sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Águas passadas



Há anos não se registrava um período de estiagem tão longo, tal qual o que estamos vivenciando atualmente no Brasil. No ano que se inicia, ocorre o centenário de uma das maiores secas que o nordeste brasileiro já enfrentou: A seca verificada no início do século XX, mais precisamente no ano de mil novecentos e quinze, e que ficou conhecida como a “Seca do XV”. De lá para cá políticas públicas de combate aos longos períodos sem precipitação pluviométrica foram implantadas, sem, contudo, surtirem efeitos duradouros e desejados. As mudanças e as melhorias alcançadas visaram, apenas, amenizar o sofrimento do povo que habita os locais tórridos, sofridos pela ação causticante do sol. Nunca houve a preocupação de sanar definitivamente esta situação. Os governos, visando tão somente o viés político interesseiro, aliado a expansão capitalista, executada de forma equivocada, tendo como finalidade última a obtenção de lucros, baseada na ”lei” da demanda e da oferta, situaram cada vez mais a população numa posição subalterna às exigências econômicas do mercado.
A indústria da seca, por muitas décadas, teve o seu ”livre mercado” estabelecido à custa do sofrimento de milhares de nordestinos.
As regiões nordeste e sudeste, esta última, que historicamente não tem registrado problemas com a seca, desta feita, são as mais afetadas pela escassez de chuvas que insiste em castigar o solo, fazendo com que a terra se torne cada vez mais árida, provocando a diminuição nos níveis de água nos reservatórios que compõem o sistema de abastecimento de água de estados como: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais que compõem o maior parque industrial brasileiro. Vemos hoje os setores políticos preocupados com uma possível recessão na economia, provocada pela falta deste precioso líquido que tem papel preponderante na economia da nação, caso não venha a chover satisfatoriamente nas cabeceiras dos rios que abastecem o conjunto de lagos e lagoas responsáveis pelo provimento de água nas regiões afetadas.
A população aumentou, e com ela um crescimento das necessidades humanas. Em contra partida os recursos naturais são escassos e limitados e estes fatores não têm sido levado em consideração por grande parte da população. Porém as técnicas de captação, produção, uso, armazenamento, transporte e manipulação deste bem de consumo, aliada ao desenvolvimento sustentável alcançaram um patamar que não justifica um provável racionamento de água a se enfrentar nos próximos anos, segundo previsões de alguns especialistas no assunto. As políticas públicas, relativas ao abastecimento de água, desdenharam as prospecções indicadas pelos órgãos responsáveis pela meteorologia e monitoração dos recursos hídricos.
Foi-se o tempo em que as pessoas, habitantes dos grandes centros urbanos, não tinham preocupação mais severa em relação ao uso e consumo inadequado da água.  Muitos acreditavam que “seca” era problema de nordestino, e talvez por isso, ainda, não se deram conta de que se faz urgente uma mudança de postura cultural em relação ao crescente desperdício de água tratada, pois a cada dia que se passa rios, lagoas, lençóis freáticos estão sendo contaminados, deixando a água doce imprópria para o consumo, ficando, nós, cidadãos, dependentes de indústrias que comercializam água engarrafada, vendendo-a a preço de ouro e que proliferam, tais quais bactérias, por todo o território nacional.
Não devemos compactuar, ainda que inconscientemente, com um sistema comercial escravagista nefasto que despreza elementares conceitos de moral e ética.
Nossa cidadania deve ser exercida cumprindo nossos deveres e reivindicando nossos direitos, junto àqueles que elegemos para estarem na direção- mor de nosso país.
Simples ações cotidianas como deixar o registro aberto enquanto se lava o carro ou a calçada, tomar banho demorado, escovar os dentes deixando a torneira vazar água, etc. são suficientes para agravarem cada vez mais a situação que ora estamos vivenciando. Contudo, essas medidas em nada surtirão efeitos se os grandes grupos agroindustriais não fizerem sua parte, afinal, este é um dos setores da economia que mais desperdiça água nos processos produtivos. Um antigo adágio popular apregoa que “de grão em grão a galinha enche o papo”, no caso em questão caberia este: “com a torneira aberta pingando, um dia por água estaremos mendigando”.
Nossos netos, bisnetos, enfim, toda a geração que nos sucederá não poderá ser penalizada por um erro que venhamos a cometer no presente.
Seria um pesadelo, se no futuro, durante um trabalho árduo, na rua, sob um sol escaldante, na busca do sustento da família, o catador de matéria prima para reciclagem, exausto e sequioso, tivesse de pagar por um copo de água, de vez que o líquido se tornara raro e precioso, de valor extremamente alto. Então não veríamos mais gestos de solidariedade destacados em uma conversa fraternal entre duas pessoas:
- Senhor, aceita um copo de água?
- Sim, muito obrigado!
O discurso amistoso e cordial, não seria mais possível e talvez ensejasse um detestável colóquio, do tipo:
- O senhor poderia arranjar-me um copo de água, por favor?
- O senhor... Tem como pagar?



                                           Otaviano Maciel de Alencar Filho
                         (Copyright© 2015 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

De sonho a pesadelo


O sonho de todo apostador de jogos de azar é um dia “tirar o pé da jaca”, e esse desejo, em alguns casos, torna-se obsessivo, levando o indivíduo a não ter outra meta que não seja viver apostando, na esperança desse dia chegar. Mesmo sabendo que as chances são mínimas algumas pessoas não se importam com esse fato.
Josimar era um sujeito que se enquadrava nesse perfil: Homem sonhador e esperançoso de um dia ficar rico com o dinheiro que ganhasse nos jogos que realizava. Além de exímio jogador de baralho, também era “bicheiro” e mantinha uma pequena banca de jogos em uma das praças do centro da cidade. Não raro os frequentadores pediam palpites acerca do possível resultado da aposta que estavam fazendo, e é claro que ele não deixava o freguês “na mão”. Revelava os sonhos que tivera na noite anterior com bichos e números e num estranho malabarismo onírico, dava seu parecer. Coincidência ou não alguns dos apostadores, aqui e acolá, acertavam a aposta. Mas como não investiam muito dinheiro na aposta, talvez receosos de perderem o pouco que tinham, não chegavam sequer a ganhar o suficiente para pagar as dívidas que tinham e comumente apostavam novamente o dinheiro ganho. Existiam os clientes “fiéis”, aqueles que raramente não faziam sua “fezinha” diariamente. O termo “fezinha” é muito utilizado entre os apostadores e quer dizer, provavelmente: Apostar acreditando, ter fé que tudo vai dar certo, que a sorte grande vai chegar desta vez.
Josimar, por sua vez, também fazia suas apostas. Já havia ganhado alguns trocados, mas nada que garantisse a ele e sua família um futuro tranquilo sem ter de se preocupar com o futuro.
Certa vez um apostador ganhou considerável quantia de dinheiro apostando em um milhar, em sua banca. Aproximadamente três meses depois o homem retornou para fazer novo jogo.
Intrigado, Josimar perguntou ao indivíduo se ele havia aplicado o dinheiro ganho em algum negócio que lhe rendesse mais dinheiro. O homem retirou os óculos e, abaixando-se próximo de seu ouvido esquerdo disse:
- Amigo, dinheiro que se ganha em jogos de azar é dinheiro amaldiçoado, gastei tudo com mulheres e farras noites afora, só me sobrando alguns trocados que irei novamente apostar.
O bicheiro tornou a perguntar:
- Mas se o senhor perder o pouco que lhe resta, não acertando a aposta, que vai fazer?
- Dificilmente perco uma aposta. – Respondeu.
- O senhor deve contar muito com a sorte, não?
- Coragem, é isso que se deve ter.
- Coragem... Pra quê?
- Vou ter falar uma coisa, se você quiser ganhar algum dinheiro em jogo de azar tem que fazer uma “pulutrica”.
- Sei, mas dizem que isto é fazer pacto com o diabo.
- Talvez seja verdade... ou apenas crendice popular. Particularmente, nunca vi o dito cujo e como essas simpatias dão certo... eu não me preocupo com as possíveis consequências, o que quero é botar a mão na grana e me divertir.
- Mas, só por curiosidade, que tipo de simpatia tem que ser feita?
- Vejo que você tem coragem, porque se não tivesse não perguntaria. Vou então lhe dizer o que fazer. Numa sexta feira, lá pelas duas horas da madrugada, quando todos em sua casa estiverem dormindo, vá até o quintal fique totalmente despido e abrace uma árvore, pode ser um pé de cajueiro, mangueira, coqueiro. O importante é que durante todo esse tempo você não desgrude da árvore e fique em constante oração, pedindo ao “cavaleiro negro” que vem montado em um cavalo branco, que lhe traga o milhar. Dentro de aproximadamente meia hora você irá escutar uns galopes, não se preocupe é ele chegando. Logo depois se aproximará de você e irá perguntar por que o chamou, então fale que quer ver o número que ele traz estampado em seu peito. De imediato ele não o fornecerá, pois você terá de desgrudar da árvore e ir de encontro ao animal e acariciar-lhe a crina. Feito isto, se o cavalo gostar das carícias feitas tocará o solo três vezes com a pata esquerda, então o cavaleiro abrirá a jaqueta e lhe mostrará os números, caso ocorra o contrário ele imediatamente desaparecerá da mesma forma como surgiu.
- Tudo bem, como o senhor se chama? – perguntou virando o olhar para um freguês que se aproximava.
Quando Josimar retomou o olhar para o homem que lhe ensinara a simpatia, não mais o viu, sumira entre os transeuntes.
Passados alguns dias, numa sexta-feira, Josimar resolve por em prática o plano de realizar a tal “pulutrica”. Quando todos já se encontravam dormindo, levantou-se devagarinho da cama, deixando ao lado sua esposa, Severina, e caminhou até o quintal, fazendo tudo o que foi dito pelo homem que lhe ensinara a estranha simpatia.
D. Severina acordou com barulhos vindos da cozinha, procurou seu marido na cama e não o encontrando foi até lá. Chegando viu a porta dos fundos aberta e quase caiu de susto quando viu aquela cena inusitada: O marido nu agarrado no pé de coqueiro dizendo coisas sem nexo. Imediatamente, sob a luz do luar, tomou nas mãos uma vassoura que se encontrava próxima à porta e partiu para cima do esposo, acertando-lhe a moleira. O pobre coitado caiu desfalecido, acordando alguns minutos depois.
- Cabra sem-vergonha, quando tu acordar vai ouvir poucas e boas. – Disse, furiosa!
Após tudo explicado, Severino queixou-se da esposa que não lhe permitira a visualização do último número do milhar. Só conseguira enxergar os três primeiros numerais que formavam o número 666.
Quando o dia amanheceu, estando à mesa tomando o café da manhã, D. Severina contou que ao voltar a dormir sonhou com alguém que lhe indicara o numeral nove. Severino decidiu então colocar o nove no final dos números que conseguira visualizar e fazer a aposta.
No final da tarde, quando da apuração do sorteio, o milhar sorteado foi o de número 9999.
Chegando a casa, contou para a mulher e esta se mostrou pesarosa. Josimar consolou-a dizendo:
- Fique triste, não, afinal essa história de simpatia não dá certo mesmo, o único numeral que saiu foi o que tu sonhaste, os meus não saíram nenhum, viu?
- Será, homem, que com a pancada que dei na tua moleira tu não trocaste os números e passasse a vê-los de cabeça para baixo?!



                                                Otaviano Maciel de Aencar Filho

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Canto à Fortaleza





Fortaleza terra da luz e do sol,
Dos verdes mares bravios,
Dos ventos e seus assovios,
Do farol do Mucuripe!
Fortaleza dos jangadeiros altruístas,
De Dragão do Mar, o abolicionista,
Do forte de Nossa Senhora da Assunção,
De José de Alencar, o romancista!
Fortaleza bem humorada,
Hospitaleira e atraente:
Faz jus à sua gente!
Fortaleza, capital do Ceará,
De uma coisa eu tenho certeza:
Tu és bela por natureza!



Otaviano Maciel de Alencar Filho

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A Copa das Copas






Finalmente estamos às vésperas do maior evento futebolístico mundial e o Brasil o sediará pela segunda vez, a primeira vez aconteceu no ano de 1950 quando, na ocasião, a equipe do Uruguai sagrou-se campeão da competição e o Brasil ficou com a vice-liderança. Trata-se do Campeonato Mundial de Futebol, ou ainda Copa do Mundo FIFA (Fédération Internationale de Football Association), designação esta que passou a ser adotada como nome oficial da competição a partir do ano de 1994.
A FIFA foi fundada em Paris, na França, no ano de 1904. Contudo, sua sede está localizada na cidade de Zurique, na Suíça.
Nos idos de 1905, tentou-se a realização de um torneio olímpico de futebol amador entre as federações, como nenhuma delas atestou a participação junto ao comitê olímpico, o projeto foi não vingou.
Deve-se ao francês Jules Rimet a criação de uma nova modalidade de competição, não mais reconhecendo o torneio como campeonato mundial de futebol amador, pois a intenção era profissionalizar o futebol em nível mundial. No ano de 1928 foi aprovada a proposta da FIFA pela criação da Copa do Mundo e por vinte e cinco votos a favor cinco contra e uma abstenção, o projeto saiu vitorioso dando início a história das Copas.
A primeira Copa do Mundo contou com apenas treze equipes nacionais e aconteceu no ano de 1930 no Uruguai, e o mesmo sagrou-se campeão, a Argentina ficou com a vice-liderança.
Importante ressaltar que a Copa do Mundo alterna com outro grande evento desportivo: As olimpíadas que são realizadas de quatro em quatro anos. Infelizmente, nos anos de 1942 e 1946 não houve edição do torneio devido à segunda guerra mundial.
As Copas do Mundo aconteceram respectivamente nos anos de:
1930 no Uruguai, onde o dono da casa foi campeão;
1934 na Itália, onde também a dona da casa foi campeã;
1938 na França onde a campeã foi a Itália;
1950 no Brasil, e o campeão foi o Uruguai;
1954 na Suíça, e a campeã foi a Alemanha Ocidental;
1958 na Suécia, e o Brasil foi o campeão;
1962 no Chile e novamente o Brasil foi o vencedor da competição;
1966 na Inglaterra, e a dona da casa foi a vencedora;
1970 no México, e o Brasil foi o vencedor, tornando-se a primeira nação tricampeã mundial, recebendo definitivamente a taça Jules Rimet. Nesta Copa destaca-se a figura de Pelé, único futebolista a participar de três equipes campeãs de Copa do Mundo. É considerado por muitos como o rei do futebol. Também merece menção as figuras de Tostão, Gérson e Jairzinho, que contribuíram em muito para a conquista do tricampeonato;
1974 na Alemanha Ocidental, e os donos da casa ganharam o campeonato;
1978 na Argentina, e novamente os donos da casa sagraram-se campeões;
1982 na Espanha, a Itália ganha o certame e iguala-se ao Brasil em número de Copas ganhas;
1986 o México sedia a Copa pela segunda vez e a grande vencedora é a Argentina;
1990 a Itália recebe o evento pela segunda vez, e quem vence o certame é a Alemanha Ocidental, igualando em número de competições vencidas ao Brasil e Itália;
1994 os Estados Unidos recebem pela primeira vez o grande evento mundial. O Brasil vence o time italiano nos pênaltis, conquistando o tetracampeonato mundial;
1998 na França, onde também quem vence são os donos da casa;
2002 o evento é realizado em dois países: Japão e Coréia do Sul. O Brasil é vencedor e conquista o pentacampeonato mundial de futebol, distanciando-se dos demais países no número de competições vencidas.
2006 a Alemanha sedia o evento pela segunda vez, e a campeã é a Itália.
2010 é a vez de um representante do continente africano sediar uma copa, e o país que ganhou o direito de sediá-la foi a África do Sul, onde a Espanha ganha pela primeira vez uma copa Mundial.
Finalmente, nos meses de Junho e Julho de 2014 o Brasil e o mundo estarão de olhos voltados para este grande evento aglutinador de culturas que arrasta consigo um leque de oportunidades de desenvolvimento para as cidades dos países onde ele se instala. Variados setores da economia se beneficiam, direta ou indiretamente com este acontecimento, gerando mais oportunidade de emprego e desenvolvimento, onde o setor de turismo ganha grande destaque.
No setor público podemos destacar a implantação de projetos de infraestrutura urbana, tais como: Saneamento básico, mobilidade urbana, segurança pública entre outros. Isso é o que afiança os setores políticos responsáveis pelo evento e o que a FIFA exige para que o espetáculo possa ser realizado.
 Evidentemente que um acontecimento desportivo de grandes dimensões como a Copa do Mundo, onde são envolvidas grandes somas de dinheiro, os setores políticos das nações onde são realizados os eventos sofrem críticas desfavoráveis à realização dos mesmos, de vez que o governo destina grande soma de verbas na construção e/ou ampliação das arenas onde serão realizados os jogos. Os recursos financeiros poderiam ser aplicados diretamente em prol da sociedade, na construção de hospitais, escolas e creches sem ser preciso tanto “desperdício” de dinheiro na execução dessas obras monumentais, evitando o esvaziamento dos cofres públicos em detrimento de construções arquitetônicas colossais, que provavelmente só terão cem por cento de utilização no período de realização da copa.
Variadas manifestações contra a realização da Copa estão sendo realizadas em todo o país, tendo como principal argumento a corrupção que grassa os setores da política brasileira.
De qualquer forma, com o Brasil sendo o vencedor da Copa das Confederações no ano de 2013, as atenções agora se voltam para a conquista do hexacampeonato mundial de futebol da FIFA. Sendo o Brasil vencedor ou não da competição, a nação brasileira anseia por um Brasil padrão FIFA.




                           Otaviano Maciel de Alencar Filho

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Liberdade, Igualdade e Fraternidade



Versejar sobre o que penso
Às vezes me deixa tenso.
Se minha voz eles (?) podem calar,
E a ela anatematizar,
Já os meus pensamentos não podem silenciar.
Mas se grafo o meu pensar
Em páginas impressas a dispersar
Serei traído pelo impetuoso desejo de querer me expressar.
A licença poética vou usar!
Ousarei em formas diversas disfarçar
Tudo que meu ego deseje falar.
Desmascarar a hipocrisia
Aderente a várias fantasias.
Antes, porém, lutar por um ideal comum:
Liberté, Egalité, Fraternité.



Otaviano Maciel de Alencar filho

sexta-feira, 28 de março de 2014

O Irreversível





Ah! O tempo!
Pudesse ser como uma vitrola
Em que o braço controla
A faixa musical a ser ouvida.
O disco da vida poderia ser vivido novamente!
Viveria plenamente
O tempo que se evolou.
Quem dera pudesse nele voltar!
Rever afetos,
Reatar os desafetos.
Voltar a ser criança.
Viver sem preocupações.
Esquecer as ilusões,
E também as inquietações.
Tempos idos que não voltam mais!
Só a lembrança jaz.



Otaviano Maciel de Alencar Filho

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Um sonho a mais




Quando chegam os meses de Janeiro, Julho e Dezembro, período relativo às férias escolares, ruas, avenidas, praças e demais espaços públicos tornam-se mais movimentado que ordinariamente, isso se deve naturalmente devido à presença de crianças, adolescentes e jovens, que por um lapso de tempo se veem livres das salas de aulas das instituições escolares que as acolhem, no dever de dar-lhes a educação necessária, e assim prepará-los para um futuro promissor. Enquanto o futuro não chega, trazendo com ele a responsabilidade e o dever de conseguir um emprego, que na maioria dos casos toma quase todo o tempo de nossas vidas, por que não aproveitar esses meses de folga para se divertir a vontade?
Um dos passatempos mais apreciados pela garotada, é sem dúvida nenhuma a prática de soltar/empinar pipas, também conhecida em algumas regiões do Brasil por outros nomes, como: papagaios, pandorgas, pepetas ou raias. O céu fica multicolorido, notavelmente devido à presença dos artefatos feitos de papel das mais variadas cores, tamanhos e modelos.
Existe um tipo de competição que é praticada por grande parte dos adeptos de empinar pipas: trata-se de “cortar” a pipa do outro competidor. Para isso torna-se necessário preparar a linha que empina a pipa. O método utilizado pela maioria dos competidores é bastante simples: tritura-se vidro, deixando-o em forma de pó e acrescenta-se cola de madeira já preparada, formando assim uma pasta que será passada em toda a extensão da linha. Essa pasta recebe o nome de “cerol”. Agora é só esperar secar e ver se a cola aderiu firmemente à linha e testar se a mesma tem alto poder cortante. Fazem-se alguns testes com outras linhas antes de se empinar a raia para, então, participar do torneio. Ganha aquele que conseguir cortar a maior quantidade de raias.  Quem traz a raia “enroscada”, para junto de si, logo após cortá-la, procedendo ao enrolamento da linha no carretel, que muitas vezes é substituído por uma lata de leite vazia, consegue uma posição de status melhor que os demais.
As técnicas para lograr êxito na competição são as mais variadas: Lancear por cima e “embiocar”, ou seja, descer de bico e ir soltando mais linha rapidamente até tocar a outra linha e cortá-la, pois este movimento age tal qual uma lâmina afiada que, dificilmente não mandará a outra pipa pelos ares. Outra variante é colocar-se por baixo da linha do oponente e dar um puxão na pipa fazendo com que a mesma suba rapidamente até encostar-se à linha e soltar bruscamente o fio cortante, que agirá como uma afiada lâmina de navalha. Existe também a modalidade de “pegar pelo rabo” e tantas outras variações que a imaginação permitir se faça.
 Embora seja proibido em muitos municípios brasileiros e até passível de punição usar “cerol” nas linhas que empinam raias, essa medida não é obstáculo aos amantes deste tipo de competição, já que não respeitam as leis que visam proteger os próprios participantes da brincadeira como os transeuntes que circulam pelas ruas e avenidas fazendo uso de ciclomotores, de vez que, sendo muito fina, a linha não é percebida pelos motociclistas, que são surpreendidos pelo fio cortante que geralmente alcança a altura do pescoço. As estatísticas demostram que inúmeros acidentes são provocados pelo uso do “cerol”, havendo, inclusive, registro de vítimas fatais.
Naquela tardinha ensolarada, quando retornava do trabalho um pouco mais cedo, ao passar por um terreno baldio de esquina com a rua em que moro, vi Felipe, um garoto que sofre de deficiência motora, causada por complicações cerebrais, que, no entanto, não o impede de realizar algumas tarefas, embora precise de cadeira de rodas para se locomover.
Estava em sua inseparável cadeira de rodas, acompanhado de seu pai. Observei que ele encontrava-se empinando uma raia e fiquei admirado com a alegria estampada em seu rosto. A dificuldade em segurar o carretel de linha era minimizada pelo auxílio prestado por seu genitor.
- Brincando de soltar raia, né Felipe? Falei.
Ele olhou para o lado, e soltando leve sorriso balbuciou algo como a dizer: não está vendo?
Conversando com seu pai fiquei sabendo que o sonho dele era soltar pipa, então ele o levou para realizar seu desejo.
Olhando atentamente para o céu pude notar a presença de mais duas pipas, e disse:
- Cuidado para não cortarem a sua raia, tem outras duas lá em cima.
O pai de Felipe me assegurou que as outras duas raias eram de dois amigos dele de sala de aula, e eles não estavam utilizando “cerol”, o que queriam mesmo era divertirem-se, vendo lá no alto, as raias livres para voarem de um lado para o outro.
- Ah, se todos que empinam pipas tivessem consciência de que o uso de “cerol” é proibido, muitos acidentes seriam evitados, inclusive o de se cortar com a própria linha. -Falei, despedindo-me dos dois, descendo rua abaixo e pensando comigo mesmo:
“Talvez Felipe, no seu inconsciente, se visse voando tal qual àquelas raias e se imaginasse livre da cadeira que o aprisionava”. 



                             Otaviano Maciel de Alencar Filho

Mentiras e mais mentiras

                                         Atualmente vemos ordinariamente na imprensa escrita assim como nas mídias digitais, infor...