quinta-feira, 1 de março de 2018

A maldição do córrego


                




O estreito córrego que corta o bairro onde Adélia mora, no passado foi palco do surgimento de uma das histórias mais macabras que se pode imaginar: Lá pelos anos sessenta do século passado, o povo que morava às suas margens, foi surpreendido por relatos que davam conta de que em determinado trecho do riacho estava acontecendo coisas estranhas e assustadoras, e que o local era assombrado por “espíritos das trevas” que se divertiam em assustar as pessoas que passavam pelo lugar.
Quando Adélia foi morar em uma rua próxima ao córrego, no início do século vinte e um, essa história era pouco conhecida pelos atuais moradores e os poucos que a conheciam atribuíam a ela a imaginação fértil dos moradores daquele tempo. Adélia, que não era dada a superstições, ignorou a historia.
Atualmente o córrego não tem mais a abundância de água que tinha no passado e uma rua foi aberta em um de seus lados, possibilitando a passagem para outras ruas que foram abertas, dando acesso a um conjunto habitacional que foi construído às suas margens.
O vai e vem de pessoas, que circulam diariamente pelo local, não deixa dúvidas de que ali é um lugar como outro qualquer. O único inconveniente fica por conta da falta de iluminação pública que deixa muito a desejar em determinado trecho que fica rente ao ribeiro, ficando desaconselhável a passagem de pessoas durante a noite, visto que, embora não haja relatos de aparições de “fantasmas”, a ocorrência de assaltos é muito grande neste trecho, principalmente no período noturno.
Certo dia, Adélia telefonou para uma parenta sua, que morava há muitos anos no bairro, procurando saber se ela tinha um analgésico, pois estava com uma forte dor de cabeça. Eulália respondeu afirmativamente à sua consulta e que ela poderia ir busca-lo, mas tivesse muito cuidado quando passasse na rua do córrego, visto que, embora, as pessoas não estivessem falando de acontecimentos estranhos no local, ela pressentia que algo de anormal estava para acontecer a qualquer momento.
- Eu sou vacinada contra essas crendices populares, tia Eulália. Creio em Deus!- respondeu enfática.
Por volta das dezenove horas, quando Adélia dirigiu-se à casa de sua tia, que residia a três quadras de distância de sua residência, foi surpreendida com algo inusitado: ouviu alguns assobios e vozes de chamamento. Olhou para os lados e não viu ninguém. Continuou andando e novamente a voz foi ouvida. Mais uma vez ela olhou em seu entorno e não viu absolutamente ninguém na rua. Neste instante ela ficou assustada. Andando em passos largos, observava atentamente tudo a seu redor e instintivamente dirigiu o olhar para o interior do matagal que ladeava o riacho. Passados alguns instantes uma forte ventania balançou as plantas e, em meio à penumbra, Adélia pode ver um vulto em forma humana que vinha correndo a seu encontro. Imediatamente tentou correr, mas suas pernas ficaram pesadas e os passos, morosos. Na tentativa de escapar do estranho ser, que imaginava ser algum malfeitor, não conseguiu correr. A sombra, de súbito, pulou sobre ela, e estancou em seus magros ombros, fazendo-a cair. Estranhou o fato de não ter nenhuma pessoa sobre ela. Ali permaneceu imobilizada.
A tia de Adélia, que aguardava ansiosamente sua chegada, ficou preocupada com sua demora e solicitou que sua filha mais velha fosse a sua procura. Lídia saiu rapidamente e a encontrou na rua, deitada ao solo. Imediatamente a ajudou a se levantar.
Ao chegarem à casa de Eulália, a anfitriã quis saber o que tinha acometido Adélia para que ela estivesse naquela condição mórbida.
Ainda sem forças e sentindo um forte peso nos ombros, Adélia contou o ocorrido, deixando sua tia e sua prima muito apreensivas!
Após D. Eulália se certificar do ocorrido, tratou de tomar as devidas providências para que sua sobrinha tivesse de volta sua saúde. Em seu íntimo, sabia o que tinha ocorrido para que sua sobrinha se encontrasse naquele estado doentio. Pediu que a mesma ficasse quieta e então passou a orar em silêncio. Após alguns instantes, cerca de três quartos de hora, Adélia já se sentia sem os sintomas desagradáveis que a acometia. Poder-se-ia dizer que estava ótima de saúde não fosse a dor de cabeça que a levara à busca de remédio.
- Que aconteceu comigo, tia? Quis saber.
D. Eulália, esboçando leve sorriso, sentenciou:
- Não Fique preocupada, não! Digamos que foi uma dessas “crendices populares” que lhe pregou uma peça. Finalizou a conversa dando um forte abraço na sobrinha, ministrando-lhe o bendito analgésico.







                                               Otaviano Maciel de Alencar Filho
                                  (Copyright© 2018 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A Festa dos vegetais

                                            

 
Uma lenda saborosa...



Houve um tempo em que os vegetais viviam como os seres humanos vivem hoje. Cada espécie tinha os seus afazeres e assim todos levavam uma vida muito parecida com a que nós, humanos, levamos hoje em dia. Foi um tempo distante, mas muito distante do tempo atual, sequer a mãe Terra imaginaria abrigar seres como nós, humanos.
Entre eles, a vida social, entretanto, tinha lá os seus problemas. Como suas variedades eram muito grandes, ficava difícil uma convivência amistosa entre algumas espécies. Por exemplo: Como árvores de grande porte poderiam conviver com as espécies menores sem que lhes causassem algum tipo de desconforto? Um problema crucial era justamente os acidentes provocados pelas “pisadas” que as plantas pequenas e as gramíneas recebiam constantemente. Além disso, ficavam privadas da luz solar, e assim não realizavam a fotossíntese, indispensável à vida orgânica.
Após muitas discussões a respeito de como se daria a convivência social entre as diversas espécies, ficou definido que cada espécie se estabeleceria em áreas específicas: as árvores frutíferas formariam os pomares, as hortaliças as hortas, outras árvores formariam as florestas, outras tantas formariam os mangues e assim por diante, cada qual segundo suas espécies.
Vamos falar de um caso acontecido com a espécie que, com o passar dos milênios, e após o surgimento da espécie humana, tornou-se uma das mais apreciadas por esta, por ter grande serventia na culinária: As hortaliças.
Essa espécie era uma das que melhor conviviam entre si. Sentiam-se portadoras das melhores benesses que a terra poderia lhes dar: um solo arenoso cheio de nutrientes capazes de lhes garantir uma existência glamorosa.
De tempos em tempos, eles promoviam festivais ornamentais onde todos se divertiam durante um mês. Em um desses festejos, talvez o maior já realizado, aconteceu algo de inusitado, e que foi prejudicial e decisivo para a convivência pacífica entre todos da classe.
No dia da festa estavam de prontidão na entrada da horta, servindo de porteiros, o Inhame e a Abóbora. Ambos garantiriam somente a entrada de hortaliças no interior do terreno. O Inhame exibia sua robustez, enquanto a Abóbora sentia-se orgulhosa em mostrar as suas curvas lisas e definidas.
Os convidados foram chegando e logo adentrando ao terreiro.
Primeiro chegou o Espinafre, seguido da Berinjela, depois a Ervilha, o Cheiro-Verde, que logo foi soltando um aroma peculiar, logo depois veio a Pimenta, que sem querer encostou-se ao Quiabo, causando-lhe uma pequena queimadura, levando-o a ter alguns espasmos e babar-se todinho. A situação foi logo controlada com a chegada do Agrião que, com sua ação refrescante, diminuiu a dor causada pela queimadura. Logo depois veio a Alface que, juntando toda essa meleca, com uma de suas folhas, foi deixar essa sujeira em um lugar reservado.
As horas foram passando e mais convidados chegando. Lá pelo meio dia chegou a Acelga, o Tomate, o Chuchu, o Maxixe e logo depois a Cebola, que teve sua entrada “barrada” pelo Inhame e a Abóbora. A Cebola quis saber o motivo que a levara a ser detida à entrada da festa.
 - Por que não posso adentrar? Sou uma hortaliça. – Afirmou a Cebola!
O Inhame respondeu que estava acatando ordens da organização da festa, e que tinha em mãos a relação dos convidados, e seu nome não constava na lista, portanto, não podia fazer nada a seu favor.
Constrangida, a Cebola afastou-se da fila, que já estava enorme e começou a chorar, exalando um odor muito forte!
Depois desse infeliz episódio, os convidados restantes foram entrando no recinto, a saber: O Pimentão, a Rúcula, o Melão, A Beterraba e o Alho que também foi detido antes de entrar para a festa. Nova confusão. O Alho, todo “roxo” de raiva, começou a soltar um cheiro muito forte e desagradável. Não conformado com a proibição, quis saber quem era o responsável pelo festim e que o mesmo viesse a público e revelar o motivo dessa decisão. A Cebola enxugou as lágrimas e juntando-se ao amigo Alho, ficou aguardando a resposta dos guardiões da entrada.
- Sinto muito, não podemos ir de encontro às ordens dada pela Mostarda, que os retirou da lista de convidados, alegando que o odor exalado por você e a Cebola poderiam prejudicar o evento. - Falou com um embargo na voz a Abóbora.
Os convidados restantes e os que haviam entrado para a festa ficaram revoltados com a decisão tomada pela Mostarda e resolveram todos irem até ao centro da horta onde ela se encontrava situada.
- Mostarda, não está certo você “barrar” a entrada de nossos amigos Cebola e Alho. Nós não nos importamos com o odor que eles soltam, antes de tudo eles são nossos amigos. Qual de nós não tem características próprias? Você, por exemplo, não dá frutos que têm sabor picante, ainda que suave?  Ademais, você, enquanto árvore, não se encaixa na categoria das hortaliças. Seus frutos, estes sim, é que fazem que você possa ser considerada de nossa família, portanto quem não deveria estar aqui, seria você. – Falou a Ervilha, encorajada!
A Mostarda, envergonhada com a absurda decisão tomada, voltou atrás e permitiu a entrada de toda e qualquer hortaliça. Foram tantas que não dava para contar nos dedos das mãos e dos pés!
E a festa continuou com os mais diversos sabores e odores.





                            Otaviano Maciel de Alencar Filho
                         (Copyright© 2018 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Fiat lux





Haja luz!
E o som celestial
Como em uma orquestra colossal
Ferindo os tecidos espaciais
Em matizes infindáveis!
E as nebulosas em contorcionismo fenomenal
Dançando em ritmo acelerado
Deram início ao “sem começo e sem fim”!
E o tempo... Sem tempo!
Sem trégua!
E em cada canto sem canto
O canto se fez presente
Inundando o ausente/presente!
E os sóis resplandeceram
Nas turvas imensidões!
E os mundos foram surgindo!
E a poeira estelar no infinito se dissipou
Nos espaços sem fim!
E o eterno recomeça
Em cada canto sem canto!
Contínuo parafuso sem fim...





Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 2018 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O ataque da perna cabeluda




As lendas urbanas não dão trégua e vez por outra elas ressurgem em locais e épocas diferentes. A lenda da Perna Cabeluda é originariamente pernambucana, dos anos 70. Porém ela ressurgiu em Fortaleza no final dos anos 80 e começo dos anos 90. A tal “perna cabeluda” causava grande alvoroço por onde passava. No município foi registrado casos nos bairros de Mondubim e José Walter.
Segundo os relatos ela perseguia as pessoas, assustando-as e provocando agressões contra suas vítimas.
Aproveitando a “onda”, uma dupla de vigaristas resolveu aprontar com os cidadãos. Confeccionaram uma vestimenta, que mais parecia um grande saco feito de um tecido escuro e felpudo com um furo no alto, para que pudessem olhar. Um dos pilantras ficava na cacunda do outro e se cobrindo com o “manto da assombração”, que em ambientes onde a luz fosse escassa ninguém duvidava que fosse algo do “outro mundo”, ou mesmo a tal “Perna cabeluda” e saíam pelos arredores pregando peça nas pessoas incautas, subtraindo-lhes os pertences.
Eis um desses surpreendentes relatos:
 Já passava das três horas da madrugada do domingo, quando Lúcia e Edineia, retornavam às suas residências, depois de terem passado a noite se divertindo no forró.
Enquanto caminhavam até o ponto de ônibus, onde aguardariam o coletivo que as levariam de volta a suas casas, iam conversando alegremente:
- Mulher, estou “morta” de cansada, aquele homem com o qual fiquei na noite de hoje só queria estar dançando. – Disse Lúcia, bocejando.
- Querias o quê mulher? O cara pagando tudo pra nós, Tu tinha mesmo era que dançar... e muito! O macho que eu arrumei era mais fraco que “caldo de pedra”, fumava tanto que parecia uma chaminé ambulante. O miserável mal pagou duas cervejas e já queria dar uma “saidinha”. Pode um negócio desses? Foi por esse motivo, que não quis sair com ele, mas por ele ser tão “pão duro”, que eu lhe dei um fora e fiquei com vocês na mesa. – Falou Edineia, dando uma risada extravagante.
- Edineia, passou ontem na televisão que um homem foi atacado pela Perna Cabeluda e o coitado foi parar no hospital depois de ter levado uma surra dela. – Comentou Lúcia.
- E tu acreditaste nessa conversa mulher? Isso é coisa de gente querendo amedrontar as pessoas. Isso é conversa de Trancoso! Perna cabeluda que eu conheço só a perna do Sandoval, o meu vizinho. O miserável tem as pernas tão finas e tão cabeludas que parece patas de caranguejo. - Tascou Edineia, dando nova gargalhada, jogando os cabelos para trás.
Quando transitavam em um estreito beco que dava acesso a avenida principal, local onde as amigas esperariam o coletivo que as levaria de volta as suas casas, de longe avistaram algo que lhes chamou a atenção. A pouca luminosidade do ambiente impedia que elas identificassem o que realmente era aquilo que se encontrava a aproximadamente cinquenta metros de distância do local em que elas se encontravam. A estranha figura foi se aproximando, enquanto as amigas, assustadas e com as pernas tremendo mais que “cipós de vara verde”, tentavam divisar o rosto do indivíduo que aparentava ter aproximadamente dois metros e meio de altura.
Quanto mais perto o indivíduo chegava, mais aterrorizadas as mulheres iam ficando. A distância foi diminuindo e a forma do ser foi se delineando, mostrando um corpo sem cabeça e sem membros superiores e todo peludo. Em uníssono som gritaram:
- É a Perna Cabeluda!
- E agora, meu Deus, o que vamos fazer? - Falou Lúcia, desesperada.
- Corre mulher, senão ela vai pegar a gente. - Gritou Edineia, apavorada!
- Tu disseste que não acreditavas que ela existia, mulher? – Acrescentou Lúcia.
- Mudei de ideia, cunhã. Se isso que está aí na nossa frente não for coisa do capeta, de Deus é que não é! – Falou Edineia aterrorizada.
As duas saíram em desesperada correria e a entidade seguiu atrás. Em determinado ponto do trajeto elas foram alcançadas pela estranha figura que lhes deu um pontapé nos traseiros, levando-as a caírem no chão, ficando desacordadas por pequeno lapso de tempo.
O sol já estava raiando quando as amigas retornaram à consciência e constataram que haviam tido suas bolsas roubadas. Logo surgiram alguns transeuntes que as ajudaram a levantarem-se do chão. Um senhor que passava por perto, vendo a situação das duas mulheres deu-lhes uns trocados para que elas pudessem pegar o coletivo até suas residências.






                                             Otaviano Maciel de Alencar filho
                           (Copyright© 2017 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

Arbítrio



Ah, o grito da liberdade!
O doce gosto do imprevisível engano;
Sobretudo a mais tenra lealdade
O sabor amargo do desengano;
O fruto proibido da insensatez: Humano!
Real leveza do ser em constante lapidação
Desfaz a tônica cartesiana em sólido persistir!
Jaz, sobre alicerces vivazes,
Em pleno vigor febril
Envolto em azáfamas sutis.
Sobriedade, alteridade!
Acima a lealdade!
Ser do Ser
Ainda assim poder!
Tamanha sapiência
Desdenha a ciência
Em tom de demência!




Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 2017 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Nós e a tecnologia

                                                        

Era um tempo em que o mundo tal qual o conhecemos hoje não existia. O ser humano sequer sonhava um dia poder andar em carros que não precisassem de tração animal.  Voar, só nos sonhos de alguns visionários.  Na mitologia grega Ícaro até tentou, mas Dédalo, seu pai, não dispondo de conhecimento e tecnologia necessária, que só surge com o avançar do tempo, após muitas lutas em busca da construção do conhecimento, concebeu e confeccionou dois pares de asas que foram feitas tão somente com penas de aves coladas com cera de abelha. Ícaro voou muito alto e o sol derreteu a cera fazendo com que ele despencasse lá do alto.
O mito de Ícaro tem sua importância simbólica na construção do conhecimento, na criatividade e no potencial humano.
 A referência ao mito de Ícaro é somente para entendermos que tudo o que temos hoje nos variados setores do conhecimento humano e em especial o das tecnologias, somente surgiu e surgirá com o avanço dos estudos das técnicas, de forma que em nada, mas em nada mesmo, o conhecimento da antiguidade se assemelhava ao conhecimento tecnológico que temos na atualidade.
Antigamente o homem comum olhava para o céu e, contemplando a imensidão do universo, regozijava-se de sua insignificância diante o espaço infinito! Porém, os mais audaciosos buscavam entender quais mecanismos eram responsáveis por tão bela e portentosa obra da natureza.
Os séculos foram escoando e o homem cada vez mais foi sentindo a necessidade da satisfação de seus desejos. Esses desejos e aspirações agiram e ainda agem como molas propulsoras na busca de inovações e novas formas de conhecimentos, para enfrentar as adversidades que o ser humano encontra em sua estadia no planeta.
Hoje em dia, modernos jatos cortam os ares ultrapassando em muito a velocidade do som. O homem já foi à lua e faz planos de em breve visitar o planeta Marte. O átomo, a unidade básica da matéria, que antes era tido como a menor partícula componente da matéria, e que não podia ser dividida, após o descobrimento dos estados quânticos, promovidos pela física, perdeu este status. Atualmente o mesmo pode ser dividido em algumas subpartículas!
Vivemos, na atualidade, a era da tecnologia!
Hoje, contando com as mais variadas técnicas digitais, vemos o avanço vertiginoso nos mais variados campos do conhecimento humano, em especial o da farmácia e da medicina, que trazem cada vez mais esperanças para a humanidade, aliviando as dores físicas dos indivíduos, fazendo uso de medicamentos cada vez mais eficazes e cirurgias reparadoras como transplantes de órgãos, que auxiliam a inserção do homem na sociedade ou simplesmente intervenções cirúrgicas que visam somente a estética, trazendo de volta a autoestima de milhões de pessoas que devido às más formações ou mesmo por se sentirem constrangidas por possuírem algo no corpo que as incomode, se isolam dos outros, vivendo na solidão.
Pode parecer paradoxal, mas a mesma tecnologia que traz tantos benefícios à humanidade é também a causadora de muitos sofrimentos enfrentados pelo homem na atualidade. A indústria química, que tanto ajuda na descoberta e na manipulação de novas substâncias e elementos químicos em favor da humanidade, também manuseia substâncias deletérias que são utilizadas nas “guerras químicas”, provocando o morticínio de milhões de pessoas no mundo inteiro, tudo isso devido à insensatez humana.
Os modernos artefatos computacionais, tais como os aparelhos de infravermelho, de ressonância magnética, tomografia, ultrassonografia, que auxiliam no diagnóstico de diversas doenças através das imagens produzidas, também são utilizados nas guerras como meios de localização e de destruição em massa de populações inteiras, que, indefesas, sofrem os ataques perpetrados por insanos tiranos que se arvoram em donos do mundo.
A era tecnológica em que vivemos aguarda ansiosamente o momento em que o ser humano se despida do orgulho e do egoísmo que insistem em fixarem moradia nos corações humanos, para que dessa forma, os avanços tecnológicos possam eficazmente promover uma nova era: Uma era de bem estar social onde as tecnologias já consagradas e as emergentes sejam utilizadas somente para o bem da humanidade.





                         Otaviano Maciel de Alencar Filho
           (Copyright© 2017 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O vendedor de sonhos


      
A carrocinha de lanches descia a rua quando, de longe, foi avistada por um pequeno guri aparentando ter uns oito anos de idade que, sentado na calçada em frente a sua casa já a aguardava ansiosamente. Não esperou que ela chegasse até onde ele estava e imediatamente correu até o vendedor. O garoto, que já levava algumas moedas, foi logo inquerindo:
- O senhor tem bolo de batata?
O vendedor era um senhor já idoso marcado pelas rugas que o tempo não tardou em lhe perdoar. Em sua mansidão característica, retrucou:
- Não, meu bom menino, hoje não trago bolos. Trago algo muito especial: sonhos recheados com doce de leite. – Respondeu o ancião.
O pequeno não entendendo o que o velho dizia, pois não conhecia esta guloseima, tornou a perguntar-lhe:
- O senhor tem bolo fofo? – Insistiu.
O homem percebeu que o garotinho não tinha escutado sua resposta e aparentava não saber o que era um sonho, então disse:
- Não, meu filho, não estou vendendo bolo de nenhuma qualidade. Estou vendendo apenas sonhos e lhe digo que são muito saborosos. Tomando um em suas mãos mostrou-o ao garoto, que ficou perplexo quando viu aquele pãozinho recheado de doce de leite e coberto de açúcar branquinho como a neve.
- Ah, então o nome disso é sonho? – Perguntou.
- Sim, você nunca provou de um sonho? - Interrogou o vendedor ao menino que não tirava os olhos da carrocinha lotada de sonhos. Talvez, sonhando em saboreá-los!
- Não, senhor. Pensei que sonho era aquilo que a gente tem quando deita dorme e fica vendo coisas passarem na nossa cabeça. – Disse o moleque em sua simplicidade!
 O senhor coçou a cabeça e, balançando-a, deu leve sorriso admirando a ingenuidade do pequenino. Observando que as moedas que ele portava não eram suficientes para comprar o doce, asseverou:
- Sei que você está “doidinho” para provar do sonho, mas seu dinheiro não dá para comprá-lo, então vou fazer o seguinte com você: Vou dá-lo de presente, guarde suas moedas e junte com mais outras para que quando eu passar outro dia com os bolos você possa usá-las, tudo bem?
- O senhor está dizendo que vai me dar de graça este sonho? Inqueriu o pivete, saltitante de alegria.
- Claro, é todo seu. Sonho que é sonho não se vende, não é mesmo? –Respondeu, jubilosamente.
O vendedor então embrulhou o sonho e entregou ao menino, e abaixando-se e tocando em seus pequeninos ombros, falou-lhe, olhando nos olhinhos redondos e amendoados, antes que ele retornasse à sua casa, o seguinte:
- Hoje é o dia de meu aniversário, então resolvi vender sonhos, porque além se serem saborosos seus nomes simbolizam o que há de melhor no ser humano, que é a capacidade de acreditar que um dia nossos sonhos possam se tornar realidade, mesmo diante as adversidades que a vida nos contempla. Já tive muitos sonhos, alguns se realizaram outros nem tanto, contudo não perdi as esperanças de que a qualquer momento eles possam se tornar realidade. Para falar a verdade, ainda tenho sonhos! Espero que seja um eterno sonhador, mas antes de tudo, que seja, no futuro que o aguarda, um homem de bem e que trabalhe muito para que seus sonhos se tornem realidade. Esse é o meu sincero desejo. – Sentenciou.
Estava tão absorto em seus pensamentos que sequer se deu conta de que o menino não estava entendendo nada do que ele estava falando. Quando percebeu que o pequeno fitava-lhe os olhos, sem saber o que falar, encerrou a conversa, dispensando-o.

O menino saiu alegre e saltitante, saboreando o sonho, enquanto o vendedor de guloseimas continuava o seu trajeto, na labuta diária e levando consigo seus sonhos.



                                                 Otaviano Maciel de Alencar Filho
                                  (Copyright© 2017 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

Mentiras e mais mentiras

                                         Atualmente vemos ordinariamente na imprensa escrita assim como nas mídias digitais, infor...