terça-feira, 17 de maio de 2016

Eternamente mãe




Das luzes cintilantes do céu
Animo meus pensamentos.
Lembro os momentos alegres:
Da ternura, do aconchego.
[Do sossego]

Mãe, como me faz falta!
Só a lembrança permanece...
E meu coração se enaltece
Nas horas tristes.
[Difíceis]

Nas noites solitárias do meu ser
Tua doce figura serena
Eterniza-se em meu coração!
Fujo da solidão.
[Mansidão]

Agora, onde te encontras?
Partiste tão cedo!
Triste, ainda vivo,
Neste mundo sem ti.
[Ausência]

Digo e repito:
Ah! Quanta falta tua ausência me faz!
Eternamente grato sou por ter sido minha mãe.
Meu desejo é te ver sempre feliz.
[Alegre e contente]



Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 2016 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

A farsa dos feijões verdes

                  

 
Domingo de sol radiante. A feira livre que acontecia todos os finais de semana, em bairro suburbano, estava efervescente. Os feirantes disputavam os fregueses que ali iam adquirir desde gêneros alimentícios aos mais variados tipos de mercadorias, tais como: Roupas, sandálias, panelas, brinquedos, artigos “Made in China” e muito mais.
Em um lugar privilegiado no centro da feira, encontrava-se uma pequena banca onde o vendedor oferecia feijões verdes.
Não era época de colheita de feijão, no entanto o vendedor assegurava que os mesmo provinham de uma região em que a plantação deste tipo de grão não sofria com a falta de água, pois se tratava de agricultura irrigada, portanto feijão verde era o que não faltava.
Aos “berros”, anunciava o produto elogiando sua qualidade e procedência:
- Olha o feijão verde, fresquinho e de boa qualidade!
Aos poucos as pessoas iam adquirindo o produto, e em menos de duas horas o estoque que havia levado para venda havia esgotado.
Um dos compradores do feijão, seu Manoel, assim que chegou a sua casa solicitou que sua esposa fizesse um bom “baião de dois”. Sem cerimônia, dona Maria, sua patroa, tratou de imediatamente colocar a água no fogo para o preparo da comida.
Enquanto o feijão cozinhava, dona Maria colocou o arroz no fogo e foi cortar os legumes e as verduras que seriam adicionadas ao cozimento dos cereais para dar um sabor especial ao prato. Neste interim, Manoel vai deitar-se no sofá da sala e assistir televisão enquanto o almoço não fica pronto.
Alguns minutos depois a mulher vai até o fogão e desliga o fogo do arroz, que já se encontra no ponto, e destampa a panela do feijão para colocar os temperos e ficou surpresa quando notou que o caldo estava verde e os feijões brancos. 
- Manoel, vem cá homem, onde compraste este feijão? – Perguntou curiosa.
- Na feira Maria, por quê? – respondeu de prontidão.
- Porque tu foste enganado homem. – revelou.
- Como enganado mulher, são feijões verdes não são? – Disse.
- Não, não são feijões verdes, são feijões brancos pintados de verde. Olhe só a cor do caldo. - Falou a mulher revelando a trapaça feita pelo feirante.
- Canalha esse vendedor, bem que eu estava desconfiado de sua lábia. – Desabafou.
- E agora, o que fazer. – perguntou sua companheira.
- Vou pegar esse sujeito e dar-lhe uma lição. No próximo domingo vou novamente à feira e ele vai “ver o que é bom pra tosse”. Aproveito e compro feijão verde em um lugar que tenha procedência. Jogue tudo isso no lixo, pois pode fazer mal a nossa saúde. Para o almoço prepare qualquer coisa para nós comermos. – Sentenciou, enraivecido!
No final de semana seguinte seu Manoel foi à feira e encaminhou-se até o local onde o feirante costumava ficar. Lá estava ele, e ao seu redor um monte de pessoas que ameaçavam linchá-lo. Eram os fregueses do domingo passado, que também foram ludibriados pelo falsário.
O homem estava cercado. Todos pediam de volta o dinheiro que tinham dado na compra dos feijões. Alguns mais exaltados chutavam os caixotes em que suas mercadorias estavam expostas, levando-as ao chão.
A polícia foi chamada e o farsante foi detido e levado à delegacia juntamente com as pessoas envolvidas no caso, para que se esclarecesse o acontecido.
Diante o delegado o meliante confessou que tingia os feijões brancos de verde, explicando que os colocava dentro de uma bacia grande com água e acrescentava corante verde deixando-os de molho de um dia para o outro, assim no dia seguinte eles estavam bem “verdinhos”.
Feita a confissão a autoridade policial o enquadrou em crime fraude, prevista no artigo 175 do Código Penal Brasileiro.
Seu Manoel e todos os envolvidos na trama voltaram as suas casas de mãos abanando. No entanto, todas elas levavam consigo o sentimento de dever cumprido diante tantas arbitrariedades provocadas por alguns indivíduos nocivos à sociedade.
Quando aportou a casa Manoel foi arguido por sua esposa:
- Então, Manoel, conseguiu o dinheiro de volta. – Perguntou ansiosa.
- Não, não consegui. – respondeu o homem.
- Mas compraste feijão verde em outro local? – Perguntou, novamente.
- O seguro morreu de velho, minha querida. De hoje em diante, “baião de dois” com feijão verde só em época de colheita. – Sentenciou.




                           Otaviano Maciel de Alencar Filho
             (Copyright© 2016 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Na companhia do pajé




          Uma grande empresa que atua em âmbito nacional resolveu alguns anos atrás promover entre seus colaboradores um programa de incentivo à realização profissional, bem como trabalhar a qualidade de vida dos mesmos no ambiente organizacional.
          Estrategicamente buscou-se a formação de um grupo de funcionários, escolhidos entre eles mesmos, para fazerem parte de um treinamento específico, que os tornariam aptos a serem multiplicadores do respectivo aprendizado dentro de suas unidades de trabalho, logo após o término da capacitação.
          Foi contratada uma profissional atuante na área de treinamento motivacional, que então reuniu o grupo e delineou os trabalhos a serem desenvolvidos durante o período de desenvolvimento do projeto. Os encontros eram quinzenais, sempre no final de semana, de preferência nos sábados, de vez que grande parte dos participantes não dava expediente neste dia.
          Nestes encontros era trabalhado o lado emocional do indivíduo, a conscientização ecológica, o respeito à diversidade, a responsabilidade social, o valor do trabalho para o crescimento tanto profissional como individual do ser humano. O clima de descontração e de espontaneidade que reinava nos locais de encontro induzia os participantes a se envolverem cada vez mais nas dinâmicas que eram realizadas. Enfim, era uma formação holística que visava, sobretudo, a harmonia do ser consigo mesmo, e com o ambiente que o cercava. O objetivo final era desenvolver no indivíduo a capacidade de formar raciocínio crítico e reflexivo diante as adversidades surgidas no ambiente de trabalho para que ele pudesse tomar decisões acertadas diante as adversidades do dia a dia em seu ambiente de trabalho.
          Durante o período em que o treinamento foi realizado previu-se algumas visitas a locais onde se poderia por em prática os assuntos estudados e debatidos nos encontros quinzenais. A visita de campo incluía ida às favelas, parques ecológicos, serras e até uma comunidade indígena, localizada em um município da região metropolitana, próximo à cidade de Fortaleza.
           A visita à reserva indígena dos Pitaguary foi marcada para um sábado e no dia aprazado todos os integrantes do grupo, aproximadamente vinte e cinco pessoas, se fizeram presentes ao local, aguardando a chegada do coletivo que os levaria a aldeia dos nativos.
                 Por volta das sete horas da manhã o ônibus aportou ao local e imediatamente todos o adentraram e sem demora seguiram o destino traçado. A expectativa era grande, somente duas pessoas do grupamento, além da instrutora, haviam tido contato com uma comunidade autóctone e isso era motivo de cautela por parte de algumas pessoas do grupo.
              Cerca de uma hora depois o coletivo chegou ao seu destino e, para surpresa geral, eles foram recebidos na aldeia pelo cacique da tribo, que se fazia acompanhar de dois outros índios.  Portavam-se a caráter: arco e flecha e os rostos estavam pintados nas cores pretas e vermelhas. O cacique era um homem de meia idade, porte atlético, pele bronzeada, cabelos lisos, rosto marcado de rugas, que o tempo não tardou em perdoar.
          - Sejam bem vindos a nossa comunidade – falou o chefe da aldeia.
         Nossa facilitadora já o conhecia e num amistoso gesto agradeceu a recepção dispensada a turma.
       Todos foram convidados a fazerem uma exploração no local e dirigiram-se imediatamente até uma escola que se situava na zona central da zona indígena.
             Naquele dia a escola não estava funcionando, pois era sábado. Foram informados que na escola os alunos tinham aulas de português, matemática, saúde, artes, cultura dos povos indígenas além de estudarem também princípios rudimentares da língua tupi, como uma forma de manterem vivas as tradições ancestrais.
               Já eram quase dez horas e a comitiva foi convidada a irem até a casa do pajé, a figura mais respeitada na comunidade. Chegando lá foram recebidos por sua esposa, pois o pajé estava em um ritual de cura e logo viria recebê-los. Sentaram todos ao redor de uma grande mesa e após alguns minutos o pajé apareceu trazendo consigo uma enorme bacia cheia de bananas e depositou-as sobre a mesa, dizendo que se servissem a vontade. O pajé comeu tanta banana que ficou sem ar. Parecia um peixe fora da água debatendo-se a procura de ar para respirar.
           O pajé aparentava ser mais jovem que o cacique, porém não tinha o mesmo porte atlético: Tinha uma enorme barriga e a pele era escura acinzentada. Ornamentava-se de um cocar, alguns colares dependurados no pescoço e vestia uma bermuda bem ao estilo dos cidadãos que viviam na metrópole.
               - Que índio mais sem graça – disse alguém!
         - Não existe mais índio verdadeiro, todos sofreram a aculturação da civilização moderna – sentenciou outro indivíduo.
           Após o repasto o pajé os convidou para irem até uma localidade onde era desenvolvido um projeto de agricultura comunitária de grande sucesso.
           Todos, novamente, pegaram o ônibus que os levaria até o referido local. O pajé sentou-se com sua companheira nas poltronas que se localizavam no centro do coletivo, bem abaixo de uma das saídas do ar condicionado. Não demorou muito e o pajé começou a se contorcer, tremendo de frio. Puxou as miçangas do pescoço de um lado para o outro na tentativa de cobrir a “pança” que estava desnuda, mas de nada adiantou. Abraçou a esposa procurando se aquecer. Coitada da mulher quase foi sufocada pelos abraços do esposo! A situação cômica fez com que grande parte dos passageiros não segurasse as risadas, o que deixou o pajé acanhado.
          O ônibus parou no local indicado e todos desceram e assim puderam comprovar o sucesso do projeto implantado na localidade.
          Passava das doze horas quando o grupo deixou o local e dirigiu-se a uma casa de campo localizada no sopé da serra, onde ali almoçaram e descansaram, sem antes, contudo, deixarem de passar por um ritual bastante comum na cultura indígena: tomaram um banho de ervas para afastar o negativismo e trazer bons fluidos.
             A mesa era farta e o cardápio era peixe cozido. Mais uma vez o pajé protagonizou uma cena engraçada que levou todos a se entreolharem: Tomando uma bacia de alumínio de tamanho médio a encheu de arroz e pirão de farinha de mandioca até as bordas, e para completar a montagem do prato depositou dois grandes pedaços de peixe sobre a “Montanha de comida”.
          O dia já findava e a agradável excursão chegou ao fim. O pajé e sua esposa foram deixados na aldeia e, depois de feitas as despedidas, o préstito seguiu rumo de volta à cidade onde os membros da equipe moravam, indo cada qual às suas respectivas residências. 




                                                         Otaviano Maciel de Alencar Filho
                           (Copyright© 2016 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Um morto não tão morto

                                  



Era de madrugada quando Dona Braga acordou com o barulho provocado pela agitação das galinhas que ela criava. Acordou Biel, seu esposo, para juntos irem ver o que estava acontecendo lá nos fundos da casa.
Ainda sonolentos, caminhando a passos curtos, com muita dificuldade, devido à idade avançada os dois foram em direção à porta da cozinha, que dava acesso ao quintal onde estava localizado o pequeno galinheiro que abrigava cerca de quinze galináceos. As luzes foram acesas. Ambos perpassaram o olhar por todo o ambiente, assegurando-se de que tudo estava em ordem e seguro antes de se dirigirem até o poleiro.
Seu Biel tinha a mania de “conversar” com as galinhas, então foi logo entabulando um colóquio com elas:
- Tchiii Tchiii Tchiii, vem pra cá Flôzinha... O que tá acontecendo? O que vocês estão vendo?
Dona Braga já estava acostumada com esta mania de seu companheiro conjugal e não se importava com este pormenor, até achava engraçado o jeito de ele chamar as galinhas.
Como Flôzinha e nenhuma das galinhas respondiam aos suas perguntas, resolveram inspecionar o local minuciosamente.
Foram tangendo as aves para o canto do poleiro para poderem ver melhor o que estava assustando elas. Quando o recipiente onde colocavam comida para elas foi afastado ficaram espantados com o que viram: Em um canto, acuado, avistaram um enorme roedor.
- Biel, olha o tamanho deste rato. É um guabiru!  Ele tá querendo comer os ovos e nossas galinhas. Eu sabia que tinha algo de errado, elas não são de ficarem agitadas.
- Espere só um minutinho que eu vou pegar um pau para nós matarmos esse safado. – Falou Biel, indo procurar um pedaço de madeira.
Enquanto isso Dona Braga não arredava os olhos do bicho, que imóvel e de boca arreganhada, mostrando grandes dentes afiados dava sinais de que não ia ser fácil retirá-lo daquele local.
Quando Biel chegou, foi logo tentando acertar uma paulada na cabeça do bicho que, esquivando-se, deu um pulo e correu para o outro lado.  Biel correu junto e mandou uma pancada, não se sabe se certeira, no animal que ficou estatelado no chão.
- Viu Dona Braga, é assim que se mata essa peste! O bicho de tão ruim não sai nem sangue, só tem tamanho. Agora é só pegar ele colocar dentro de um saco e mais tarde quando o sol raiar eu vou dar um fim neste desgraçado – Disse alegre com o sucesso da empreitada.
Quando, então, de posse de uma sacola foi pegar bicho este deu um salto enorme em cima dele que, de susto, foi ao chão, enquanto o pobre animal foi se esconder no canto da parede. Dona Braga deu um grito de medo e com isso acordou o vizinho do lado que logo veio ver o que estava acontecendo. Chegando ao local ficou sabendo do que se tratava e ofereceu-se para ajudá-los a pegar o bicho. Logo notou que não se tratava de um guabiru, mas de um cassaco bem grande e gordo.
 Biel, apontando para ele disse:
- Olha, ele já tá morto. Tá de pernas para o ar.
O vizinho exclamou:
- Não Biel, ele não tá morto, está se fazendo de morto. O gambá ou cassaco finge-se de morto para escapar de seus caçadores. Fica nessa situação até eles irem embora e só depois sai desse estado de imobilidade que nós estamos presenciando.
- Bicho sabido esse, não? Mas agora ele não escapa, vou dar-lhe uma paulada bem na moleira e quero ver se ele não morre. - Proferiu Biel estas palavras, enquanto seu vizinho se adiantava para lhe falar algo.
- Biel, Deixa que eu cuide disso. Você não sabe, mas carne de cassaco é muito boa. Eu vou pegá-lo e fazer um bom ensopado dele pra servir de tira-gosto afinal, amanhã é sábado e é dia de tomar umas pingas. – Falou o homem, animadamente.
Então de posse de uma toalha, jogou-a em cima do bicho que não deu trabalho para ser capturado e o levou para sua casa.
Coitado do animal... Escapou de um tipo de morte para morrer de outro: Dentro uma panela!





                              Otaviano Maciel de Alencar Filho
              (Copyright© 2015 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

domingo, 8 de novembro de 2015

O mito que incomoda


No início da década de 1970, no município de Fortaleza, capital do estado do Ceará, foi inaugurado, aquele que seria, para a época, o maior conjunto Habitacional da América Latina. O empreendimento foi realizado na gestão do então prefeito da cidade, José Walter Cavalcante. Em sua homenagem o conjunto residencial recebeu seu nome.
Naquela época o contingente populacional não tinha expressividade numérica que situasse a cidade como uma cidade de grande porte. O número de cidadãos fortalezenses era inferior a um milhão de habitantes, bem diferente da realidade de hoje em dia: Fortaleza tem aproximadamente três milhões de habitantes e conta com um parque industrial e comercial de significativa relevância econômica, o que a coloca entre as cinco maiores regiões metropolitanas do país. A cidade até então era conhecida como uma cidadezinha de pescadores, onde a indústria e o comércio eram incipientes.
A partir de então houve um grande avanço nestes setores da economia com a implantação de indústrias, gerando, dessa forma, um incremento na área comercial, e assim o município começou a receber trabalhadores vindos do interior do estado, e até mesmo de estados vizinhos para comporem a mão de obra necessária à manutenção dos respectivos setores, alavancando, dessa forma, o progresso municipal.
A população começou a aumentar e o conjunto José Walter passou a receber seus primeiros moradores. Muitos passavam o dia trabalhando no centro da cidade ou em locais mais distantes do bairro onde o conjunto se localizava.
Devido à localização distante da sede do município, - o conjunto situa-se na zona sul da cidade - passou a ser conhecido por “Cidade dormitório”, já que alguns moradores só voltavam ali tarde da noite para dormirem e no outro dia, de madrugada, retornavam às empresas onde trabalhavam. Outros trabalhadores passavam dias sem retornarem a seus lares. Nessa época não existiam vias recortando a cidade como nos dias atuais, tampouco um sistema de transporte público eficiente.
Com a ausência dos maridos em casa, as esposas ficavam sozinhas o dia inteiro e isso serviu de motivo para que surgisse uma lenda por parte das pessoas: Diziam elas que os maridos estavam sendo “traídos no matrimônio”, de vez que as mulheres não suportando muito tempo sem a presença do parceiro passavam a receberem a visita do “negão”, do “Ricardão”, do “pé de pano” e por ai vai. Outra lenda reza que por serem todas as casas iguais às outras, o marido quando retornava do trabalho, muitas vezes errava de casa, adentrando em outra que não a sua. Existem várias outras hipóteses para o surgimento desse mito, cada um mais extravagante que o outro.
A partir de então os homens passaram a ser tachados de “cornos”, “chifrudso” e coisas do gênero. O bairro passou a ter a fama de ser um local onde quem ali morasse ficava conhecido pela difamatória alcunha de “corno”.
A fama do bairro foi tanta que ultrapassou os limites do município e hoje o “Zé Walter” é conhecido no Brasil inteiro e até no exterior.
Surgiram, então, várias piadas a respeito do conjunto, por exemplo, a que diz que se houvesse uma chuva de argolas nenhuma cairia no chão. Outra diz que com tantas “antenas” no bairro todas as estações de rádio e televisão, inclusive as estrangeiras, seriam captadas sem problema algum. Outra assevera que se contassem as casas no sentido de ida existiria um corno em uma e outra não e no sentido de volta aconteceria o mesmo. Já se cogita que a NASA estaria recrutando os homens da região para participarem de um projeto de busca de vida em outras galáxias. A participação se daria da seguinte forma: Formar-se-ia um grande círculo com os homens que, de mãos dadas, e estes por sua vez ligados a modernos computadores, apontariam suas potentes “antenas” em direção ao espaço esperando algum sinal a ser registrado pelos equipamentos.
Existe até uma associação. Isso mesmo: Associação dos Homens Mal-Amados do Ceará. O sócio tem direito a assistência jurídica e psicológica entre outros serviços. Um dos grandes desafios é encontrar um presidente para a associação, pois o atual vai deixar o cargo que ocupa há mais de quinze anos. O problema é que até o momento não apareceu candidato algum.
Outro dia, andando pelo centro da cidade, resolvi parar e observar dois homens que, pelo jeito que se comportavam, eram amigos que não se viam há bastante tempo. Conversavam animadamente:
- Faz tempo que não te vejo, Mário. Como está você e a família?
- Estou bem, Claudio, obrigado pela atenção dispensada!
- Está morando muito longe de onde morava?
- Estou morando lá no Mondubim.
Claudio, notando em Mário certo constrangimento ao responder a pergunta, aproveitou a ocasião para tirar um chiste.
- Ah! Você tá morando no “Zé Walter”, né?
- Não, é no Mondubim, um bairro vizinho ao “Zé Walter”. - Sentenciou Mário.
- Deixa de “besteira” Mário, o José Walter é um bairro bom para morar, por que não diz logo que está morando lá?
Impaciente e desconsertado com a conversa, Mário redarguiu:
- Já te disse que não moro lá, tá achando que sou “corno” para morar no “Zé Walter”?
- Não, não é isso... – Falou Claudio, morrendo de rir da atitude do amigo.
Os dois continuaram a conversa e eu saí pensando: o cearense é mesmo um sujeito bem-humorado, pois até de uma situação ruim ele sempre tira motivos para risos. 





                                                 Otaviano Maciel de Alencar Filho
                                    (Copyright© 2015 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O homem sem sombra



Foi uma surpresa desagradável e ao mesmo tempo aterrorizante, quando Leomar se deu conta der que não tinha sombra. Isso mesmo, seu corpo não produzia sombra quando ficava entre uma fonte de luz e um anteparo onde sua sombra pudesse projetar-se.
Era um dia de sol escaldante, e enquanto caminhava resolveu amarrar as tiras das sandálias que estavam frouxas. Foi quando percebeu a ausência da sombra que o seu corpo deveria projetar no solo torrificado sob a ação da luz proveniente do astro rei.
 Assustado e ao mesmo tempo sem saber o que fazer, voltou imediatamente para casa e passou alguns dias sem sair do recinto.
Notando a ausência de Leomar, moradores da vizinhança, que só o conheciam de vista, resolveram ir até sua casa e saber o que estava acontecendo.  Chegando, encontraram a casa fechada.  Foram chamando por ele:
- Alguém, está ai dentro?
Nenhuma resposta foi ouvida. Após alguns minutos resolveram “botar a porta adentro”.
A surpresa foi geral, quando encontraram, em um canto escuro da cozinha, Leomar que, acuado e acabrunhado relutava em deixar o lugar em que se encontrava e sair para conversar na varanda da casa.
- Vamos senhor, saia deste lugar sombrio. – Falou um dos vizinhos.
Com voz trêmula e reticente, o homem redargui:
- Não posso, estou doente, não posso tomar sol.
- Que conversa tola é esta, o sol é fonte da vida. – Disse um senhor de meia idade.
Enquanto a conversa se desenrolava, alguém teve a ideia de acender um candeeiro que se encontrava sobre a mesa. Léo advertiu que mesmo a luz do candeeiro, era-lhe prejudicial. Entretanto o mesmo foi aceso e puderam ver o homem, que estava tremendo de medo. Ninguém notou nada de anormal e não entendiam o motivo de tanto assombro, até que Léo, ficando entre a fonte de luz, não projetando sombra na parede chamou a atenção de um uma senhora que, espavorida, gritou:
- Meu Deus! Virgem Maria, o homem não tem sombra!
Quando todos constataram o acontecimento saíram do local, apavorados. Logo a notícia se espalhou pelo arraial.
Com o passar do tempo, Leomar acostumou-se com o fato de não ter sombra e passou a ter uma vida quase normal, evitando sair de dia sob a luz direta do sol e para isso utilizava-se se um grande sombreiro. Foi esta a forma que encontrou para esquivar-se da lembrança da ausência de sua sombra.
O “Homem sem sombra“, como ficou conhecido na cidadezinha onde morava, despertava a curiosidade de todos os moradores e até mesmo de visitantes de outros locais que vinham para vê-lo e constatar a veracidade do fenômeno. Todos queriam saber se era possível acontecer algo inusitado, como o de não se ter sombra.
Muitos acreditavam que tudo não passava de charlatanice e consideravam-no um exímio prestidigitador.
Durante muito tempo foi alvo de pesquisas que, inconcludentes, não chegaram a afirmar a veracidade do fenômeno que, no entanto, passou para o rol dos acontecimentos miraculosos.
O intenso assédio das pessoas, com seus faróis de luzes ofuscantes, na esperança de captarem nem que fosse uma penumbra de seu magérrimo corpo, tirava-lhe o minguado sossego.
Certo dia, quando caminhava pelo povoado, observou um transeunte que se encontrava diante a vidraça de pequena loja. Aproximou-se e começou uma pequena conversação, enquanto ambos admiravam os produtos expostos através da vidraça.
Subitamente, Leomar foi tomado de um imenso susto quando não viu seu reflexo na janela de vidro. O medo foi maior ainda quando notou que o homem ao seu lado também não refletia sua imagem, o que o levou cair no chão de tão apavorado que ficou. O desespero aumentou ainda mais quando, já no solo, viu que o homem também não projetava sombra no chão.
- Que foi, sou tão feio assim que assusto as pessoas? – Falou o estranho.
Leomar não ousava abrir a boca e, petrificado,ouvia os reclames do homem.
- Levanta rapaz, parece que está vendo defunto!
Trêmulo e fatigante, Leomar balbuciou:
- Se estou diante de um morto não sei... Mas desconfio que eu... Não esteja mais vivo.





                                              Otaviano Maciel de Alencar Filho
                                 (Copyright© 2015 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

terça-feira, 21 de julho de 2015

Andanças





Tenho tido
 muitas vidas
Neste mundo
de meu Deus.
Tenho tido
muitos sonhos
Junto àqueles que são meus.
Fui do ar,
a revoar.
Fui das aguas,
a nadar.
Fui da terra,
a andar.
Fui do fogo,
a flamejar.
Fui, sou e serei:
Do mundo,
 da vida...
Um Ser vivo a amar!






Otaviano Maciel de Alencar Filho
(Copyright© 2015 by Otaviano Maciel de Alencar Filho)

Mentiras e mais mentiras

                                         Atualmente vemos ordinariamente na imprensa escrita assim como nas mídias digitais, infor...