa destaca-se a figura de Pelé, único futebolista a participar de três equipes campeãs de Copa do Mundo. É considerado por muitos como o rei do futebol. Também merece menção as figuras de Tostão, Gérson e Jairzinho, que contribuíram em muito para a conquista do tricampeonato;
1974 na Alemanha Ocidental, e os donos da casa ganharam o campeonato;
1978 na Argentina, e novamente os donos da casa sagraram-se campeões;
1982 na Espanha, a Itália ganha o certame e iguala-se ao Brasil em número de Copas ganhas;
1986 o México sedia a Copa pela segunda vez e a grande vencedora é a Argentina;
1990 a Itália recebe o evento pela segunda vez, e quem vence o certame é a Alemanha Ocidental, igualando em número de competições vencidas ao Brasil e Itália;
1994 os Estados Unidos recebem pela primeira vez o grande evento mundial. O Brasil vence o time italiano nos pênaltis, conquistando o tetracampeonato mundial;
1998 na França, onde também quem vence são os donos da casa;
2002 o evento é realizado em dois países: Japão e Coréia do Sul. O Brasil é vencedor e conquista o pentacampeonato mundial de futebol, distanciando-se dos demais países no número de competições vencidas.
2006 a Alemanha sedia o evento pela segunda vez, e a campeã é a Itália.
2010 é a vez de um representante do continente africano sediar uma copa, e o país que ganhou o direito de sediá-la foi a África do Sul, onde a Espanha ganha pela primeira vez uma copa Mundial.
Finalmente, nos meses de Junho e Julho de 2014 o Brasil e o mundo estarão de olhos voltados para este grande evento aglutinador de culturas que arrasta consigo um leque de oportunidades de desenvolvimento para as cidades dos países onde ele se instala. Variados setores da economia se beneficiam, direta ou indiretamente com este acontecimento, gerando mais oportunidade de emprego e desenvolvimento, onde o setor de turismo ganha grande destaque.
No setor público podemos destacar a implantação de projetos de infraestrutura urbana, tais como: Saneamento básico, mobilidade urbana, segurança pública entre outros. Isso é o que afiança os setores políticos responsáveis pelo evento e o que a FIFA exige para que o espetáculo possa ser realizado.
 Evidentemente que um acontecimento desportivo de grandes dimensões como a Copa do Mundo, onde são envolvidas grandes somas de dinheiro, os setores políticos das nações onde são realizados os eventos sofrem críticas desfavoráveis à realização dos mesmos, de vez que o governo destina grande soma de verbas na construção e/ou ampliação das arenas onde serão realizados os jogos. Os recursos financeiros poderiam ser aplicados diretamente em prol da sociedade, na construção de hospitais, escolas e creches sem ser preciso tanto “desperdício” de dinheiro na execução dessas obras monumentais, evitando o esvaziamento dos cofres públicos em detrimento de construções arquitetônicas colossais, que provavelmente só terão cem por cento de utilização no período de realização da copa.
Variadas manifestações contra a realização da Copa estão sendo realizadas em todo o país, tendo como principal argumento a corrupção que grassa os setores da política brasileira.
De qualquer forma, com o Brasil sendo o vencedor da Copa das Confederações no ano de 2013, as atenções agora se voltam para a conquista do hexacampeonato mundial de futebol da FIFA. Sendo o Brasil vencedor ou não da competição, a nação brasileira anseia por um Brasil padrão FIFA.




                           Otaviano Maciel de Alencar Filho

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Liberdade, Igualdade e Fraternidade



Versejar sobre o que penso
Às vezes me deixa tenso.
Se minha voz eles (?) podem calar,
E a ela anatematizar,
Já os meus pensamentos não podem silenciar.
Mas se grafo o meu pensar
Em páginas impressas a dispersar
Serei traído pelo impetuoso desejo de querer me expressar.
A licença poética vou usar!
Ousarei em formas diversas disfarçar
Tudo que meu ego deseje falar.
Desmascarar a hipocrisia
Aderente a várias fantasias.
Antes, porém, lutar por um ideal comum:
Liberté, Egalité, Fraternité.



Otaviano Maciel de Alencar filho

sexta-feira, 28 de março de 2014

O Irreversível





Ah! O tempo!
Pudesse ser como uma vitrola
Em que o braço controla
A faixa musical a ser ouvida.
O disco da vida poderia ser vivido novamente!
Viveria plenamente
O tempo que se evolou.
Quem dera pudesse nele voltar!
Rever afetos,
Reatar os desafetos.
Voltar a ser criança.
Viver sem preocupações.
Esquecer as ilusões,
E também as inquietações.
Tempos idos que não voltam mais!
Só a lembrança jaz.



Otaviano Maciel de Alencar Filho

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Um sonho a mais




Quando chegam os meses de Janeiro, Julho e Dezembro, período relativo às férias escolares, ruas, avenidas, praças e demais espaços públicos tornam-se mais movimentado que ordinariamente, isso se deve naturalmente devido à presença de crianças, adolescentes e jovens, que por um lapso de tempo se veem livres das salas de aulas das instituições escolares que as acolhem, no dever de dar-lhes a educação necessária, e assim prepará-los para um futuro promissor. Enquanto o futuro não chega, trazendo com ele a responsabilidade e o dever de conseguir um emprego, que na maioria dos casos toma quase todo o tempo de nossas vidas, por que não aproveitar esses meses de folga para se divertir a vontade?
Um dos passatempos mais apreciados pela garotada, é sem dúvida nenhuma a prática de soltar/empinar pipas, também conhecida em algumas regiões do Brasil por outros nomes, como: papagaios, pandorgas, pepetas ou raias. O céu fica multicolorido, notavelmente devido à presença dos artefatos feitos de papel das mais variadas cores, tamanhos e modelos.
Existe um tipo de competição que é praticada por grande parte dos adeptos de empinar pipas: trata-se de “cortar” a pipa do outro competidor. Para isso torna-se necessário preparar a linha que empina a pipa. O método utilizado pela maioria dos competidores é bastante simples: tritura-se vidro, deixando-o em forma de pó e acrescenta-se cola de madeira já preparada, formando assim uma pasta que será passada em toda a extensão da linha. Essa pasta recebe o nome de “cerol”. Agora é só esperar secar e ver se a cola aderiu firmemente à linha e testar se a mesma tem alto poder cortante. Fazem-se alguns testes com outras linhas antes de se empinar a raia para, então, participar do torneio. Ganha aquele que conseguir cortar a maior quantidade de raias.  Quem traz a raia “enroscada”, para junto de si, logo após cortá-la, procedendo ao enrolamento da linha no carretel, que muitas vezes é substituído por uma lata de leite vazia, consegue uma posição de status melhor que os demais.
As técnicas para lograr êxito na competição são as mais variadas: Lancear por cima e “embiocar”, ou seja, descer de bico e ir soltando mais linha rapidamente até tocar a outra linha e cortá-la, pois este movimento age tal qual uma lâmina afiada que, dificilmente não mandará a outra pipa pelos ares. Outra variante é colocar-se por baixo da linha do oponente e dar um puxão na pipa fazendo com que a mesma suba rapidamente até encostar-se à linha e soltar bruscamente o fio cortante, que agirá como uma afiada lâmina de navalha. Existe também a modalidade de “pegar pelo rabo” e tantas outras variações que a imaginação permitir se faça.
 Embora seja proibido em muitos municípios brasileiros e até passível de punição usar “cerol” nas linhas que empinam raias, essa medida não é obstáculo aos amantes deste tipo de competição, já que não respeitam as leis que visam proteger os próprios participantes da brincadeira como os transeuntes que circulam pelas ruas e avenidas fazendo uso de ciclomotores, de vez que, sendo muito fina, a linha não é percebida pelos motociclistas, que são surpreendidos pelo fio cortante que geralmente alcança a altura do pescoço. As estatísticas demostram que inúmeros acidentes são provocados pelo uso do “cerol”, havendo, inclusive, registro de vítimas fatais.
Naquela tardinha ensolarada, quando retornava do trabalho um pouco mais cedo, ao passar por um terreno baldio de esquina com a rua em que moro, vi Felipe, um garoto que sofre de deficiência motora, causada por complicações cerebrais, que, no entanto, não o impede de realizar algumas tarefas, embora precise de cadeira de rodas para se locomover.
Estava em sua inseparável cadeira de rodas, acompanhado de seu pai. Observei que ele encontrava-se empinando uma raia e fiquei admirado com a alegria estampada em seu rosto. A dificuldade em segurar o carretel de linha era minimizada pelo auxílio prestado por seu genitor.
- Brincando de soltar raia, né Felipe? Falei.
Ele olhou para o lado, e soltando leve sorriso balbuciou algo como a dizer: não está vendo?
Conversando com seu pai fiquei sabendo que o sonho dele era soltar pipa, então ele o levou para realizar seu desejo.
Olhando atentamente para o céu pude notar a presença de mais duas pipas, e disse:
- Cuidado para não cortarem a sua raia, tem outras duas lá em cima.
O pai de Felipe me assegurou que as outras duas raias eram de dois amigos dele de sala de aula, e eles não estavam utilizando “cerol”, o que queriam mesmo era divertirem-se, vendo lá no alto, as raias livres para voarem de um lado para o outro.
- Ah, se todos que empinam pipas tivessem consciência de que o uso de “cerol” é proibido, muitos acidentes seriam evitados, inclusive o de se cortar com a própria linha. -Falei, despedindo-me dos dois, descendo rua abaixo e pensando comigo mesmo:
“Talvez Felipe, no seu inconsciente, se visse voando tal qual àquelas raias e se imaginasse livre da cadeira que o aprisionava”. 



                             Otaviano Maciel de Alencar Filho

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Nino e Nina, metades eternas




Em uma fábrica de meias, vários caixotes saiam deslizando sobre as esteiras rolantes que davam acesso aos veículos que despachariam os pedidos dos clientes para as mais variadas lojas das grandes cidades.
No interior de um desses caixotes estava um par de meias de listras azuis. Chamavam-se respectivamente: Nino e Nina! E a partir do momento mágico da confecção de ambos, apaixonaram-se e decidiram jamais se separarem.
O caminhão saiu para despachar os pedidos, e, após algumas horas, estacionou em frente a uma grande loja do setor varejista. Os funcionários, então, efetuaram a entrega da encomenda e seguiram adiante, para fazerem a entrega dos outros pedidos. Nesse caixote estavam Nino e Nina.
- Chegamos. – Disse Nina.
- Sim, a partir de agora é só aguardarmos a criança que irá nos usar para agasalhar os seus pezinhos. – Falou Nino.
Instantes depois entrou na loja uma senhora de mãos dadas a um garotinho aparentando sete anos de idade. Eles caminharam para o departamento de cama, mesa e banho, seguindo até o setor onde se encontravam as meias. O garotinho, ao ver o par de meias com listras azuis, pediu para que sua mãe o comprasse.  A mãe atendeu ao pedido do filhinho, que ficara embevecido com o par de meias.
Assim que chegaram a casa, o garotinho foi logo calçando as meias. Sua mãe logo lhe advertiu, explicando que elas eram para serem usadas em momentos especiais e não no dia a dia. O garotinho obedeceu a sua mãe, contudo fez um pedido:
- Mamãe, posso usá-las para ir à escola? – Perguntou apreensivo.
- Pode sim, filho. Mas só por um dia!  - Respondeu a matrona, orgulhosa do rebento. Agora, guarde-as em lugar apropriado.
O pequenino foi até seu quarto e, abrindo a gaveta de pequena cômoda, colocou-as, bem dobradinhas, embaixo de outras roupas que lá estavam.
- Pronto, meu amor, agora seremos muito felizes junto com essa amável criança. - Disse Nino, muito alegre.
Logo anoitecera e, em chegando a hora de dormir, o pequenino tratou de ir para a cama, já pensando em usar as meias no dia seguinte, quando fosse para a escola.
O dia raiara com esplêndido sol. O menino levantou, tomou um banho, serviu-se do café matinal e foi vestir-se para ir à escola. Pegou as meias e as calçou.
 Chegando à escola, todos notaram as meias que ele estava usando e acharam elas muito bonitas.
Nina ficou bastante jubilosa com a atenção que era dispensada a ela e a Nino.
- Falei para você que seríamos muito felizes. – Falou Nino.
                  Na hora do recreio, quando brincava de futebol com os coleguinhas, tropeçou em uma pedra afiada, vindo a rasgar a meia do pé esquerdo. O garotinho ficou muito triste e voltou para a sala de aula permanecendo desapontado consigo mesmo até o término da aula.
                  Quando chegou a sua casa, contou o ocorrido para sua mãe, que tratou de consolá-lo, garantindo o imediato conserto da meia danificada, enviando-a a uma costureira.
                  - Nino... Não fique preocupado, logo você estará recuperado.
- Sei disso Nina, mas não consigo ficar longe de você por muito tempo.
Uma semana se passou sem que Nino retornasse da oficina de costura. O garotinho não era mais o mesmo, andava triste, não jogava futebol, as tarefas escolares que deviam ser realizadas em casa, não estavam sendo concluídas. Os meninos da escola perguntavam pelas meias listradas, e ele triste, dizia que a meia rasgada estava na costureira para ser consertada.
No início da semana seguinte, o menino pergunta para sua mãe:
- Mamãe, quando minha meia listrada vai ficar pronta?
- Filho, hoje irei à casa de D. Antônia e certificar-me-ei se a mesma já efetuou o reparo. Provavelmente quando você chegar da escola, sua querida meia já estará aqui em casa - Respondeu a atenciosa genitora.
O pirralho, contente, foi para a escola e contou para seus amiguinhos que sua mãe fora buscar a meia na costureira e no outro dia ele já estaria calçado com elas.
Depois da aula, quando chegou a casa, ficou emocionado quando viu em cima de sua cama o par de meias, dobradinhas e com um aroma agradável. Pegou a meia que estava com defeito e observou que estava “novinha em folha”. Foi até a cozinha, deu um forte abraço em sua mãe e disse:
- Muito obrigado, mamãe. Posso usá-las agora, para “matar” a saudade?
- Claro, mas daqui em diante tenha mais cuidado para não furá-las novamente!
Enquanto isso, no quarto outra conversação estava acontecendo:
- Nino, agora voltaremos a ser felizes novamente!
- Sim, querida, estaremos juntos até nossa velhice... Até a eternidade! 



                                   Otaviano Maciel de Alencar Filho

Mentiras e mais mentiras

                                         Atualmente vemos ordinariamente na imprensa escrita assim como nas mídias digitais, infor...