sexta-feira, 5 de julho de 2013

Quando fala o coração




      Quem sou eu, quem é você?
  Qual de nós tem a razão?
Penso que esta questão
     Quem resolve é o coração.

Somos dois desiludidos
 Num amor tão proibido.
 Deveríamos ter pensado
       Antes de nos apaixonarmos!

Mas querer não é poder
Quando fala o coração.
   E não há ninguém capaz
   De desfazer nossa união.

Só há uma solução.
Diante esta questão:
      É vivermos nosso amor
                                                                  E brindar nossa união!




Otaviano Maciel de Alencar Filho

Desmatamento

A mata verde sofre sem ser amparada!
Animais em frenética disparada.
Pássaros em debanda.
E o fogo avançando sem dó
Na garganta sinto um nó.
O estalar das verdes-campinas
Ante o insano fogaréu
Somente é abafado
Pelas brumas que vão ao céu.
Num lampejo de agonia
A natureza em chamas ardentes
Sofre sob a tirania
Do fogo abrasador!
Triste e desolador cenário!
Não dá para acreditar.
A ganância humana
Em sua insanidade vulgar
 Devasta toda a natureza
Em busca de o dinheiro ganhar.
E assim vai pensando o homem
Num desatino profundo
Destruindo a natureza
E toda a beleza do mundo.



Otaviano Maciel de Alencar Filho



Lembranças de uma tragédia canina





Certo dia, pela manhã, quando foi à padaria pra comprar pão e leite, que seriam degustados no café da manhã, minha esposa, ao chegar ao estabelecimento comercial foi surpreendida por pequeno cãozinho, que de imediato ficou junto a seus pés.
Tendo efetuado o pagamento das mercadorias, dirigiu-se ao balcão para receber os produtos, para, então, retornar ao lar. O animalzinho acompanhou-a, seguindo seus passos. A princípio ela não observara que o mesmo a seguia. Após alguns instantes nota a sua presença. Resolve, então, voltar à padaria para saber a quem ele pertencia. Após algumas perguntas e procura nos arredores, em uma tentativa infrutífera de localizar o proprietário do cachorrinho, resolve levá-lo para casa e aguardar se alguém iria reivindicar a posse do canino.
Os dias se passaram e como nenhuma pessoa apareceu dizendo-se dono do pequenino animal, resolvemos ficar com ele. Era pequeno mesmo. De tão pequeno foi “batizado” de Pingo, e a partir daquele momento Pingo arranjara definitivamente um novo lar.
Pingo era meigo, de cor branca com rajado-marrom, olhos grandes e arregalados. Era um verdadeiro cão fiel, no sentido lato da palavra. Parecia pressentir nossos sentimentos: angústias, alegrias, dores.
Quando Pingo passou a fazer parte de nossa família já tínhamos uma cadelinha chamada Anita. Anita era alva como o algodão, inteligente, astuta, corajosa e brava, na defesa do território, quando algum estranho intentava entrar na casa sem permissão. Tal qual Pingo, uma fiel companheira. O interessante é que os dois bichanos nunca brigavam entre si, a não ser é claro quando a ração de um acabava e ia comer a ração do outro.
Meu filho Victor, que nessa época contava menos de dez anos, o elegeu como sua mascote de estimação, e quando ele voltava da escola os dois brincavam correndo dentro da casa ou no quintal. Pingo ficou muito apegado a ele, parecia que tinha nos esquecido. Só tinha olhos para ele. E que olhos!
Em determinada época, mudamos de casa. Pingo e Anita demoraram a se acostumarem com o novo ambiente, que não tinha quintal, apenas um pequeno espaço no final do imóvel que servia como área de serviço. Em contrapartida a área construída da casa era superior em muito ao imóvel no qual morávamos antes.
As brincadeiras aconteciam, agora, dentro de casa em um corredor que, saindo da sala, passava pelos quartos e ia até a cozinha e, finalmente, a área de serviço.
Lembro-me que quando chegava do trabalho, Anita percebia a minha chegada, estando eu ainda no portão e ela nos fundos da casa. Ligeiramente corria até o portão com seus latidos estridentes e o rabinho balançando, demonstrando alegria com a minha chegada.
Às vezes resolvia brincar de esconde-esconde com ela. Chegava bem de mansinho e me escondia detrás da porta de um dos quartos e gritava:
- Anita!
Imediatamente ela saia pela casa me procurando, focinhando em todos os lugares até me encontrar, quando, então, recebia alguns tapinhas na cabeça e afagos na região do pescoço, saia feliz da vida!

Porém, certo dia, Anita amanheceu triste, acabrunhada e mofina. Estava doente. Esperamos durante o dia para ver se ela tinha melhoras. Minha esposa fez um chá de boldo e deu a ela. Talvez a coitadinha tivesse ingerido algo estragado e no dia seguinte amanhecesse melhor. Era o que esperávamos, mas não foi o que aconteceu.  Anita piorara. Rapidamente levei-a ao hospital veterinário onde fez exame de sangue e constatou-se que ela estava infectada com uma bactéria que era transmitida pelo carrapato. Passei o dia com ela no hospital enquanto ela tomava soro e medicação. Já no final do dia, por volta das 16hs, recebeu alta. Com o receituário em mãos passei em uma farmácia veterinária e comprei a medicação a ser administrada a ela. Chegamos a casa e a coloquei no chão e fui preparar a medicação. Quando me aproximo noto que Anita já se encontrava sem vida. Foi muito dolorosa para todos nós tamanha perda, contudo, Pingo ajudou-nos a superar esta perda. Fizemos a desinfecção do local como mandara o veterinário. Logo depois adquirimos outro cãozinho que recebeu o nome de Loopi, que passou fazer companhia a pingo. Alguns meses se passaram e Pingo foi infectado pela mesma bactéria, cujo poder letal é muito grande, vindo a falecer exatamente como Anita. Foi mais um “baque” na família, principalmente para Victor, que demorou a aceitar a realidade dos fatos. Nova desinfecção foi promovida em todo o ambiente onde os animais ficavam a maior parte do tempo. Realmente a desgraça assolara nosso lar, pois Loopi também não escapou ao mesmo destino de Anita e Pingo. E pensar que todo esse acontecido se deu devido à existência de uma “vacaria” que ficava localizada no final da rua. Os animais transitavam normalmente pela local, deixando em seus rastros os parasitas que infectaram nossos bichinhos. Eternizamos os momentos de alegrias que nos proporcionaram, em forma de lembranças, em nossos corações. 


Otaviano Maciel de Alencar Filho

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Atroz sofrimento





O que canto me faz dormir.
O que vejo me faz sentir.
O que sinto me faz viver
Um sonho que me faz sofrer.

Quando durmo, no sonho fico a recordar.
Quando sinto fico a pensar.
Enquanto vivo fico a fingir,
E do sofrimento fico a fugir.

Da vida não quero nada
Além do viver tão bem.
Também desejo alegrias
A todos que vivem além.

Sofrer não é o mal pior a enfrentar.
Pior é não sofrer e no mal caminhar.
A dor visita sempre o doente
Que o caminho do bem rejeita trilhar!



Otaviano Maciel de Alencar Filho

sábado, 18 de maio de 2013

O bêbado e o motorista


               
Quando o coletivo deixou o ponto final, no centro da cidade, para iniciar nova viagem, logo no início da manhã, rumo ao subúrbio, levando em seu interior aproximadamente quinze passageiros, ninguém poderia imaginar o que sucederia a partir daquele instante.
Alheios aos acontecimentos do porvir, os passageiros, cada qual em seu mundo interior, exceto um senhor de meia idade que se encontrava sentado em uma poltrona, no canto esquerdo da traseira do veículo, que, aliás, apresentava visíveis sinais de embriaguez, ignoravam a beleza da exuberante vegetação, composta de árvores centenárias, dentre as quais se podiam identificar magníficos Ipês Amarelos e Roxos.
O cobrador do coletivo, de sua poltrona, observando atento o homem sentado no final do ônibus, e percebendo que o mesmo se encontrava ébrio tratou de ficar quieto em seu lugar e esperar até ele resolver passar pela roleta e seguir seu destino, afinal ele não estava incomodando.
Subitamente, o homem arregala os olhos e depara-se com o cobrador olhando para ele e pergunta com voz estridente:
- Tá olhando o quê, nunca viu um homem embriagado?
                        - Nada, apenas estou vendo se está tudo bem com o senhor! - Respondeu.
- Claro que está tudo bem, o que poderia estar errado comigo? Só porque tomei uns goles a mais preciso de cuidados especiais? Falou com uma voz arrastada.
                        - O senhor não entende o que digo. Quero dizer que na situação em que se encontra, pode sofrer um acidente, caso o motorista precise brecar repentinamente o veículo. - Falou em tom amistoso para não irritá-lo.
                        - Você tá de brincadeira comigo. Esse carro parece uma tartaruga andando, já faz um tempão que eu deveria ter chegado a minha casa e nada. - Falou debochando.
Os passageiros saíram da inércia sensorial em que se encontravam e assistiam ao diálogo sem se envolverem no caso. O motorista, pelo retrovisor interno, passou a acompanhar a movimentação nos fundos do veículo e pôde escutar toda a conversação. Sentindo-se ferido no orgulho, tratou de mostrar perícia no volante e “sentou” o pé no acelerador.
O ônibus desceu ladeira abaixo velozmente. Os passageiros, apavorados, gritavam e pediam ao motorista para ir mais devagar. O condutor, porém, estava ensandecido e sequer ouvia os clamores dos passageiros.
- Até que enfim o chofer resolveu tirar o pé do freio. - disse o homem, bradando, e dirigindo a palavra aos passageiros.
- Não sei qual o mais louco dos dois, o senhor ou o motorista. - Falou uma senhora, que trajando um jaleco branco, se agarrava ao ferro da poltrona a sua frente, para não ser arremessada no soalho do ônibus.
- Então, não quer chegar cedo a sua residência?  A senhora passou a noite trabalhando no pronto socorro, não foi? Está com sono, pensa que não a observei tirando um cochilo na cadeira? – Concluiu, adiantando-se até a roleta.
- Desse jeito, meu senhor, vou chegar cedo é no céu!- Respondeu a mulher, apavorada.
O motorista, observando que o homem havia levantado do banco, sem se importar com a segurança dos passageiros brecou bruscamente o veículo. O homem, atravessando a roleta, foi arremessado no piso do carro e saiu rolando até a dianteira do coletivo detendo-se próximo ao motorista, que esbraveja:
- Então, engraçadinho, tá querendo briga?
- Não, senhor, o que quero agora é ir para um hospital. Estava só me divertindo um pouco, coisa de bêbado. Não pensei que fosse levar a sério esta brincadeira - Falou o homem, agonizante, que apresentava um corte no supercílio esquerdo, que sangrava bastante, um hematoma à altura da nuca, além de várias escoriações pelo corpo. Alguns passageiros também sofreram escoriações, porem, leves.
A passageira, auxiliar de enfermagem, aproximando-se, tratou de acalmá-lo, comprimindo a área afetada pelo corte. Levantando o olhar para o condutor do ônibus, falou:
- Veja só o que uma pessoa com raiva é capaz de fazer. Se não tivesse dado ouvidos aos seus reclames, isto não teria acontecido. O senhor também esquece que pôs em risco a vida de todos dentro do coletivo, inclusive a sua?
- Ora, bolas, não tenho “sangue de barata”. Ele precisava de uma lição.
- Por acaso o senhor acredita que um erro conserta o outro? Eu respondo que não. Observe agora a situação: Um homem ferido, precisando de cuidados médicos com urgência; e ademais, você poderá responder processo por lesão corporal dolosa.
Nesse momento, o motorista refletiu sobre sua atitude, e um tanto embaraçado não conseguia esconder o sentimento de vergonha que se apossava de seu ser, enquanto os passageiros dirigiam-lhe palavras de desaprovação a sua conduta.
- Vamos leva-lo imediatamente ao hospital- Disse o mesmo. É o mínimo que posso fazer, por enquanto!
Os passageiros desceram do coletivo, aguardando outro para prosseguirem a viagem.
O condutor, tomando a direção do ônibus, acelerou abruptamente o coletivo que saiu, “cantando pneu”, rumo à emergência hospitalar mais próxima, levando consigo a profissional de enfermagem e o homem ferido!


Otaviano Maciel de Alencar Filho

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Soneto da esperança







O sonho do agora se findou, destarte.
Jaz a esperança no seio escarlate.
Da prole, o levante estandarte
Almeja o esplendor: “Quilate”.

Quimeras já não vingarão.
Lúcido fulgor espargirá.
De o insano poder surgirá
As ruínas de atroz coração.

Bravas cortes surgirão reluzentes,
Ante o fim do renitente,
Envolvidas pelo onisciente.

Murmúrio argênteo vivaz
Traz-nos valor eficaz:
A felicidade que satisfaz!




                                    Otaviano Maciel de Alencar Filho

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Humor a todo custo







O som emitido pela sirene anunciava o fim do expediente. A turma que trabalhava no setor de controle de estoque aguardava ansiosamente o momento em que o gerente caminhava até o local onde estava instalado o dispositivo que acionava o estridente artefato sonoro.
 O motivo de tamanha expectativa se dava por ser final de semana: sexta-feira, dia de “curtição”.  Formávamos um grupo de pessoas e íamos até o centro da cidade, onde ficavam localizados alguns bares e casas de espetáculos de humor. Para ser mais preciso, o nosso ponto de encontro era o antigo calçadão C. Rolim, referência feita ao conjunto de lojas de calçados e confecções, de propriedade do grupo C. Rolim onde eram realizadas as apresentações artísticas.
                         As calçadas ficavam lotadas de mesas e cadeiras, que eram colocadas pelos comerciantes, na busca de ganharem a preferência dos frequentadores do local nos finais de semana.  
Em meados da década 1980, era comum a apresentação de humoristas cearenses, que estavam iniciando suas caminhadas rumo ao estrelato, em praças públicas, calçadas ou qualquer outro lugar onde houvesse aglomeração de pessoas.  Cantores, humoristas, palhaços, prestidigitadores e outros artistas faziam suas apresentações e, naturalmente, eram ovacionados pelo publico presente.
Naquela sexta-feira deixamos o local de trabalho, e contentes por haver chegado mais um final de semana, caminhamos até o ponto de ônibus mais próximo comentando sobre as atrações que logo mais iríamos assistir. A programação desta sexta-feira contava com a apresentação humorística de vários artistas da terra. O coletivo aporta, enquanto ainda falávamos sobre a diversão que iríamos ter. Adentramos o veículo que logo seguiu rumo a Praça José de Alencar, ponto final da linha de ônibus. Descemos e caminhamos pela Rua Guilherme rocha e no cruzamento com a Rua Senador Pompeu decidimos dar uma passada pelas Lojas Americanas e comprarmos algumas guloseimas
 No magazine, fomos até a seção de cereais e pegamos alguns biscoitos. Enquanto isso, Marcio foi até a seção de perfumaria. Resolvi segui-lo. Ao chegar ao local observei que ele estava experimentando um desodorante. Percebi que ele estava se perfumando e aproveitando a oportunidade dos fiscais não estarem por perto. Evidentemente sua atitude não era lícita. Mas... Quem nunca foi ao supermercado e na seção de perfumaria não “passou” um pouquinho de loção no punho para sentir o aroma do perfume? Pois bem, aproveitei também o “embalo” e fui experimentando os desodorantes, sempre atento aos fiscais, pois eles não deixavam abrir os frascos.
Num misto de ansiedade e temor em não ser flagrado, tomei em minhas mãos um spray e levei-o até a altura do pescoço, sempre olhando para os lados. Premi o frasco e senti uma coisa gelada em meu pescoço. Ignorei. Afinal todo desodorante em aerossol é “geladinho”.
Sai do estado em que me encontrava, com meus colegas dando gargalhadas e apontando para mim.
Quando olhei para baixo fiquei mais apavorado do que estava: o frasco que estava em minhas mãos não era de desodorante, mas de creme para barbear. Imediatamente larguei-o e passei a retirar grande quantidade de espuma que se alojara sob meu queixo descendo pescoço abaixo indo de encontro à camisa de cor vermelha que estava usando. E agora, como sair daquele local sem ser visto. Se fosse pego iria parar em uma saleta com uns grandalhões, levar uns bofetões e ainda pagar pela mercadoria!
Abruptamente, sem pestanejar, sai de “fininho”, buscando a saída, enquanto os três “amigos da onça” continuavam a me ridicularizar. Saindo da loja fui até a Praça do Ferreira com Jorge me acompanhando. Ficamos aguardando a chegada de Márcio e Orlaneudo, que foram pagar os biscoitos. Enquanto isso esperava secar a mancha branca que ficou em minha camisa.
Quando chegaram não pararam de gozar com o acontecimento. Um tanto bravo, bradei:
– Então não vão parar de dar risadas, afinal de contas o espetáculo é mais adiante.
 Alguns minutos depois descemos rumo ao calçadão para ali sim, darmos boas gargalhadas.
Quando chegamos o show já havia começado. Os comediantes animavam a platéia. O interessante é que, sem tirar o mérito dos artistas, notei que meus colegas nunca riram tanto quanto naquela noite. Acredito que por algum tempo eles conservaram em suas mentes as cenas do episodio ocorrido minutos atrás.
O importante foi que me diverti bastante... e eles mais ainda!   




                Otaviano Maciel de Alencar Filho




Mentiras e mais mentiras

                                         Atualmente vemos ordinariamente na imprensa escrita assim como nas mídias digitais, infor...