Valter e Jane formavam um casal que poderíamos
designar de “perfeito”. A identidade de gostos e o respeito mútuo
que havia entre os dois não permitiam especulações daninhas por
parte de pessoas inescrupulosas que vivem falando mal da vida
alheia. A união matrimonial, que chegara às bodas de ouro,
reforçava cada vez mais o comprometimento assumido décadas atrás.
Cinco décadas de dedicação e renúncia de ambas as partes
indicavam que o caminho a ser trilhado por todos os casais que
almejam um relacionamento tranquilo e sem dissabores, é árduo. O
amor existente entre os dois não se ressentia do ciúme doentio, que
avassala grande parte dos corações enamorados. A cumplicidade
afetiva tornava-os “um só”.
Certo dia, demonstrando
forte emoção, Jane dirigiu
a Valter palavras que carreavam profundo sentimento de amor e
renúncia:
- Querido, já faz cinquenta anos que estamos casados e
não somos mais aqueles jovens de outrora, cheios de vivacidade,
daqui a alguns anos, mais cedo ou mais tarde deixaremos o nosso mútuo
convívio, indo habitar outros planos existenciais, e se existe
oportunidade de vivenciarmos novamente a experiência em novo corpo,
após esta existência, tal qual apregoa as doutrinas
reencarnacionistas, rogarei a Deus a oportunidade de estar novamente
ao seu lado.
Dos olhos de Valter, lágrimas foram vertidas e rolaram
sobre a face marcada pelas rugas adquiridas pelo tempo, ao mesmo
tempo em que agindo tal qual criança balbuciava palavras trêmulas,
manifestando o seu temor por revelação tão inusitada.
- Suas palavras estão me deixando preocupado, por que
essa conversa tão repentina?- Indagou.
Neste instante os olhos de Jane marejaram, e com embargo
na voz, acentuou:
- Meu amado, devemos estar preparados para tudo nesta
vida, não sei como explicar, contudo o amor que nos une não me
permite deixar de agir com sinceridade para contigo. Faz algumas
semanas que me sinto estranha, como se aos poucos minha vitalidade
estivesse esvaindo-se.
- Não fale assim, Jane. Você está muito cansada. Vá
deitar um pouco e quando acordar iremos passear no bosque, à
tardinha! – Disse ele, beijando-lhe a fronte.
Passadas algumas horas, Valter dirigiu-se ao quarto e se
deparou com um quadro estarrecedor: Sua amada encontra-se inerte sob
os lençóis. Desesperado, tenta reanimá-la. Foram inúteis as
tentativas. Neste momento chega Dona Anália, vizinha e amiga do
casal, fazendo esforço para acalmar o cônjuge inconformado. Os
filhos foram avisados do acontecimento trágico e tomaram as
providências necessárias. Nada mais podia ser feito a não ser
levar a vida adiante. Valter aceitou o convite de sua filha e foi
morar com ela, o genro e dois netos.
A vida estava retornando à normalidade, quando outro
episódio trágico assolou a família: Valter sofreu um infarto do
miocárdio, e não resistindo, veio a falecer numa manhã de
primavera.
No início dos anos oitenta, em um baile comemorativo de
conclusão de curso universitário, dois jovens, amigos de infância,
entabulam conversa animada:
- Eduardo, meu amigo, como está a
vida afetiva, já se “amarrou”
em alguém?
- Que conversa é essa Guilherme, esse negócio não
é pra mim. Ainda não encontrei a minha outra
metade! Sabe, né?!
Nesse ínterim, uma bela moça se aproxima dos dois, era
Renata, uma garota que estava “ficando” com Guilherme, e
abraçando-o, exclama:
- Que bela amizade existe entre vocês, sempre que os
vejo estão juntos, sinto até inveja, afinal o Dudu passa mais tempo
com você, que você comigo! – Falou, soltando um sorriso maroto.
- Não precisa ficar com ciúmes Renata, afinal, nós
três somos amigos desde a infância. - Retrucou Eduardo.
- Humm! Tomara!
A verdade é que Renata sabia da preferência
sexual de Eduardo por
companhia do mesmo sexo, e isso às vezes a
incomodava, mesmo sabendo que Guilherme
não compartilhava da opção sexual de seu
amigo. Mas Eduardo
não dava trégua, estava
sempre presente no lugar em que ela e Guilherme
estivessem.
O relacionamento de amizade entre os dois vinha desde a
infância, quando a família de Guilherme foi morar em uma casa
próximo a de Eduardo. Desde a infância Eduardo demonstrava aptidão
aos afazeres direcionados preferencialmente ao sexo feminino, o que
foi se acentuando na adolescência, chegando à juventude. Esse modo
de viver de Eduardo nunca o incomodou. O que Guilherme apreciava no
amigo, era exatamente o respeito dispensado por ele. Nunca, em algum
momento, ele se insinuou, faltando-lhe com o devido respeito.
Eduardo, porém, sofria muito, pois ele sentia pelo amigo mais que
uma simples amizade, contudo guardaria consigo todo este sentimento
atroz.
No Final do ano de 1982 Eduardo sofreu um acidente
automobilístico e ficou meses em coma, em um leito de hospital.
Guilherme e Renata passaram a fazer vigílias no hospital,
acompanhando o amigo. Já fazia seis meses e duas semanas e nada de
Eduardo dar sinais de saída do estado de inércia, quando, de
súbito, ele começou a falar com muita dificuldade frases
desconexas:
- Valter, meu amor onde está você. Procuro-o e não o
vejo. Sinto você perto de mim, mas onde?
- Eduardo, pode ouvir-me? – Perguntou Guilherme.
- Não me chamo Eduardo, sou Jane e onde está Valter?
Os dois entreolharam-se, sem entenderem
o que se passava. Chamaram o médico de plantão
e relataram o acontecido. O profissional tranquilizou-os, afirmando
que os pacientes que se encontram neste estado têm
alucinações, pois o cérebro está em total desarranjo.
- Entretanto, o
mais importante é
que o paciente está dando sinais de recuperação!
– Acentuou o médico.
Passados dois meses depois deste acontecimento, Eduardo
já se encontrava em seu apartamento, em pleno restabelecimento de
sua saúde.
No final dos anos oitenta Guilherme
e Renata contraíram
matrimônio. Eduardo e
Márcia, amiga do casal,
foram os padrinhos de
casamento.
Eduardo continua solteiro. A amizade com Guilherme e
Renata ficou ainda mais sólida. Com certeza eles formam uma
verdadeira família, com sentimentos baseados na lei de amor,
fraternidade e solidariedade!
Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 2012 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

Nenhum comentário:
Postar um comentário