Vida difícil a de quem tem que pegar transporte coletivo
todos os dias para ir trabalhar. Será que alguém ainda tem dúvidas a respeito
dessa afirmativa? Acredito que não! Mesmo assim, deixo margem a quem quer que
queira para discordar do que acabo de afirmar. Sou catedrático nesse assunto.
Espere um momento! Acho que falei o que não devia, ou melhor, escrevi o que não
queria. Não, pensando bem fui um tanto egoísta quando afirmei ser um
‘catedrático no assunto’, dando a interpretações diversas o que acabei de
afirmar. Afinal de contas, somos, nós, milhões de brasileiros, usuários do
sistema de transportes coletivos urbanos, seja ele público ou de concessão à
iniciativa privada, experientes nesse setor, quando o assunto é a dificuldade
de se tomar um ônibus, um trem, uma van, uma topic, etc. Filas enormes nos
terminais de integração . Isso sem falar na volta para casa depois de um dia de
trabalho estafante.
Ônibus lotado. Sequer dava para respirar!
De pé, logo ali, um pouco afastado do assento do motorista,
eu me encontrava nessa situação. O vai e vem do coletivo, causado pelas freadas
bruscas efetuadas pelo condutor do veículo, dava a impressão que estávamos nós,
passageiros, todos em um desses brinquedos que a gente encontra nos parques de
diversões. Sentados na cadeira ao meu lado, se encontravam dois jovens rapazes,
aparentando uns vinte e poucos anos de idade. Ao meu lado, também em pé, estava
uma senhora, que pela aparência física denotava ser uma pessoa de idade
avançada. Muito natural, portanto, que um dos rapazes oferecesse o lugar para a
distinta senhora se acomodar e sair do aperto em que se encontrava. E foi o que
aconteceu.
Não imaginava, porém, que a partir daquele momento fosse ser
travado um diálogo dos mais inusitados já presenciados por mim, dentro de um
coletivo. Já acomodada na cadeira, a senhora sentiu-se mais aliviada. O jovem
sentado à seu lado, deixando transparecer que estava sentindo um odor nada
agradável, fazia gestos para o colega que agora estava de pé. A senhora
percebera que a atitude tomada pelo mesmo, tinha algo a ver com ela. No
entanto, o moço não contendo a insatisfação de ter que suportar algo tão
desagradável, desabafou:
- Não é possível que as pessoas não tomem um banho antes de
adentrarem em um coletivo para voltarem as suas casas. Deveriam no mínimo
usarem esses desodorantes de rolo! São tão baratos!
Falando, desse modo, se eximia da responsabilidade de estar
direcionando sua insatisfação à senhora, e sua queixa, dessa forma, seria
direcionada a qualquer um que se visse incomodado com seus reclames. Contudo, a
senhora notara a malícia contida nas entrelinhas de seus queixumes.
- Tem gente que sequer ganha o suficiente para se alimentar,
– Disse ela, tentando por um fim na conversa. Não suspeitava ela, que o embate
apenas começara.
Não tem jeito mesmo, quando se trava uma discussão, cada
parte envolvida não mede esforços na tentativa de provar que está com a razão.
E eu, no meu lugar, sem levantar um pé, para não correr o risco de quando
quiser colocá-lo no local novamente, pisar em cima de outro, já colocado no
lugar em que o meu estava anteriormente!
O moço, agora, já não podia mais esconder que estava se
referindo a ela, e disse:
- Por menor que seja o salário recebido por alguém, é
inadmissível que não se possa comprar um rolinho de desodorante!
- A culpa é do governo que determina uma miséria de
"salário mínimo" a ser pago ao trabalhador... Mesmo assim, um mal
cheiro a mais ou a menos não faz diferença para quem não tem condições de
comprar nem o que comer. – Desabafou a senhora.
- Então, a senhora não gosta do que faz?
- Não considero justo o quanto ganho. Acho injusto passar o
dia inteirinho dando de tudo, para no final do mês receber uma miséria de
salário.
- A senhora acredita em Deus?
- Claro!
- Então! E na Bíblia?
- Não do jeito que muitos creem! O que a bíblia tem a ver
com isto?!
- Ué, nos ensina a suportar as dificuldades que a vida nos
impõe. A Bíblia é a palavra de Deus!
- Como crer integralmente em algo que foi escrito por mãos
humanas, que não raro sofreu intervenção por parte de quem escreveu algumas de
suas passagens. É verdade que eu creio em Deus, e que na Bíblia existem muitas
verdades e virtudes, isso é o que me interessa. Do que adianta andar com o
livro sagrado debaixo do sovaco e não ser solidário para com o próximo?
- Mas quem faz isso prestará contas com Deus no dia do juízo
final! – Insistiu o rapaz!
O diálogo foi, cada vez mais, ficando acalorado, e confesso,
estranhei que com tanta gente dentro do coletivo ninguém interviesse no
assunto.
E onde foi parar a celeuma em torno do mau cheiro?
Sinceramente, não sei, pois o ponto em que devia descer já
estava próximo, e fui me adiantando até a porta de descida do ônibus. Desci.
Dei graças a Deus! Só posso dizer que desse acontecimento tirei mais uma lição
de vida: Não podemos forçar ninguém a mudar de comportamento e muito menos aceitar
nosso ponto de vista acerca do que temos como verdadeiro. Só o tempo dirá se
estamos ou não com a razão.
Otaviano Maciel de Alencar Filho
Otaviano Maciel de Alencar Filho
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