O som
emitido pela sirene anunciava o fim do expediente. A turma que trabalhava no
setor de controle de estoque aguardava ansiosamente o momento em que o gerente
caminhava até o local onde estava instalado o dispositivo que acionava o
estridente artefato sonoro.
O
motivo de tamanha expectativa se dava por ser final de semana: sexta-feira, dia
de “curtição”. Formávamos um grupo de pessoas e íamos até o centro da
cidade, onde ficavam localizados alguns bares e casas de espetáculos de humor.
Para ser mais preciso, o nosso ponto de encontro era o antigo calçadão C.
Rolim, referência feita ao conjunto de lojas de calçados e confecções, de
propriedade do grupo C. Rolim onde eram realizadas as apresentações artísticas.
As
calçadas ficavam lotadas de mesas e cadeiras, que eram colocadas pelos
comerciantes, na busca de ganharem a preferência dos frequentadores do local
nos finais de semana.
Em
meados da década 1980, era comum a apresentação de humoristas cearenses, que
estavam iniciando suas caminhadas rumo ao estrelato, em praças públicas,
calçadas ou qualquer outro lugar onde houvesse aglomeração de pessoas.
Cantores, humoristas, palhaços, prestidigitadores e outros artistas faziam suas
apresentações e, naturalmente, eram ovacionados pelo publico presente.
Naquela
sexta-feira deixamos o local de trabalho, e contentes por haver chegado mais um
final de semana, caminhamos até o ponto de ônibus mais próximo comentando sobre
as atrações que logo mais iríamos assistir. A programação desta sexta-feira
contava com a apresentação humorística de vários artistas da terra. O coletivo
aporta, enquanto ainda falávamos sobre a diversão que iríamos ter. Adentramos o
veículo que logo seguiu rumo a Praça José de Alencar, ponto final da linha de
ônibus. Descemos e caminhamos pela Rua Guilherme rocha e no cruzamento com a
Rua Senador Pompeu decidimos dar uma passada pelas Lojas Americanas e
comprarmos algumas guloseimas
No
magazine, fomos até a seção de cereais e pegamos alguns biscoitos. Enquanto
isso, Marcio foi até a seção de perfumaria. Resolvi segui-lo. Ao chegar ao
local observei que ele estava experimentando um desodorante. Percebi que ele
estava se perfumando e aproveitando a oportunidade dos fiscais não estarem por
perto. Evidentemente sua atitude não era lícita. Mas... Quem nunca foi ao
supermercado e na seção de perfumaria não “passou” um pouquinho de loção no
punho para sentir o aroma do perfume? Pois bem, aproveitei também o “embalo” e
fui experimentando os desodorantes, sempre atento aos fiscais, pois eles não
deixavam abrir os frascos.
Num
misto de ansiedade e temor em não ser flagrado, tomei em minhas mãos um spray e
levei-o até a altura do pescoço, sempre olhando para os lados. Premi o frasco e
senti uma coisa gelada em meu pescoço. Ignorei. Afinal todo desodorante em
aerossol é “geladinho”.
Sai
do estado em que me encontrava, com meus colegas dando gargalhadas e apontando
para mim.
Quando
olhei para baixo fiquei mais apavorado do que estava: o frasco que estava em
minhas mãos não era de desodorante, mas de creme para barbear. Imediatamente
larguei-o e passei a retirar grande quantidade de espuma que se alojara sob meu
queixo descendo pescoço abaixo indo de encontro à camisa de cor vermelha que
estava usando. E agora, como sair daquele local sem ser visto. Se fosse pego
iria parar em uma saleta com uns grandalhões, levar uns bofetões e ainda pagar
pela mercadoria!
Abruptamente,
sem pestanejar, sai de “fininho”, buscando a saída, enquanto os três “amigos da
onça” continuavam a me ridicularizar. Saindo da loja fui até a Praça do
Ferreira com Jorge me acompanhando. Ficamos aguardando a chegada de Márcio e
Orlaneudo, que foram pagar os biscoitos. Enquanto isso esperava secar a mancha
branca que ficou em minha camisa.
Quando
chegaram não pararam de gozar com o acontecimento. Um tanto bravo, bradei:
–
Então não vão parar de dar risadas, afinal de contas o espetáculo é mais
adiante.
Alguns
minutos depois descemos rumo ao calçadão para ali sim, darmos boas gargalhadas.
Quando
chegamos o show já havia começado. Os comediantes animavam a platéia. O
interessante é que, sem tirar o mérito dos artistas, notei que meus colegas
nunca riram tanto quanto naquela noite. Acredito que por algum tempo eles
conservaram em suas mentes as cenas do episodio ocorrido minutos atrás.
O
importante foi que me diverti bastante... e eles mais ainda!
Otaviano Maciel de Alencar Filho
Otaviano Maciel de Alencar Filho

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