quarta-feira, 30 de abril de 2014

Liberdade, Igualdade e Fraternidade



Versejar sobre o que penso
Às vezes me deixa tenso.
Se minha voz eles (?) podem calar,
E a ela anatematizar,
Já os meus pensamentos não podem silenciar.
Mas se grafo o meu pensar
Em páginas impressas a dispersar
Serei traído pelo impetuoso desejo de querer me expressar.
A licença poética vou usar!
Ousarei em formas diversas disfarçar
Tudo que meu ego deseje falar.
Desmascarar a hipocrisia
Aderente a várias fantasias.
Antes, porém, lutar por um ideal comum:
Liberté, Egalité, Fraternité.



Otaviano Maciel de Alencar filho

sexta-feira, 28 de março de 2014

O Irreversível





Ah! O tempo!
Pudesse ser como uma vitrola
Em que o braço controla
A faixa musical a ser ouvida.
O disco da vida poderia ser vivido novamente!
Viveria plenamente
O tempo que se evolou.
Quem dera pudesse nele voltar!
Rever afetos,
Reatar os desafetos.
Voltar a ser criança.
Viver sem preocupações.
Esquecer as ilusões,
E também as inquietações.
Tempos idos que não voltam mais!
Só a lembrança jaz.



Otaviano Maciel de Alencar Filho

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Um sonho a mais




Quando chegam os meses de Janeiro, Julho e Dezembro, período relativo às férias escolares, ruas, avenidas, praças e demais espaços públicos tornam-se mais movimentado que ordinariamente, isso se deve naturalmente devido à presença de crianças, adolescentes e jovens, que por um lapso de tempo se veem livres das salas de aulas das instituições escolares que as acolhem, no dever de dar-lhes a educação necessária, e assim prepará-los para um futuro promissor. Enquanto o futuro não chega, trazendo com ele a responsabilidade e o dever de conseguir um emprego, que na maioria dos casos toma quase todo o tempo de nossas vidas, por que não aproveitar esses meses de folga para se divertir a vontade?
Um dos passatempos mais apreciados pela garotada, é sem dúvida nenhuma a prática de soltar/empinar pipas, também conhecida em algumas regiões do Brasil por outros nomes, como: papagaios, pandorgas, pepetas ou raias. O céu fica multicolorido, notavelmente devido à presença dos artefatos feitos de papel das mais variadas cores, tamanhos e modelos.
Existe um tipo de competição que é praticada por grande parte dos adeptos de empinar pipas: trata-se de “cortar” a pipa do outro competidor. Para isso torna-se necessário preparar a linha que empina a pipa. O método utilizado pela maioria dos competidores é bastante simples: tritura-se vidro, deixando-o em forma de pó e acrescenta-se cola de madeira já preparada, formando assim uma pasta que será passada em toda a extensão da linha. Essa pasta recebe o nome de “cerol”. Agora é só esperar secar e ver se a cola aderiu firmemente à linha e testar se a mesma tem alto poder cortante. Fazem-se alguns testes com outras linhas antes de se empinar a raia para, então, participar do torneio. Ganha aquele que conseguir cortar a maior quantidade de raias.  Quem traz a raia “enroscada”, para junto de si, logo após cortá-la, procedendo ao enrolamento da linha no carretel, que muitas vezes é substituído por uma lata de leite vazia, consegue uma posição de status melhor que os demais.
As técnicas para lograr êxito na competição são as mais variadas: Lancear por cima e “embiocar”, ou seja, descer de bico e ir soltando mais linha rapidamente até tocar a outra linha e cortá-la, pois este movimento age tal qual uma lâmina afiada que, dificilmente não mandará a outra pipa pelos ares. Outra variante é colocar-se por baixo da linha do oponente e dar um puxão na pipa fazendo com que a mesma suba rapidamente até encostar-se à linha e soltar bruscamente o fio cortante, que agirá como uma afiada lâmina de navalha. Existe também a modalidade de “pegar pelo rabo” e tantas outras variações que a imaginação permitir se faça.
 Embora seja proibido em muitos municípios brasileiros e até passível de punição usar “cerol” nas linhas que empinam raias, essa medida não é obstáculo aos amantes deste tipo de competição, já que não respeitam as leis que visam proteger os próprios participantes da brincadeira como os transeuntes que circulam pelas ruas e avenidas fazendo uso de ciclomotores, de vez que, sendo muito fina, a linha não é percebida pelos motociclistas, que são surpreendidos pelo fio cortante que geralmente alcança a altura do pescoço. As estatísticas demostram que inúmeros acidentes são provocados pelo uso do “cerol”, havendo, inclusive, registro de vítimas fatais.
Naquela tardinha ensolarada, quando retornava do trabalho um pouco mais cedo, ao passar por um terreno baldio de esquina com a rua em que moro, vi Felipe, um garoto que sofre de deficiência motora, causada por complicações cerebrais, que, no entanto, não o impede de realizar algumas tarefas, embora precise de cadeira de rodas para se locomover.
Estava em sua inseparável cadeira de rodas, acompanhado de seu pai. Observei que ele encontrava-se empinando uma raia e fiquei admirado com a alegria estampada em seu rosto. A dificuldade em segurar o carretel de linha era minimizada pelo auxílio prestado por seu genitor.
- Brincando de soltar raia, né Felipe? Falei.
Ele olhou para o lado, e soltando leve sorriso balbuciou algo como a dizer: não está vendo?
Conversando com seu pai fiquei sabendo que o sonho dele era soltar pipa, então ele o levou para realizar seu desejo.
Olhando atentamente para o céu pude notar a presença de mais duas pipas, e disse:
- Cuidado para não cortarem a sua raia, tem outras duas lá em cima.
O pai de Felipe me assegurou que as outras duas raias eram de dois amigos dele de sala de aula, e eles não estavam utilizando “cerol”, o que queriam mesmo era divertirem-se, vendo lá no alto, as raias livres para voarem de um lado para o outro.
- Ah, se todos que empinam pipas tivessem consciência de que o uso de “cerol” é proibido, muitos acidentes seriam evitados, inclusive o de se cortar com a própria linha. -Falei, despedindo-me dos dois, descendo rua abaixo e pensando comigo mesmo:
“Talvez Felipe, no seu inconsciente, se visse voando tal qual àquelas raias e se imaginasse livre da cadeira que o aprisionava”. 



                             Otaviano Maciel de Alencar Filho

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Nino e Nina, metades eternas




Em uma fábrica de meias, vários caixotes saiam deslizando sobre as esteiras rolantes que davam acesso aos veículos que despachariam os pedidos dos clientes para as mais variadas lojas das grandes cidades.
No interior de um desses caixotes estava um par de meias de listras azuis. Chamavam-se respectivamente: Nino e Nina! E a partir do momento mágico da confecção de ambos, apaixonaram-se e decidiram jamais se separarem.
O caminhão saiu para despachar os pedidos, e, após algumas horas, estacionou em frente a uma grande loja do setor varejista. Os funcionários, então, efetuaram a entrega da encomenda e seguiram adiante, para fazerem a entrega dos outros pedidos. Nesse caixote estavam Nino e Nina.
- Chegamos. – Disse Nina.
- Sim, a partir de agora é só aguardarmos a criança que irá nos usar para agasalhar os seus pezinhos. – Falou Nino.
Instantes depois entrou na loja uma senhora de mãos dadas a um garotinho aparentando sete anos de idade. Eles caminharam para o departamento de cama, mesa e banho, seguindo até o setor onde se encontravam as meias. O garotinho, ao ver o par de meias com listras azuis, pediu para que sua mãe o comprasse.  A mãe atendeu ao pedido do filhinho, que ficara embevecido com o par de meias.
Assim que chegaram a casa, o garotinho foi logo calçando as meias. Sua mãe logo lhe advertiu, explicando que elas eram para serem usadas em momentos especiais e não no dia a dia. O garotinho obedeceu a sua mãe, contudo fez um pedido:
- Mamãe, posso usá-las para ir à escola? – Perguntou apreensivo.
- Pode sim, filho. Mas só por um dia!  - Respondeu a matrona, orgulhosa do rebento. Agora, guarde-as em lugar apropriado.
O pequenino foi até seu quarto e, abrindo a gaveta de pequena cômoda, colocou-as, bem dobradinhas, embaixo de outras roupas que lá estavam.
- Pronto, meu amor, agora seremos muito felizes junto com essa amável criança. - Disse Nino, muito alegre.
Logo anoitecera e, em chegando a hora de dormir, o pequenino tratou de ir para a cama, já pensando em usar as meias no dia seguinte, quando fosse para a escola.
O dia raiara com esplêndido sol. O menino levantou, tomou um banho, serviu-se do café matinal e foi vestir-se para ir à escola. Pegou as meias e as calçou.
 Chegando à escola, todos notaram as meias que ele estava usando e acharam elas muito bonitas.
Nina ficou bastante jubilosa com a atenção que era dispensada a ela e a Nino.
- Falei para você que seríamos muito felizes. – Falou Nino.
                  Na hora do recreio, quando brincava de futebol com os coleguinhas, tropeçou em uma pedra afiada, vindo a rasgar a meia do pé esquerdo. O garotinho ficou muito triste e voltou para a sala de aula permanecendo desapontado consigo mesmo até o término da aula.
                  Quando chegou a sua casa, contou o ocorrido para sua mãe, que tratou de consolá-lo, garantindo o imediato conserto da meia danificada, enviando-a a uma costureira.
                  - Nino... Não fique preocupado, logo você estará recuperado.
- Sei disso Nina, mas não consigo ficar longe de você por muito tempo.
Uma semana se passou sem que Nino retornasse da oficina de costura. O garotinho não era mais o mesmo, andava triste, não jogava futebol, as tarefas escolares que deviam ser realizadas em casa, não estavam sendo concluídas. Os meninos da escola perguntavam pelas meias listradas, e ele triste, dizia que a meia rasgada estava na costureira para ser consertada.
No início da semana seguinte, o menino pergunta para sua mãe:
- Mamãe, quando minha meia listrada vai ficar pronta?
- Filho, hoje irei à casa de D. Antônia e certificar-me-ei se a mesma já efetuou o reparo. Provavelmente quando você chegar da escola, sua querida meia já estará aqui em casa - Respondeu a atenciosa genitora.
O pirralho, contente, foi para a escola e contou para seus amiguinhos que sua mãe fora buscar a meia na costureira e no outro dia ele já estaria calçado com elas.
Depois da aula, quando chegou a casa, ficou emocionado quando viu em cima de sua cama o par de meias, dobradinhas e com um aroma agradável. Pegou a meia que estava com defeito e observou que estava “novinha em folha”. Foi até a cozinha, deu um forte abraço em sua mãe e disse:
- Muito obrigado, mamãe. Posso usá-las agora, para “matar” a saudade?
- Claro, mas daqui em diante tenha mais cuidado para não furá-las novamente!
Enquanto isso, no quarto outra conversação estava acontecendo:
- Nino, agora voltaremos a ser felizes novamente!
- Sim, querida, estaremos juntos até nossa velhice... Até a eternidade! 



                                   Otaviano Maciel de Alencar Filho

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Mensagem do Além






Aconteceu muito rápido. Não sei precisar o tempo decorrido do fato que vou contar. Somente agora, passadas algumas semanas, creio eu, começo a me dar conta do ocorrido, embora me encontre um tanto confuso diante a nova situação em que me encontro, chegando até certo ponto não aceita-la.
Um estampido. Apenas e tão somente um estrondo acompanhado de um projétil que veio em minha direção, e logo uma pressão muito grande em meu peito esquerdo. Cai esvaindo-se em sangue. Ao meu lado se encontrava minha companheira, abraçando-me aos prantos. Jamais ela poderia imaginar que o desfecho de uma situação litigiosa no matrimônio tivesse um final trágico, afinal já havíamos entrado em consenso quanto à nossa separação a cerca de três meses.
O disparo certeiro que me acertou, partiu das mãos de seu amante que, adentrando nossa residência, sem que fosse visto, dirigiu-se até o quarto onde nos encontrávamos, tratando das ações a serem tomadas com relação à ruptura de nossa união.
Como disse anteriormente, desde há muito já tínhamos resolvido esta questão e em nenhum momento demonstrei hostilidade para com sua decisão. Um homem de idade avançada compartilhando amores com uma jovem, no meu caso bem mais jovem que eu, não poderia esperar outra coisa a não ser surpreendido pela decepção de ser trocado por outro ser mais jovem, cheio de vigor. Por favor, não tomem minhas palavras como regra geral para os relacionamentos onde a diferença de idade dos cônjuges é muito grande. Cada caso é um caso e o desfecho final de um matrimônio, se me permitem assim dizer, está nos desígnios de Deus.
Não pretendo entrar em maiores detalhes acerca das situações que vivi no matrimônio e que culminaram com o nefasto episódio que ora narro.
Voltarei, então, a compartilhar as impressões que tive após o tombamento de meu corpo ao chão:
Senti uma dormência estranha. Uma leveza. As coisas começaram a girar (ou seria eu quem estava girando?). Apavorei-me, quando, após alguns instantes, olhei para o chão e vi meu corpo caído e sobre ele, chorando, minha ex-esposa e meus dois filhinhos. Gritei, chamando por eles, mas não me ouviam. Aproximei-me para abraçá-los. Não consegui. Estou vivo, clamei desesperadamente. Chamem um médico. Tudo em vão! Aflitivamente, cheguei a uma dura conclusão:
- Estou morto... Meu Deus!
Foram chegando algumas pessoas e em pouco tempo o recinto estava cheio. Procurei, com turvos olhares, identificar o meu algoz no meio da multidão, mas ele já havia se evadido do local. Tentei sair do quarto, mas algo me impedia de fazê-lo.
Com os prantos de meus familiares ressoando aos meus ouvidos, que agora pareciam ter os sentidos auditivos dilatados, entrei em profundo desespero. O tempo e o espaço pareciam estar dilatados. O ambiente mudava constantemente os seus contornos. O quarto que media pouco mais de 16m² afigurava-se agora a um grande salão. Muitas pessoas conversavam baixinho para não tumultuar ainda mais o recinto, que, pelo que pude perceber, contava com aproximadamente cinquenta pessoas. Reconheci de imediato alguns familiares que se aproximavam de mim (ou do meu corpo) e não conformados com a triste cena, derramavam copiosas lágrimas.
Observei que chegara ao recinto o pessoal responsável pelo translado de meu corpo. Juntamente com eles vieram as autoridades policiais que, de imediato, começaram os trabalhos de investigação. Enquanto isso as pessoas era retiradas do local para não atrapalharem o trabalho efetuado por eles.
Por um lapso de tempo que ignoro a duração entrei em estado de torpor profundo, e vi, como num filme, toda a história de minha vida desenrolar-se ante meus olhos.
Quando retornei do estado em que me encontrava, senti um vazio dentro de mim. Acabrunhado, recolhido em um canto qualquer, imerso em total solidão, não me dava conta de tempo e espaço, até que uma luz, vinda não sei de onde, começou a iluminar o ambiente, se assim posso me expressar, pois como mencionei anteriormente é um estado novo, este em que me encontro. Poderia dizer, sem receio de estar faltando com a verdade, que o simples fato de pensar torna tudo muito “real”.
À luz que se fizera perceptiva para mim, aproximaram-se dois seres que, complacentemente, passaram a me observar. Tomando-me as mãos, ergueram-me do local em que me encontrava, e pela primeira vez pude constatar que alguém podia relacionar-se comigo.
- Companheiro, não temas, você está entre amigos, precisamos conversar bastante e pô-lo a par de sua nova existência! – Falou um jovem senhor, com um leve sorriso no olhar.  Após algum tempo fui apresentado a algumas pessoas que há muitos anos não via, pois haviam transpassado o portal existente entre o que chamamos vida e morte, antes de mim.
Pude reconhecer alguns parentes e alguns amigos que conviveram comigo em vida. Fiquei feliz quando encontrei Humberto, antigo amigo de negócios, e qual não foi minha surpresa quando o vi “inteirinho”, com sua perna direita, que havia sido amputada após ser vítima de um acidente automobilístico que sofrera anteriormente.
- Como pôde acontecer isso, Humberto. - Perguntei curioso.
- Vá com calma, amigo, terá todo o tempo do mundo para ficar a par de seus novos modo de ser e estar!
Formamos um círculo e começamos a conversar alegremente.





                        Otaviano Maciel de Alencar Filho


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Acredite... Se quiser!

                        


Lá pelas bandas do sertão setentrião cearense, por volta dos anos cinquenta, existia um fazendeiro de nome Valadares, ou simplesmente, “coroné Valadares”. O tal “coroné Valadares” era um homem rico, proprietário de vários imóveis na região.
 De boa índole, porém muito intempestivo e rude no falar, muitos que se achegavam a ele tremiam de medo, e quem não segurasse a vontade de urinar fazia o serviço ali mesmo na sua frente, tamanho era o temor que ele provocava nas pessoas.
Em sua fazenda, os trabalhadores morriam de medo, quando ele chamava algum deles para conversar sobre os resultados dos trabalhos realizados em sua propriedade.
D. Marilena, sua esposa, era uma donzela de vinte e três anos de idade, enquanto Valadares já beirava os cinquenta. Muito discreta e amável para com todos os colaboradores da fazenda, por diversas vezes interferira em favor dos trabalhadores, garantindo-lhe enorme prestígio junto a eles.
O fato é que Valadares era homem viril e bastante namorador.  Desde sua mocidade muitas moças deixaram-se levar por seus galanteios; talvez muito mais interessadas em sua herança, - já que ele era filho único e, portanto, herdeiro direto de seu pai que, aliás, quando morreu deixou toda fortuna para ele -, do que propriamente pensando em um relacionamento baseado em laços afetivos.
 Esse modo de viver o acompanhou por toda sua existência. Por isso mesmo, era um homem que desconfiava veementemente da fidelidade conjugal de sua atual esposa, que, diga-se de passagem, era a terceira mulher com a qual o coronel contraíra matrimônio. Porém, nem mesmo com todo cuidado e vigilância intensiva deixou de ser traído pelas duas ex-esposas. Em nenhum dos relacionamentos teve filhos.
Coronel Valadares contava com o auxílio de seu fiel confidente, o capataz Julião, que trabalhava para ele desde o seu primeiro casamento. Julião tinha como principal incumbência vigiar todos os passos de suas esposas, e assim averiguar se as mesmas se comportavam direito, quando saiam da fazenda para outros lugares.
- Às vezes fico com inveja do seu relacionamento conjugal com sua esposa Julião. D. Clotilde é tão leal no matrimônio, não Julião? –Interpelou.
- É coronel, não dou mole não, mantenho sempre as rédeas curtas. – Falou se gabando da fidelidade da esposa.
Mas sina é sina, e todos os cuidados tomados foram em vão. Contudo, parecia que a maldição do “chifre” havia acabado. D. Marilena em nenhum momento dos quatro anos que estavam casados demonstrara qualquer atitude suspeita relacionada à traição matrimonial. Mesmo assim, Valadares não abria mão da espionagem.
Certo dia D. Marilena disse que iria à feira comprar algumas mercadorias e não querendo pedir ao marido para ir com ela, pois o mesmo encontrava-se muito ocupado, solicitou que Julião a levasse. Valadares disse-lhe que Julião estava de folga neste dia e não poderia leva-la até o local onde era realizado o comércio hortifrutigranjeiro.
- Oh, amor, algum trabalhador pode me conduzir. Falou com voz melosa, acariciando os cabelos grisalhos do esposo.
- Não...  Façamos o seguinte: eu a levarei e enquanto você realiza as compras aproveito para ir até barbearia.
-Tudo bem, vou pôr um vestido bem bonito. – Caminhou para o quarto cantarolando alegremente.
Na feira, o coronel deixou sua esposa fazendo as compras e antes de ir à barbearia, dirigiu-se a um prostíbulo que existia ali perto. Quando chegou ao meretrício deu de cara com Julião. Imediatamente os dois começaram a confabular:
- Está divertindo-se muito, hein?
- Estou sim doutor.
-Julião, hoje é sua folga, mas preciso urgente de seus serviços.
- Pois não!
Sua patroa está fazendo compras na feira, quero que você a siga e não saia de “Sua cola”.
Imediatamente o homem caminhou até o local de vendas e procurou por Marilena. Não a encontrando resolveu, então, procurar pelos arredores. Novamente a busca foi em vão. Quase duas horas depois, retornou ao salão de festas e contou para seu patrão que procurou a patroa em toda a cidade e não a encontrou.
- Tem certeza que a procurou direto, homem? Perguntou.
- Claro coronel... Só falta dá uma olhadinha lá em cima, nos quartos. – Insinuou o homem, em tom sarcástico.
Os olhos do coronel arregalaram-se e enfurecido desabafou:
- Não, não pode ser. Não a vi entrar neste lugar, contudo, suba lá e dê uma olhada, e se a encontrar, traga até a mim. Vou mostrar a ela quem é o coronel Valadares.
Numa só pisada o homem subiu os degraus, e após alguns instantes ouviu-se barulho de objetos sendo quebrados, indicando que estava havendo briga na parte de cima do estabelecimento. Minutos depois o homem desceu com uma mulher arrastada pelos cabelos e sendo esbofeteada. Valadares levantou-se, e aproximando-se dos dois exclamou:
- Pare com isso Julião, a mulher é minha, eu é que tenho de lhe dar uma lição, não você.
- Quem disse para o senhor que esta é D. Marilena? – Falou o capataz esbravejando.
Aproximando-se da mulher que estava jogada ao chão, Valadares a reconhece como sendo a esposa se seu fiel funcionário.
- E Marilena, onde ela está? Perguntou.
- Sei, lá, coroné. E eu estou com cabeça para procurar alguém. O corno aqui sou eu e o senhor desconfiando de sua mulher?
Valadares imediatamente subiu as escadas e procurou pela esposa, mas não a encontrou. Colocou a cabeça para fora da janela e olhou para baixo na rua e viu sua esposa na calçada da barbearia, gritou:
- Onde você estava mulher?
- Terminei as compras e vim até a barbearia procurar por você. Disseram-me que ainda não aparecera por aqui, então resolvi ir até o salão de beleza de D. Rocilda e fazer as unhas e, então, retornei para cá... O que fazes ai? – Perguntou curiosa.
                  - Estou descendo para lhe contar o que aconteceu e o porquê de eu estar aqui. Você não vai acreditar! – Exclamou, pensando na desculpa que daria para a esposa, aproveitando-se do episódio ocorrido no local.
Instantes depois, Valadares voltava para a fazenda, conversando com sua esposa, enquanto a confusão continuava no cabaré.




                                             Otaviano Maciel de Alencar Filho

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Quando fala o coração




      Quem sou eu, quem é você?
  Qual de nós tem a razão?
Penso que esta questão
     Quem resolve é o coração.

Somos dois desiludidos
 Num amor tão proibido.
 Deveríamos ter pensado
       Antes de nos apaixonarmos!

Mas querer não é poder
Quando fala o coração.
   E não há ninguém capaz
   De desfazer nossa união.

Só há uma solução.
Diante esta questão:
      É vivermos nosso amor
                                                                  E brindar nossa união!




Otaviano Maciel de Alencar Filho

Mentiras e mais mentiras

                                         Atualmente vemos ordinariamente na imprensa escrita assim como nas mídias digitais, infor...