terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Humor a todo custo







O som emitido pela sirene anunciava o fim do expediente. A turma que trabalhava no setor de controle de estoque aguardava ansiosamente o momento em que o gerente caminhava até o local onde estava instalado o dispositivo que acionava o estridente artefato sonoro.
 O motivo de tamanha expectativa se dava por ser final de semana: sexta-feira, dia de “curtição”.  Formávamos um grupo de pessoas e íamos até o centro da cidade, onde ficavam localizados alguns bares e casas de espetáculos de humor. Para ser mais preciso, o nosso ponto de encontro era o antigo calçadão C. Rolim, referência feita ao conjunto de lojas de calçados e confecções, de propriedade do grupo C. Rolim onde eram realizadas as apresentações artísticas.
                         As calçadas ficavam lotadas de mesas e cadeiras, que eram colocadas pelos comerciantes, na busca de ganharem a preferência dos frequentadores do local nos finais de semana.  
Em meados da década 1980, era comum a apresentação de humoristas cearenses, que estavam iniciando suas caminhadas rumo ao estrelato, em praças públicas, calçadas ou qualquer outro lugar onde houvesse aglomeração de pessoas.  Cantores, humoristas, palhaços, prestidigitadores e outros artistas faziam suas apresentações e, naturalmente, eram ovacionados pelo publico presente.
Naquela sexta-feira deixamos o local de trabalho, e contentes por haver chegado mais um final de semana, caminhamos até o ponto de ônibus mais próximo comentando sobre as atrações que logo mais iríamos assistir. A programação desta sexta-feira contava com a apresentação humorística de vários artistas da terra. O coletivo aporta, enquanto ainda falávamos sobre a diversão que iríamos ter. Adentramos o veículo que logo seguiu rumo a Praça José de Alencar, ponto final da linha de ônibus. Descemos e caminhamos pela Rua Guilherme rocha e no cruzamento com a Rua Senador Pompeu decidimos dar uma passada pelas Lojas Americanas e comprarmos algumas guloseimas
 No magazine, fomos até a seção de cereais e pegamos alguns biscoitos. Enquanto isso, Marcio foi até a seção de perfumaria. Resolvi segui-lo. Ao chegar ao local observei que ele estava experimentando um desodorante. Percebi que ele estava se perfumando e aproveitando a oportunidade dos fiscais não estarem por perto. Evidentemente sua atitude não era lícita. Mas... Quem nunca foi ao supermercado e na seção de perfumaria não “passou” um pouquinho de loção no punho para sentir o aroma do perfume? Pois bem, aproveitei também o “embalo” e fui experimentando os desodorantes, sempre atento aos fiscais, pois eles não deixavam abrir os frascos.
Num misto de ansiedade e temor em não ser flagrado, tomei em minhas mãos um spray e levei-o até a altura do pescoço, sempre olhando para os lados. Premi o frasco e senti uma coisa gelada em meu pescoço. Ignorei. Afinal todo desodorante em aerossol é “geladinho”.
Sai do estado em que me encontrava, com meus colegas dando gargalhadas e apontando para mim.
Quando olhei para baixo fiquei mais apavorado do que estava: o frasco que estava em minhas mãos não era de desodorante, mas de creme para barbear. Imediatamente larguei-o e passei a retirar grande quantidade de espuma que se alojara sob meu queixo descendo pescoço abaixo indo de encontro à camisa de cor vermelha que estava usando. E agora, como sair daquele local sem ser visto. Se fosse pego iria parar em uma saleta com uns grandalhões, levar uns bofetões e ainda pagar pela mercadoria!
Abruptamente, sem pestanejar, sai de “fininho”, buscando a saída, enquanto os três “amigos da onça” continuavam a me ridicularizar. Saindo da loja fui até a Praça do Ferreira com Jorge me acompanhando. Ficamos aguardando a chegada de Márcio e Orlaneudo, que foram pagar os biscoitos. Enquanto isso esperava secar a mancha branca que ficou em minha camisa.
Quando chegaram não pararam de gozar com o acontecimento. Um tanto bravo, bradei:
– Então não vão parar de dar risadas, afinal de contas o espetáculo é mais adiante.
 Alguns minutos depois descemos rumo ao calçadão para ali sim, darmos boas gargalhadas.
Quando chegamos o show já havia começado. Os comediantes animavam a platéia. O interessante é que, sem tirar o mérito dos artistas, notei que meus colegas nunca riram tanto quanto naquela noite. Acredito que por algum tempo eles conservaram em suas mentes as cenas do episodio ocorrido minutos atrás.
O importante foi que me diverti bastante... e eles mais ainda!   




                Otaviano Maciel de Alencar Filho




História de pescador





A garotada eufórica brincava animadamente em frente as suas residências. O período matutino, agraciado pela brisa advinda do litoral, era propício a realização de brincadeiras que exigiam maiores esforços físicos, como: esconde-esconde e pega-pega.
Antonino, o caçula da turma, encontrava dificuldades em correr, pois não contava com a habilidade da qual seus coleguinhas eram portadores, uma vez que sofria de uma deficiência na perna direita, devido a uma fratura femoral adquirida, por ironia do destino, em um desses momentos de diversão entre os amigos.
Enquanto suas mães, rendeiras, sentadas na calçada, teciam os fios de algodão, na confecção de roupas e toalhas das mais variadas espécies, seus esposos, pescadores, despediam-se, indo de encontro ao mar, na busca do sustento para a família.
Antonino ao ver o pai passando por ele, com a rede de pesca sobre os ombros, falou:
- Pai, vê se dessa vez traz pra mim um peixe bem “grandão”.
- Tudo bem, filho. O mar desta vez está prá peixe! – Respondeu, sorrindo.
- Não precisa ficar preocupado guri, afinal não é a toa que teu pai é apelidado de “Zé do Peixe” - Falou Antonio, tio do menino, tranquilizando-o.
As embarcações já os esperavam na praia. O encontro com os outros pescadores foi animado.
Antes de adentrarem nas embarcações, deram-se as mãos, e fizeram sentida oração, pedindo a proteção de São Pedro, padroeiro dos pescadores.
As balsas singraram o mar, deixando para trás familiares e amigos dos aventureiros marítimos, que foram até a praia despedirem-se.
Após algumas horas, já em alto mar, as jangadas afastam-se, cada qual indo a direções diferentes, para logo lançarem as redes ao mar, na esperança de que ao serem recolhidas, estas estejam repletas de peixes.
A Jangada em que Zé do Peixe estava era compartilhada por Antonio e seu filho. Eles haviam lançado as redes mar adentro algumas vezes, no entanto, nada de peixes em quantidade, apenas algumas lulas, e uma espécie de peixe sem grande valor comercial. A noite sucede o dia e a tarefa dos pescadores continua em plena execução. A escuridão da noite somente é diminuída devido à luz da lua e das estrelas, além de pequeno candeeiro utilizado para iluminar o ambiente em que se encontravam.
Zé do Peixe acorda com seu irmão que irá tirar um cochilo, enquanto ele e seu filho ficam atentos as ocorrências na jangada, e que logo depois será a vez de outro descansar um pouco.
Recostando a cabeça próximo a um samburá, Zé logo adormece... E sonha...
- “Vamos pessoal, deixem de moleza, não é todo dia que aparece um grandão desses, não! Mais para o lado. Joguem a rede para cá, rápido. Pegamos, pegamos, é isso pessoal. Vamos, puxem a rede. Força. Este é dos grandes! Vixe Maria, é muito grande, não vai dar para colocar na jangada. Segurem com força que ele ta querendo escapar. Ah, mas não vai escapar mesmo! Não adianta se debater, você não vai fugir. Ai, danado, solta a minha mão. Corre Tonho, vem me ajudar a soltar minha mão da boca deste “peixão”. Estamos afundando, valha-nos São Pedro.”
- Acorda Zé. Tu estás tendo um pesadelo, homem. – Disse Antonio, tentando acalmar o irmão que se debatia em agonia.
Ainda sem recobrar a lucidez, Zé inquire:
- O que aconteceu. Cadê o “peixão”, para onde ele foi?
- Calma Zé. Você teve um pesadelo, só isso!
Sentindo desconforto em uma das mãos que estava dentro do bolso do agasalho que estava vestindo, Zé puxou a mão de dentro da blusa e a retirou junto com um peixe que estava agarrado nela. Talvez tenha pulado para fora do samburá, indo encontrar alojamento dentro de suas roupas!
- Zé, um peixinho como este fez tudo isso com você, imagine um “grandão? – Falou o irmão, caçoando do pobre infeliz.
- Não brinca Tonho. Vai ver foi um aviso. Já estou bem. Vamos continuar o trabalho. Alguém quer descansar um pouco? - Perguntou.
Pai e filho responderam - Não, não estamos com sono!
- Então, mãos a obra. Redes para o lado direito. - Finalizou.
Assim foi feito, e ao puxarem a rede, que surpresa!   A rede veio abarrotada de peixes e entre eles um “grandão” veio junto. A alegria tomou conta geral. Novamente as redes foram lançadas e mais peixes foram apanhados.
Já amanhecia e enquanto preparavam o retorno a praia, Zé, meio sem jeito, pediu para que não comentassem sobre o episódio do pesadelo, afinal não ficava bem um pescador tão respeitado ter dado um vexame destes.
- Por que a preocupação, Zé? Mesmo que esta história escape, sem querer, nos botecos da vida, enquanto jogamos conversa fora, quem vai acreditar? Vão dizer que é história de pescador! – Falou Antonio, sorrindo e abraçando o irmão.



Otaviano Maciel de Alencar Filho

sábado, 22 de dezembro de 2012

Antes do fim do mundo




               



O ano de 2012 inicia-se trazendo com ele a expectativa de dias melhores. Rumores de que o ano que se inicia será marcado por inúmeras calamidades não são suficientes para que a maioria da população do mundo faça coro com uma minoria que, de tempos em tempos, surge trazendo revelações catastróficas acerca do fim da existência humana no planeta em que habitamos.
O imaginário profético dessas criaturas é rico em detalhes em relação à hecatombe prevista para o final dos tempos.  Desde a passagem de um astro gigantesco que perambula pela nossa galáxia, que alguns o denominam “Nibiru” ou planeta “X”, que com sua proximidade com a terra deslocaria o eixo terrestre, verticalizando-o e promovendo catástrofes inimagináveis pelos seres humanos a terremotos e consequentemente tsunamis, que varreriam quase a totalidade dos seres viventes da face do planeta. Contudo, pequena parcela da população não precisaria se preocupar, pois naves interestelares do comando galáctico de nosso sistema estariam de prontidão, abduzindo os “escolhidos” e levando-os a outros orbes, onde continuariam suas “missões”.
Nos dias atuais, o fim do mundo ganha maior notoriedade devido a uma profecia atribuída aos povos maias. Segundo os profetas de plantão, os indícios do trágico fim estariam registrados no calendário maia, que tem seu fim no dia 21 de dezembro do corrente ano.
                      Os maias creditavam ao tempo o fator cíclico, dessa forma os acontecimentos naturais terrestres e celestiais eram registrados em calendários que obedeciam a uma contagem cíclica e periódica. Assim, de tempos em tempos um novo ciclo iniciar-se-ia. O ano que ora estamos vivenciando é, pois, segundo a cronologia maia, o final de um desses ciclos. Embora especulações variadas em torno do assunto, feitas por pseudo-sábios, afirmem que 2012 será um ano em que ocorrerão abalos sísmicos em grande parte da Terra, ocasionando tsunamis com ondas gigantescas invadindo as terras mais baixas e inundando os continentes, nada disso é corroborado nos escritos maias, de vez que ali somente é relatado o final de um ciclo e o começo de outro, ficando tudo mais o que for dito a respeito creditado à imaginação de formadores de opinião que, sem nenhum escrúpulo, aviltam a própria consciência, levando suas teorias sem fundamentação histórica, antropológica, sociológica e das demais ciências em geral a seus incautos seguidores que se permitem as mais diversas influenciações, muitas vezes perniciosas ao bem estar e a manutenção da ordem pública e social.
Não é de hoje que os “Profetas do apocalipse” intentam êxito nos prognósticos feitos em relação à ordem natural dos acontecimentos.
O fim do mundo já foi dado como certo em várias épocas no passado, decepcionando adivinhadores que, não se dando por vencidos, mudavam periodicamente as datas da provável extinção planetária.
 Lembro-me de que quando era criança, ouvia minha avó materna afiançar o fim do mundo para breve, e que dessa vez o mesmo acabaria em chamas, de vez que no passado o mesmo já havia acabado com água. Fazia alusão ao dilúvio bíblico. Dizia também que o mundo não chegaria ao ano 2000. Infelizmente ela não viveu o suficiente para ver a chegada do terceiro milênio.
Enfim, ultrapassamos mais uma barreira místico-temporal e nos encontramos no fatídico ano de 2012, mais precisamente no dia 18 de dezembro, e enquanto escrevo estas linhas fico a imaginar como será a noite do dia 20 para o dia 21.                                                                                                  
Será que as pessoas conseguirão ter uma noite e um despertar tranquilos? E no decorrer do dia 21 teremos um dia normal com pessoas indo às compras as vésperas do natal?
Enquanto refletia sobre o assunto, lembrei-me de um colóquio que tive com alguns colegas de trabalho, dias atrás:
- O que vocês pensam sobre a estória do fim do mundo para o próximo final de semana?  Perguntei.
- Não acredito nisso, é só mais um meio de enganar o povo e tirar a atenção das barbáries que são impostas aos povos menos favorecidos. – Respondeu Álvaro, rispidamente.
- Sei não... Vai que de tanto marcarem o final dos tempos, dessa vez o fato se consuma e ai nem comemoraremos o Natal e o réveillon.  Que tal celebrarmos as duas datas na noite do dia 20? – Indaguei, brincando, e esperei a sua reação.
Qual não foi minha surpresa com sua resposta:
- De minha parte, sinto muito, não vai dar.
- Não, por que não?- Tornei a perguntar.
- Estou “duro”, não tenho dinheiro para arcar com o rateio das despesas com a alimentação e as bebidas. – Respondeu de imediato.
- Mas o pagamento do mês vai ser antecipado e não vejo motivo para você não participar. – Falei, tentando “tirá-lo de tempo”.
- Está sabendo qual vai ser o dia do pagamento? – Dirigiu-me esta pergunta, demonstrando sarcasmo no falar.
- Não! – Respondi.
- Dia 21 de dezembro. – Finalizou!




                                  Otaviano Maciel de Alencar Filho

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Sou Assim





 
Meio triste, meio contente.
Às vezes meio ausente!
Diferente de muita gente.
Talvez seja um dissidente!

Pessoas há que gostam de mim.
Outras nem tanto assim!
Nem sempre digo que sim,
O não também tem seu fim!

Perscrutador, exímio observador!
Agindo tal qual viajor.
Buscando na vida o labor,
Sem desdenhar seu valor.

                                                            Assim vou vivendo sem dor,
                                                            Sem traumas e sem temor!
                                                            Cantando com muito fervor,
                                                            Frases que lembrem amor!



                                                        Otaviano Maciel de Alencar Filho

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O verdadeiro amor


O dia amanhecera, e com ele, os primeiros raios de sol começavam a banhar de luz a capital “Alencarina”, terra da luz, terra do sol, que começava a despertar de uma noite cheia de “agito”, característico das grandes cidades. O vai e vem das pessoas, que no início do dia é compassado, aos poucos dava lugar à agitação comum às grandes metrópoles. A Praça do Ferreira, local turístico muito frequentado por visitantes de outros estados, além é claro, do povo cearense, situada no coração da cidade, aos poucos se apinhava de pessoas. Os bancos do logradouro logo lotavam, e se falassem, denunciariam as confissões, os segredos ou mesmo os impropérios ditados aos jogadores e seus respectivos times de futebol.
Em um banco mais afastado do centro da praça, encolhido e mergulhado em íntimas conversações, um jovem aparentando vinte anos de idade, não chamava a atenção dos passantes e sua presença seria ignorada não fosse a atenção dispensada por um velhinho, que se aproximando, procurou entreter diálogo com o mesmo.
- Notei que está muito pensativo, observo-o há alguns minutos e posso ver a tristeza em seu semblante, talvez queira conversar um pouco com um velho já mais experiente na vida. – Disse o senhor puxando conversa.
- Não, o senhor não pode me ajudar, sinto muito, agradeço o interesse, mas ninguém poderá prestar-me auxílio.
O velho insistiu na conversa.
- Talvez você esteja errado, é sempre de bom alvitre dar atenção às experiências narradas pelos mais velhos.
O rapaz decidiu então abrir seu coração ao bondoso ancião.
- Sinto a falta de minha noiva, que repentinamente decidiu viajar para o exterior, em busca de “subir na vida”, como ela mesma dizia, já que é modelo fotográfico. Mesmo jurando fidelidade e que voltaria para meus braços, sinto-me desolado. Ela não poderia fazer isto comigo. Eu que, desde o início de nosso namoro, dediquei minha vida para ela e nossos sonhos de uma vida a dois?!
- Sinto muito meu jovem, não obstante, sei o que é um coração dilacerado pela ausência de quem amamos, junto de nós. Explicarei melhor: Quando tinha aproximadamente a sua idade, fiquei loucamente apaixonado por bela moça, no entanto ela não dava a mínima para os meus sentimentos, pois eu era de uma família pouco abastada, e ela de uma família da alta sociedade. Enlouqueci, quando soube que casaria com um de meus amigos. Fato que se consumou! Desde então, não deixei mais de atormentá-los. Mandava-lhe bilhetes, solicitando encontros ilícitos que, naturalmente, eram rejeitados por ela, deixando-me ainda mais furioso. Sua vida virou um inferno. Seu esposo dizia que tudo era culpa dela, pois se ela quisesse colocaria um fim nessa situação. Não demorou muito e o casamento desmoronou. Fiquei feliz com o acontecido, acreditando que a mulher dos meus sonhos, agora, seria presa fácil das minhas novas investidas de Don Juan. Porém as coisas não sucederam como eu desejava. Minha bela amada adoeceu com a separação e entrou em profundo ostracismo, não se relacionando com ninguém, caindo em severa depressão, isolando-se do mundo, inclusive tentando o suicídio. Foi somente então que vi o quanto eu estava errado em querer tê-la para mim. Não suportando vê-la neste estado deplorável, resolvi deixar de lado todo o meu orgulho e egoísmo insano e passei então a tentar a aproximação dela e de seu ex-marido, o que consegui depois de algum tempo. Após vários encontros com o meu antigo rival e desafeto, mostrei-lhe o meu arrependimento e pedi-lhe perdão por meus desatinos. Os dois reataram e passaram a viver uma vida próspera e cheia de felicidades. Depois desapareci de suas vidas e fui buscar minha felicidade junto à outra pessoa que realmente me amasse. Hoje, já quase no final de minha vida, compreendo que amor é muito mais que paixão, desejo ou algo que o valha. Por isso, meu jovem, não sofra nem a faça sofrer, impedindo-a de seguir sua vida. Se a moça tiver de ser sua companheira de jornada terrena, ela certamente será! Não amargue um futuro cheio de remorsos por não ter proporcionado a felicidade de alguém, em detrimento de um sentimento egoísta desvairado!
O rapaz agradeceu as palavras de estímulos e despediu-se, deixando a praça.
Passados seis meses após o ocorrido, a jovem retorna do exterior, após ter assinado contrato de trabalho com uma grande grife de confecções, para a divulgação da marca, aqui no Brasil. agradece ao noivo sua compreensão quanto a sua ausência nos últimos meses, firmando compromisso de que de agora em diante os dois ficariam juntos, para sempre, pois ela o amava bastante!



                                       Otaviano Maciel de Alencar Filho

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A seca e a escassez de educação



A seca que insiste em castigar incessantemente o sertão cearense não dá trégua. O semblante do trabalhador rural denuncia o sofrimento ocasionado pela escassez do elemento primordial à vida: A água! Não resta outra opção a não ser apelar aos céus na esperança de dias melhores. O santo padroeiro do estado do Ceará, São José, a cada ano passa a ter mais devotos que suplicam, em preces, sua interseção junto ao Pai Maior em favor de uma causa nobre, que é a solução do problema da escassez de chuvas no interior do estado. Enquanto a resposta do Alto não vem, o poder público, no seu eterno faz de contas, acredita minimizar esse tormento aplicando medidas paliativas, que a rigor em nada satisfaz a necessidade da população interiorana. A solução imediatista é o emprego dos chamados carros pipas, que levam água àquelas cidades mais afetadas pela prolongada estiagem. Porém, isso só não é suficiente, aliás, não é o bastante, uma vez que o consumo de água não é somente para saciar a sede abrasadora que desnutre e definha o corpo do já calejado sertanejo. O líquido precioso também é usado para cozinhar, lavar as roupas e os utensílios do lar, além do banho.
A obstinação em não se aplicar políticas públicas que atendam a necessidade do povo, é resultado de anos e anos de mandos e desmandos, herdados da época do “coronelismo”, quando em busca de votos, em épocas de eleição, as promessas milagrosas de solucionar as dificuldades do “rebanho eleitoreiro” eram postas em pautas e dadas como solução iminente. As coisas não mudaram muito até os dias de hoje. Apesar de o cenário político-social ter avançado em alguns setores, faz-se ressentir de ações voltadas para liquidar de vez a problemática do abastecimento de água nos lugares mais distantes das sedes dos governos. Será que se a capital do Ceará estivesse localizada, por exemplo, no município de Salitre, haveria falta de água?!
A perfuração de poços artesianos nas regiões atingidas pela estiagem, tem sido alternativa na busca de solucionar o problema, enquanto são cogitadas outras formas de atuação ostensiva, como a transposição de águas de rios perenes como o São Francisco, por exemplo. A dificuldade maior é que a água obtida nos poços é salobra, ou seja, a taxa de salinidade é alta. Isso faz com que esses projetos, segundo os órgãos responsáveis, não sejam viáveis em algumas localidades.
Enquanto isso o povo aguarda a resposta do Alto, olhando para o céu, na esperança de surgirem nuvens carregadas de água, própria para o consumo.
Alguns habitantes dessas regiões, ignorando as técnicas e recursos existentes na atualidade, no que diz respeito ao tratamento desse tipo de água, desabafam:
- Não adianta perfurar um poço aqui, pois a água não presta, é salobra!
Outros asseveram:
- Se o caminhão pipa viesse mais vezes, seria bom! É preferível andar umas léguas a mais a ter que utilizar essa água!
Esse é o tipo de discurso que qualquer candidato, sem escrúpulos, a uma vaga no poder público almeja escutar.
Não se pode cobrar muito de quem já sofreu o bastante em sua romagem terrena!
No entanto, basta lembrarmo-nos que em Israel, onde as condições climáticas são ainda mais críticas que as do nordeste do Brasil, o problema de abastecimento de água foi resolvido. E, diga-se de passagem, é modelo de gestão de recursos hídricos para o mundo. No território israelense foi construída a maior usina de dessalinização por osmose reversa do mundo. A água proveniente do mar mediterrâneo é então tornada potável e distribuída à população!
Os gestores públicos, em especial os vereadores, pessoas como nós, que alcançaram o status e a posição privilegiada em que se encontram graças a nossa confiança depositada neles através do voto, têm o dever de honrar com as suas devidas atribuições, tais como: Lutar pela construção e funcionamento de escolas, instalação de energia elétrica, pavimentação de vias públicas urbanas, perfuração e funcionamento de poços tubulares, abastecimento de água, etc...
Lembrando das palavras do Cristo, o sertanejo religioso comenta em tom baixinho com o turista, que se encontra ao seu lado, enquanto oram, na igreja:
- Amigo, Jesus disse: "pedis e obtereis". Tenho fé que dias melhores virão!
O visitante, reticente, disse:
- Não basta ter fé, também é importante instruir-se. O maior pecado é a ignorância e o seu maior castigo é o sofrimento!
O sertanejo olhou meio desconfiado. Em sua humilde condição de iletrado, mas não de burro, entendeu o que o visitante quis dizer, e, olhando nos olhos dele, tascou: Daqui em diante ninguém me põe mais cabresto!



                                               Otaviano Maciel de Alencar Filho




segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A senhora e o moço



Vida difícil a de quem tem que pegar transporte coletivo todos os dias para ir trabalhar. Será que alguém ainda tem dúvidas a respeito dessa afirmativa? Acredito que não! Mesmo assim, deixo margem a quem quer que queira para discordar do que acabo de afirmar. Sou catedrático nesse assunto. Espere um momento! Acho que falei o que não devia, ou melhor, escrevi o que não queria. Não, pensando bem fui um tanto egoísta quando afirmei ser um ‘catedrático no assunto’, dando a interpretações diversas o que acabei de afirmar. Afinal de contas, somos, nós, milhões de brasileiros, usuários do sistema de transportes coletivos urbanos, seja ele público ou de concessão à iniciativa privada, experientes nesse setor, quando o assunto é a dificuldade de se tomar um ônibus, um trem, uma van, uma topic, etc. Filas enormes nos terminais de integração . Isso sem falar na volta para casa depois de um dia de trabalho estafante.
Ônibus lotado. Sequer dava para respirar!
De pé, logo ali, um pouco afastado do assento do motorista, eu me encontrava nessa situação. O vai e vem do coletivo, causado pelas freadas bruscas efetuadas pelo condutor do veículo, dava a impressão que estávamos nós, passageiros, todos em um desses brinquedos que a gente encontra nos parques de diversões. Sentados na cadeira ao meu lado, se encontravam dois jovens rapazes, aparentando uns vinte e poucos anos de idade. Ao meu lado, também em pé, estava uma senhora, que pela aparência física denotava ser uma pessoa de idade avançada. Muito natural, portanto, que um dos rapazes oferecesse o lugar para a distinta senhora se acomodar e sair do aperto em que se encontrava. E foi o que aconteceu.
Não imaginava, porém, que a partir daquele momento fosse ser travado um diálogo dos mais inusitados já presenciados por mim, dentro de um coletivo. Já acomodada na cadeira, a senhora sentiu-se mais aliviada. O jovem sentado à seu lado, deixando transparecer que estava sentindo um odor nada agradável, fazia gestos para o colega que agora estava de pé. A senhora percebera que a atitude tomada pelo mesmo, tinha algo a ver com ela. No entanto, o moço não contendo a insatisfação de ter que suportar algo tão desagradável, desabafou:
- Não é possível que as pessoas não tomem um banho antes de adentrarem em um coletivo para voltarem as suas casas. Deveriam no mínimo usarem esses desodorantes de rolo! São tão baratos!
Falando, desse modo, se eximia da responsabilidade de estar direcionando sua insatisfação à senhora, e sua queixa, dessa forma, seria direcionada a qualquer um que se visse incomodado com seus reclames. Contudo, a senhora notara a malícia contida nas entrelinhas de seus queixumes.
- Tem gente que sequer ganha o suficiente para se alimentar, – Disse ela, tentando por um fim na conversa. Não suspeitava ela, que o embate apenas começara.
Não tem jeito mesmo, quando se trava uma discussão, cada parte envolvida não mede esforços na tentativa de provar que está com a razão. E eu, no meu lugar, sem levantar um pé, para não correr o risco de quando quiser colocá-lo no local novamente, pisar em cima de outro, já colocado no lugar em que o meu estava anteriormente!
O moço, agora, já não podia mais esconder que estava se referindo a ela, e disse:
- Por menor que seja o salário recebido por alguém, é inadmissível que não se possa comprar um rolinho de desodorante!
- A culpa é do governo que determina uma miséria de "salário mínimo" a ser pago ao trabalhador... Mesmo assim, um mal cheiro a mais ou a menos não faz diferença para quem não tem condições de comprar nem o que comer. – Desabafou a senhora.
- Então, a senhora não gosta do que faz?
- Não considero justo o quanto ganho. Acho injusto passar o dia inteirinho dando de tudo, para no final do mês receber uma miséria de salário.
- A senhora acredita em Deus?
- Claro!
- Então! E na Bíblia?
- Não do jeito que muitos creem! O que a bíblia tem a ver com isto?!
- Ué, nos ensina a suportar as dificuldades que a vida nos impõe. A Bíblia é a palavra de Deus!
- Como crer integralmente em algo que foi escrito por mãos humanas, que não raro sofreu intervenção por parte de quem escreveu algumas de suas passagens. É verdade que eu creio em Deus, e que na Bíblia existem muitas verdades e virtudes, isso é o que me interessa. Do que adianta andar com o livro sagrado debaixo do sovaco e não ser solidário para com o próximo?
- Mas quem faz isso prestará contas com Deus no dia do juízo final! – Insistiu o rapaz!
O diálogo foi, cada vez mais, ficando acalorado, e confesso, estranhei que com tanta gente dentro do coletivo ninguém interviesse no assunto.
E onde foi parar a celeuma em torno do mau cheiro?
Sinceramente, não sei, pois o ponto em que devia descer já estava próximo, e fui me adiantando até a porta de descida do ônibus. Desci. Dei graças a Deus! Só posso dizer que desse acontecimento tirei mais uma lição de vida: Não podemos forçar ninguém a mudar de comportamento e muito menos aceitar nosso ponto de vista acerca do que temos como verdadeiro. Só o tempo dirá se estamos ou não com a razão.



                                              Otaviano Maciel de Alencar Filho

Mentiras e mais mentiras

                                         Atualmente vemos ordinariamente na imprensa escrita assim como nas mídias digitais, infor...