A garotada
eufórica brincava animadamente em frente as suas residências. O período
matutino, agraciado pela brisa advinda do litoral, era propício a realização de
brincadeiras que exigiam maiores esforços físicos, como: esconde-esconde e
pega-pega.
Antonino, o
caçula da turma, encontrava dificuldades em correr, pois não contava com a
habilidade da qual seus coleguinhas eram portadores, uma vez que sofria de uma
deficiência na perna direita, devido a uma fratura femoral adquirida, por
ironia do destino, em um desses momentos de diversão entre os amigos.
Enquanto suas
mães, rendeiras, sentadas na calçada, teciam os fios de algodão, na confecção
de roupas e toalhas das mais variadas espécies, seus esposos, pescadores,
despediam-se, indo de encontro ao mar, na busca do sustento para a família.
Antonino ao
ver o pai passando por ele, com a rede de pesca sobre os ombros, falou:
- Pai, vê se
dessa vez traz pra mim um peixe bem “grandão”.
- Tudo bem,
filho. O mar desta vez está prá peixe! – Respondeu, sorrindo.
- Não precisa
ficar preocupado guri, afinal não é a toa que teu pai é apelidado de “Zé do
Peixe” - Falou Antonio, tio do menino, tranquilizando-o.
As embarcações
já os esperavam na praia. O encontro com os outros pescadores foi animado.
Antes de
adentrarem nas embarcações, deram-se as mãos, e fizeram sentida oração, pedindo
a proteção de São Pedro, padroeiro dos pescadores.
As balsas
singraram o mar, deixando para trás familiares e amigos dos aventureiros
marítimos, que foram até a praia despedirem-se.
Após algumas
horas, já em alto mar, as jangadas afastam-se, cada qual indo a direções
diferentes, para logo lançarem as redes ao mar, na esperança de que ao serem
recolhidas, estas estejam repletas de peixes.
A Jangada em
que Zé do Peixe estava era compartilhada por Antonio e seu filho. Eles haviam
lançado as redes mar adentro algumas vezes, no entanto, nada de peixes em
quantidade, apenas algumas lulas, e uma espécie de peixe sem grande valor
comercial. A noite sucede o dia e a tarefa dos pescadores continua em plena
execução. A escuridão da noite somente é diminuída devido à luz da lua e das
estrelas, além de pequeno candeeiro utilizado para iluminar o ambiente em que
se encontravam.
Zé do Peixe acorda
com seu irmão que irá tirar um cochilo, enquanto ele e seu filho ficam atentos
as ocorrências na jangada, e que logo depois será a vez de outro descansar um
pouco.
Recostando a
cabeça próximo a um samburá, Zé logo adormece... E sonha...
- “Vamos
pessoal, deixem de moleza, não é todo dia que aparece um grandão desses, não!
Mais para o lado. Joguem a rede para cá, rápido. Pegamos, pegamos, é isso
pessoal. Vamos, puxem a rede. Força. Este é dos grandes! Vixe Maria, é muito
grande, não vai dar para colocar na jangada. Segurem com força que ele ta
querendo escapar. Ah, mas não vai escapar mesmo! Não adianta se debater, você
não vai fugir. Ai, danado, solta a minha mão. Corre Tonho, vem me ajudar a
soltar minha mão da boca deste “peixão”. Estamos afundando, valha-nos São
Pedro.”
- Acorda Zé.
Tu estás tendo um pesadelo, homem. – Disse Antonio, tentando acalmar o irmão
que se debatia em agonia.
Ainda sem
recobrar a lucidez, Zé inquire:
- O que
aconteceu. Cadê o “peixão”, para onde ele foi?
- Calma Zé.
Você teve um pesadelo, só isso!
Sentindo
desconforto em uma das mãos que estava dentro do bolso do agasalho que estava
vestindo, Zé puxou a mão de dentro da blusa e a retirou junto com um peixe que
estava agarrado nela. Talvez tenha pulado para fora do samburá, indo encontrar
alojamento dentro de suas roupas!
- Zé, um
peixinho como este fez tudo isso com você, imagine um “grandão? – Falou o irmão,
caçoando do pobre infeliz.
- Não brinca
Tonho. Vai ver foi um aviso. Já estou bem. Vamos continuar o trabalho. Alguém
quer descansar um pouco? - Perguntou.
Pai e filho
responderam - Não, não estamos com sono!
- Então, mãos
a obra. Redes para o lado direito. - Finalizou.
Assim foi
feito, e ao puxarem a rede, que surpresa! A rede veio abarrotada de peixes e entre eles
um “grandão” veio junto. A alegria tomou conta geral. Novamente as redes foram
lançadas e mais peixes foram apanhados.
Já amanhecia e
enquanto preparavam o retorno a praia, Zé, meio sem jeito, pediu para que não
comentassem sobre o episódio do pesadelo, afinal não ficava bem um pescador tão
respeitado ter dado um vexame destes.
- Por que a
preocupação, Zé? Mesmo que esta história escape, sem querer, nos botecos da
vida, enquanto jogamos conversa fora, quem vai acreditar? Vão dizer que é
história de pescador! – Falou Antonio, sorrindo e abraçando o irmão.
Otaviano Maciel de Alencar Filho
Otaviano Maciel de Alencar Filho
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